.::
A DISFUNÇÃO
TUBÁRIA E OTITES – SUAS IMPLICAÇÕES NO
DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM
Autora: Fga. Cynthia
Meira de Almeida Godoy
e-mail: godoy@digi.com.br
INFLUÊNCIA
DAS OTITES NO DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM E COGNIÇÃO:
As perdas condutivas,
mesmo as mais leves, podem levar ao abafamento do som prejudicando
a qualidade auditiva da criança, onde ela tem dificuldade
para ouvir e perceber a riqueza dos detalhes que a informação
sonora pode trazer.
Num trabalho
desenvolvido por Longone, Favelo, Santos, Cruz Filho, Borges
e Costa (1998) com 50 crianças, foi encontrado 34%
de perda auditiva do tipo condutiva de grau leve, uni ou bilateral.
Essa incidência de perda auditiva, mesmo que temporária,
poderá levar a privações sensoriais.
E, segundo Menytc 1986) "a privação sensorial
afeta o desenvolvimento das funções cognitivas
e lingüistícas da criança". Além
disso, concomitante com a maturação da função
auditiva, estão o desenvolvimento da fala e da habilidade
da linguagem ( Down & Northen, 1989).
Skinner
(1978), citado por Longone e colaboradores (1998), relatou
uma série de dificuldades que uma criança em
fase de aprendizado da linguagem pode apresentar quando é
portadora de deficiência auditiva leve:
1 – Perda da
constância das pistas auditivas quando a informação
acústica flutua;
2 – Confusão
dos parâmetros acústicos na fala rápida;
3 – Confusão
na segmentação e na prosódia;
4 – Mascaramento
em ambiente ruídoso;
5 – Quebra
na habilidade em perceber os sons da fala;
6 – Quebra
na habilidade de perceber, de forma precoce, os agudos;
7 – Abstração
errônea das regras gramaticais;
8 – Perda dos
padrões de entonação subliminares.
Esses dados
comprovam o quanto de pista auditiva a criança perde
e que essa alterações afetam o desenvolvimento
da linguagem e fala da mesma.
No estudo
de Longone, Favero, Santos, Cruz Filho, Borges e Costa (1998),
com 50 crianças com perda auditiva leve, grande parte
dos pacientes apresentavam reflexos acústicos contralateral
ausente ou em níveis aumentados, sugerindo alteração
no processamento auditivo central.
Essa alteração,
no processamento auditivo central, pode ocorrer, já
que sabemos que quando medimos os reflexos acústicos
podemos obter medidas funcionais localizadas no tronco cerebral,
em virtude do envolvimento desse arco reflexo com as atividades
neurais dos núcleos auditivos ai localizados.
Esses mesmos
núcleos também desempenham atividades envolvidas
no processamento auditivo central e é possível
que alguma disfunção desses núcleos leve
tanto a alteração do reflexo acústico
( mesmo com audição normal), como falha em habilidades
envolvidas no processamento auditivo central ( localização,
atenção seletiva, reconhecimento da fala no
ruído, seletividade de freqüência).
Num estudo
realizado por Roberts, Burchinal, Zeisel, Neebe, Hooper, Roush,
Bryant, Mundy, Herderson em 1998, com 86 crianças africanas
entre 6 à 24 meses, mostrou que as mesmas experimentaram
otite média uni ou bilateral na proporção
de 63% entre 6 à 12 meses de idade, e reduziu a sensibilidade
auditiva na proporção de 44% no período
entre 6 à 24 meses.
A proporção
de tempo com otite média com efusão ou perda
auditiva foi modesta e correlacionando com medidas de habilidades
de linguagem e cognição, essa relação
entre alteração na linguagem e presença
de otite média, não foi muito significante quando
a avaliação do meio familiar e cuidado com a
criança foi também considerado. Isto é,
quando a criança era avaliada levando em consideração,
além da perda temporária devido a otite, o meio
onde ela vive e o tipo de estimulação que recebe,
a influência da presença da perda auditiva não
foi significativa o suficiente para considerá-la com
causa ou fator principal de alteração no desenvolvimento
da linguagem.
Embora vários
estudos tenham pesquisado a associação entre
otite média com efusão freqüente e persistente
durante a infância e período pré-escolar,
a causa da otite média com efusão e seqüelas
tardias na linguagem continua sendo debatida.
Crianças
com otite freqüentemente experimentam perda auditiva
flutuante de suave a moderada e deste modo, recidivas parciais
ou sinal inconsistente de audição trazendo dificuldade
maior na detecção de fala. Isso pode diminuir
a discriminação e processamento de fala e causar
na criança informações ineficientes,
incompletas ou imprecisas nos dados para o desenvolvimento
da linguagem.
Perda auditiva
persistente ou recurrente devido a otite media de efusão
pode diminuir as habilidades da criança em desenvolver
linguagem.
Apesar do conceito
lógico da relação hipotética entre
otite média de efusão e seqüela de linguagem,
vários estudos tem mostrado a não associação
em otite média com efusão na infância
e linguagem durante os primeiros 4 anos de vida.
Para Roberts
e colaboradores (1998) a forma como os dados são colhidos
em pesquisas desse tipo não são eficientes.
Para eles existem 4 fatores que poderiam explicar as diferenças
encontradas nos estudos examinando otite média com
efusão e prática da linguagem tardia:
1) Poucos estudos
tem examinado perda auditiva como variável independente.
Em seu lugar usam a otite média como uma variável
preditora, ou seja, ela como causa principal. Entretanto,
o grau da perda auditiva associado com otite média
de efusão não é constante. Algumas crianças
não experimentam perdas auditivas moderadas com 50
dB que explicassem a dificuldade na percepção
da fala;
2) Os estudos
não tem considerado recentes modelos de desenvolvimento
da criança que enfatiza a natureza multifatorial, particularmente
a importância do cuidado ambiental afetando o desenvolvimento
da criança. Consideráveis pesquisas de suporte
influenciam no estilo de resposta da interação
pelos pais e pelo cuidado na produção de programas
que facilitem o desenvolvimento da linguagem da criança.
Portanto, estudos de seqüelas de linguagem na otite média
devem examinar cuidadosamente o meio ambiente da criança
em casa e o cuidado com a mesma, para entendermos como a otite
média pode afetar mais tarde o desenvolvimento da linguagem;
3) As medidas
do desenvolvimento da linguagem depende de estudos prévios
que tenham sido medidos amplamente ( ex: linguagem receptiva
ou linguagem expressiva) e que podem não ser sensível
para efeito específico da otite média e perda
auditiva associada. A competência específica
da linguagem (ex. aquisição do vocabulário
e uso da linguagem) também necessita ser examinado
quando observando seqüelas de otite média.
4) Poucos estudos
tem examinado se certos períodos do desenvolvimento
foi particularmente sentido por dificuldade na linguagem devido
a otite média. É possível que períodos
específicos, tal como quando a criança está
adquirindo associações som – símbolos
da sua língua nativa durante o primeiro ano de vida,
a mesma esta mais vulnerável para dificuldades da linguagem
que períodos mais tarde quando a criança está
expandindo seu vocabulário e tamanho de sentenças.
Esses
mesmos autores realizaram um estudo prospectivo recente e
não encontraram uma associação direta
da otite média com efusão e perda auditiva e
desenvolvimento de linguagem e cognição no primeiro
ano de vida. De qualquer modo, crianças com otites
freqüentes tenderam a ser menos responsiva ao meio familiar
e infantil e estavam ligadas a baixa performance no primeiro
ano de vida.
Esse padrão
de interação pode ter um impacto negativo no
desenvolvimento da linguagem da criança. Essa explanação
é consistente com estudos onde as mães de crianças
com história de otite média eram menos interessadas
e sociáveis com suas crianças e viam, elas mesmas,
como mais deprimidas e menos competentes. ( Baron, Gerson,
Freeland, Nair, Rubin, Hitchesan 1998)
O estudo
de Robets e colaboradores (1998), pode ser interpretado como
uma simples reflexão da confusão que existe
entre otite média com efusão, perda auditiva
associada e cuidado ambiental.
Tal confusão
ocorre quando a criança experimenta mais freqüentemente
otite média ou associado perda auditiva e feitos no
desenvolvimento pobre porque ela esta numa qualidade ambiental
pobre. Isto é, a criança de baixa qualidade
ambiental experimentam mais otite média e perda auditiva
associada porque fatores comumente associados como baixa qualidade
de cuidados tais como, maior abandono em casa, mais freqüente
uso de mamadeira e higiene global estariam interferindo numa
maior probabilidade do surgimento das otites e como conseqüência
dificuldade de percepção sonora.
A baixa qualidade
no meio familiar também está associado com baixo
escor no efeito da linguagem e cognição. E Roberts
e colaboradores (1995) ainda completam dizendo que esse baixo
escor estariam presentes na idade pré-escolar e no
ano escolar.
A falha
para uma associação direta entre otite média
com efusão e perda auditiva com efeito na linguagem/cognição
nos 2 anos de vida é consistente com o encontrado em
outros estudos.
COMENTÁRIOS
FINAIS:
A otite média
e a disfunção tubária são patologias
comuns em crianças, principalmente nos primeiros anos
de vida. Por ser uma patologia comum, muitos trabalhos foram
desenvolvidos como o objetivo de se pesquisar as alterações
mais freqüentes que ocorrem na audição
da criança e seqüelas que podem acontecer.
Sabemos que
para um bom desenvolvimento de linguagem, cognição
e fala, a integridade da audição é essencial.
Quando existe algum problema na condução do
som até o cérebro a criança pode ter
prejuízos no seu desenvolvimento.
A otite, ou
mesmo uma simples disfunção tubária,
pode dificultar a passagem do som através do ouvido
médio e esse som pode chegar ao cérebro de maneira
distorcida, ou mesmo, não ser ouvido pela criança.
A maioria dos
pais só procuram o médico especialista quando
seu filho está se queixando de dores no ouvido frequentemente.
Como a otite surge de maneira insidiosa, os pais não
percebem o problema na sua fase inicial.
Os estudos
e pesquisas relizados sobre otites e disfunção
tubária revelam a perda auditiva temporária
e o que a mesma pode causar, porém poucos estudos comprovam
a influência que essas patologias podem trazer para
o desenvolvimento de linguagem e fala da criança nos
primeiros anos de vida.
A confirmação
da perda auditiva temporária pode acontecer, porém
não se sabe ao certo se ela pode trazer alterações
tardias para a linguagem do bebê. As pesquisas realizadas
com essas crianças muitas vezes levam em consideração
o grau da perda, porém nenhum outro fator parece ser
considerado.
O fato da criança
ter otite e perda auditiva do tipo condutiva, não pode
por si só justificar atraso no desenvolvimento de linguagem
da criança ou distorção na fala. Outros
fatores externos e importantes devem ser considerados. Afinal,
a criança não irá desenvolver linguagem
se não tiver estimulação e cuidados em
casa.
Fatores ambientais
como fumantes em casa, interação com os pais,
convívio com outras crianças e raça são
citados por alguns autores e podem influenciar de maneira
indireta tanto para o surgimento das otites como também
dificuldades no desenvolvimento da linguagem.
Dos trabalhos
analisados não foi encontrado evidências concretas
sobre a influencia das otites e atraso no desenvolvimento
da linguagem, porém acredita-se que se as otites ocorrem
no período onde a criança está iniciando
o desenvolvimento da linguagem e percepção dos
sons da fala, importantes para a discriminação,
ela pode perder muitas das informações recebidas
e ter prejuízos tardios na fase pré-escolar
e/ou escolar.
A maioria dos
trabalhos relatam incidência maior das otites no primeiro
ano de vida e a partir do segundo ano essa incidência
cai. Outro aspecto, que parece ser comum é que crianças
com mais probabiidade de otites de repetição,
têm mais chances de ter seqüelas futuras na linguagem,
já que as perdas auditivas perduram por mais tempo.
Um fator importante
que não podemos deixar de comentar é que crianças
com patologias como fissuras palatinas, síndrome de
Down e Apert’s, por exemplo, podem ser um fator a mais para
o mau funcionamento da tuba e como conseqüência,
o surgimento das otites.
Apesar da alta
incidência de otites no primeiro ano de vida, os trabalhos
pesquisados não falam sobre orientações
aos pais com o objetivo de prevenir e/ou minimizar problemas
futuros com a linguagem da criança.
O que observamos
hoje em dia é que tanto pais como professores não
estão cientes dos problemas que as infecções
freqüentes do ouvido médio podem trazer e como
eles podem atuar para prevenir problemas futuros.
Desta forma,
o audiologista tem um papel importante dentro desse contexto
e deve, a medida do possível, conscientizar os pais
sobre os problemas que as otites podem trazer.
Muitos fonoaudiólogos
ainda continuam acreditando que um conhecimento básico
sobre o funcionamento do audiômetro e os resultados
dos exames encontrados nas suas avaliações são
suficientes. Porém, o profissional audiologista deve
mudar essa visão e se sentir responsável pelo
paciente, já que o exame realizado por ele vai ajudar
na conduta que o otorrinolaringologista deve tomar com o paciente.
Temos que ter
uma visão mais global no momento da nossa avaliação.
Saber que a criança tem o problema auditivo é
importante, porém não é tudo. Orientar
e explicar aos pais o que eles podem fazer para participar
mais ativamente do problema do seu filho ajuda no desenvolvimento
não só auditivo e de linguagem, mas no seu desenvolvimento
social e emocional.
BIBLIOGRAFIA:
ALTMANN,
E. B. C. Fissuras Lábiopalatinas. Carapicuiba
– Pró-fono departamento editorial, 1994.
ALBERNAZ,
P. L. M.; GANANÇA M. M.; FUKUDA Y.; M. M. S. Otorrinolaringologia
para o Clínico Geral. São Paulo, 1997.
19p, 72p e 73p.
BESS, F.
H.; HUMES, L. E. –Fundamentos de Audiologia – 2O
ed.- Porto Alegre; Artmed, 1998.p 346 – 53.
BUTUGAN,
O.; BOGAR, P. Otites Médias na Infância. Pediatria
Moderna.,29: 467-74,1993.
BUTUGAN,
O. Otite Média na Infância. Revista Brasileira
de Clínica e Terapêutica.,19: 454-61, 1990.
BLUESTONE, C. D.; CANTEKIN, E. I. Eusttachian Tube Dysfunction
. 1979.
BLUESTONE, C. D. Recentes
Progressos na Patogenia, Diagnóstico e no tratamento
da Otite Média. Clínicas Pediátricas
da América do Norte.,28: 755-85, 1981.
HUNGRIA, H. Otorrinolaringologia. Rio de Janeiro, Guanabara
koogam, 1991
JERGER, S.;
JERGER, J. – Alterações Auditivas: Um Manual
para Avaliação Clínica. Rio de
Janeiro, Livraria Atheneu Editora, 1989.
LONGONE,E;
FÁVERO,S. R.; SANTOS, S. R.; FILHO,C. N. A.; BORGES,A.
C. C.; COSTA, G. R. – Perfil Audiológico de Pacientes
com Queixas Nasais – Revista da Sociedade Brasileira
de Fonoaudiologia – Nov. 1998.p 51- 4.
NORTHERN,
J. L.; DOWNS, M. P. – Audição em Criança.
São Paulo, Ed. Manole, 1989. 61p, 62p, 67p.
PARADISE,
J. L.; ROCKETTE, H. E.; COLBORN, K.; BERNARD, B. S.; SMITH,
C. G.; KURS-LASKY,M.; JANASKY, J. E. – Otitis Media in 2253
Pittsburgh Area Infants: Prevalence and Risk Factors During
the First Two years of Life - Pediatrics – Volume
99 – Number 3 – Marca 1997.
PORTMANN,
M. – Manual de Otorrinilaringologia. Barcelona, Toray-Masson,
S.A. 1979.
ROBERTS,
J. E.; BURCHINAL, M. R.; MEDLEY, L. P.; ZEISEL, S. A.; MUNDY,
M.; ROUSH, J.; HOOPER, S.; BRYJANT, D.; HENDERSON, F. W.
–Neurodevelopmental Disabilities – Otitis Media Sensitivity
and Maternal Responsiveness in Relation to Language During
Infancy – Journal of Pediatrics – Volume 126 – Number
3 – 1995.p 481 – 87.
ROBERTS,
J. E.; BURCHIAL, M. R.; ZEISEL, S. A.; NEEBE, E. C.; HOOPER,
S. R.; ROUSH, J.; BRYANT, D.; MUNDY, M.; HENDERSON, F. W.-
Otites Media, The Caregiving Environment and Language and
Cognitive Outcomes at 2 years – Pediatrics – Volume
12 – Number 2. August 1998.
RUBEN, E.
M. Una Revision de La Patogenesis de La Otitis Media. Ver.
Med. Hondur.,51(1): 18-20,1983.
SEBÁSTIAN, G. – Audilogia Prática.
Rio de Janeiro, Enelivros, 3ed. 1986. 46p.
THOMPSON, V.; ZUBIZARRETA
J.; BERTELLI, J.; CAMPOS, J. R. – Compendio de Otorrinolaringologia.
Buenos Aires, 4ed., 1975.
TATO, J. M. – Fisiologia
In: ALONSO, M. J. eds. Tratado de Oto-rino-laringologia
y bronco-esofagologia. 1o parte, Madri, 1964.
69p.
ZEISEL, S. A.; ROBERTS, J. E.; NEEBE, E. C.; RIGGINS, R.;
HENDERSON, F. W. – A Longitudinal Study of Otitis Media
With Effussion Among 2 to 5 year-old African-American Children
in Child Care – Pedriatrics – Volume 103 – Número
1 – Janeiro 1999.p 15 – 19.