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A DISFUNÇÃO
TUBÁRIA E OTITES – SUAS IMPLICAÇÕES NO
DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM
Autora: Fga. Cynthia
Meira de Almeida Godoy
e-mail: godoy@digi.com.br
FATORES
QUE PODEM INFLUENCIAR O FUNCIONAMENTO DA TUBA:
Existem alguns
fatores que alteram o funcionamento da tuba como alergias,
adenoides hipertrofiadas, barotrauma, palato fissurado, tumores
na rinofaringe e fatores de desenvolvimento. ( Jerger &
Jerger 1989; Albernaz; Ganança; Fukuda 1997).
A obstrução
tubária parece ser de dois tipos: funcional e mecânica.
A funcional poderia resultar em um colapso persistente do
tubo eustaquiano devido a um aumento da complacência
tubária ou de um ineficiente mecanismo de abertura
ativa ou ambos.
Esse tipo de
obstrução é comum em lactentes e crianças
pequenas, isso porque a parte cartilaginosa da tuba é
flácida, tem maior diâmetro, é muito mais
horizontalizada, tornando os músculos tensores menos
eficientes.
A função
da tuba auditiva é ruim em crianças com otite
média e em crianças com história de doença
da orelha média.
O músculo
responsável pela abertura e fechamento da tuba é
menos eficiente em bebês e crianças pequenas.
Além disso, a tuba auditiva na criança fica
apenas num ângulo de 10O em relação
ao plano horizontal, enquanto que no adulto esse ângulo
é de 45O. Ela também é bem
mais curta em bebês. Esse ângulo e comprimento
reduzido na criança faz com que o líquido chegue
a orelha média apartir da área nasofaringea
com mais facilidade, tendo maior dificuldade para sair da
cavidade do ouvido médio.
A permeabilidade
pode também ser um outro tipo de disfunção
funcional, onde na forma extrema, a tuba fica aberta, mesmo
em repouso.
Quando a obstrução
funcional provoca um aumento de pressão negativa dentro
do O.M., associado ao colapso da membrana do tímpano,
temos a atelectasia, que seria a retração da
membrana timpânica para dentro da caixa do tímpano.
O equilíbrio
de pressão entre o O.M. e a atmosfera é importante,
porém a persistência de pressão negativa
no ouvido com obstrução funcional da tuba, poderá
resultar em uma otite média estéril com efusão
(Bluestone 1981). Se existe uma alta pressão negativa
no O.M. e uma grande bolha de ar penetra no O.M. a partir
da nasofaringe, as secreções nasofaríngicas
podem ser aspiradas para dentro do O.M., resultando em uma
otite média bacteriana aguda com efusão.
A obstrução
mecânica intrinseca da tuba auditiva pode ser provocada
por inflamação, principalmente, das vias aéreas
superiores.
Bluestone 1981,
considera a obstrução nasal como uma patogenia
da otite média com efusão. A deglutição,
com nariz obstruído( devido a inflamação
ou adenóide) resulta em uma pressão aérea
nasofaringea positiva inicial, seguida por uma fase de pressão
negativa. Quando a trompa é flexível, a pressão
nasofaríngea positiva poderá insuflar as secreções
infectadas para dentro do O.M., especialmente quando este
tiver uma pressão negativa elevada. Ou ainda, em caso
de pressão negativa na nasofaringe, a trompa poderia
não abrir e torna-se funcionalmente obstruída.
(Bluestone & Cantekin 1979).
A alergia também
é considerada como um dos fatores etiológicos
do surgimento das otites. Porém, o mecanismo pelo qual
a alergia pode causar otite com efusão permanece hipotético
e controvérsio. Alguns autores tem assumido o inchaço
da mucosa associado a alergia nasal a causa da obstrução
da tuba. Entretanto, não existe dados avaliados para
o suporte dessa controvérsia.
Outros investigadores
são da opinião que a otite média com
efusão associada a alergia nasal é uma doença
por si só.
As crianças
com fenda palatina apresentam disfunção na tuba.
A explicação seria a falta de um funcionamento
adequado da musculatura responsável pela abertura da
mesma. Com isso, esses pacientes ficam mais propensos a desenvolverem
otites.
A fenda submucosa
e a presença da úvula bífida também
estão associadas a alta incidência de otite média.
Outras causas
que podem levar a disfunção da tuba auditiva
são algumas condições congênitas,
traumáticas, neoplasticas, degenerativas, metabólcas
que podem resultar em anormalidade tubal.
A síndrome
de Pierre Robin, que tem presença de fenda palatina,
é uma síndrome com grande probabilidade de apresentar
disfunção tubária e como conseqüência
o surgimento da otite. Outras síndromes como Down’s,
Crouzon’s, Apert’s e Turner’s são citadas. Mesmo não
tendo um estudo formal da função nesses indivíduos,
acredita-se que a disfunção da tuba é
a causa mais provável de tal doença no ouvido.
Mesmo na ausência
de malformação craniofacial obvia, existe alguma
evidência que crianças e adultos com doenças
no ouvido médio tenham um defeito congênito que
resulta na disfunção da tuba auditiva.
Pacientes com
anormaliddes dentofaciais pode ter otite média ou desenvolver
doenças do ouvido médio como resultado dessa
anormalidade.
Em alguns pacientes
o desvio de septo, enfraquecendo a função da
tuba, tem sido reportado.
Trauma do palato,
osso pterigóideo, tensor do véu palatino e tuba
de eustáquio pode também resultar em função
anormal da tuba auditiva. Além disso, injuria do trigêmeo,
e em especial do ramo mandibular, pode resultar em obstrução
da mesma.
Doenças
neoplasicas, benignas ou malignas podem invadir palato e osso
pterigoideo podendo interferir na função do
músculo tensor do tímpano e resulta em obstrução
funcional da tuba.
Doenças
degenerativas, como a miastemia gravis pode alterar a função
eutaquiana.
A disfunção
da tuba pode ser idiopática, em alguns casos.
INCIDÊNCIA:
A otite média
para Northern & Downs (1989) é comum nos 2 primeiros
anos de vida e sua incidência a partir de então
decresce.
A otite média
serosa com efusão constitui uma das doenças
mais prevalentes na infância.
A revisão
dos estudos mostram que 76% à 95% de todos as crianças
têm pelo ao menos um episódio de otite média
até os 6 anos de idade. E a prevalência tem seu
pico durante os primeiros anos de vida. (Bess e Humes 1998)
Fatores como
idade, sexo, raça, estado sócio-econômico,
estação e clima foram estudados e parecem ser
significativos para o surgimento das otites médias.
Parece haver
uma relação entre a idade do início do
sintoma e a probabilidade de repetição dos episódios
de otite média. As crianças que parecem ser
propensas à doença da otite média e passam
por 5 ou 6 surtos nos primeiros anos de vida normalmente tiveram
seu primeiro episódio da doença durante seus
primeiros 18 meses. Uma criança que teve o seu 1O
episódio após os 18 meses de idade, a probabilidade
de episódio de repetição é mais
difícil. Isso significa dizer que quanto menor a criança
mais chance de ter otites (Butugan e Bodar 1993)
A otite varia
entre os sexos, ocorrendo mais no sexo masculino do que feminino.
A incidência é mais elevada no inverno que na
primavera.
Autores como
Bess e Humes (1998) relatam que as otites vem atingindo proporções
epidêmicas. Em crianças com menos de 6 anos a
otite é motivo mais comum para consulta com um médico.
Segundo o centro de doença em Atlanta, os diagnósticos
de infecção do ouvido aumentou para 178% em
1975 a 1990. Em 1975, houve 10 milhões de consultas
a dores de ouvido; em 1990, o número de visitas foi
de 25 milhões que custaram mais de 11 milhões
anualmente.
Acredita-se
que nove em cada 10 crianças terão pelo ao menos
uma infecção de ouvido e maioria terá
pelo ao menos uma infecção aguda do ouvido até
os 3 anos de idade, e mais de 1/3 de todos as crianças
terão 3 infecções agudas. A maioria das
autoridades acreditam que isso acontece devido a freqüência
das crianças nas creches. Essas crianças têm
uma prevalência muito mais alta de infecções
respiratórias nas vias superiores, e subsequentemente
, infecções do ouvido.
Bluestone (1981)
comenta que os lactentes e crianças pequenas encontram-se
no mais alto risco para aquisição de otite média,
com taxa de pico de prevalência em 6 a 36 meses. A incidência
é maior nos meninos, em crianças com fenda palatina
e outras anomalias craniofaciais e mais elevada em brancos
do que em negros.
Butugan (1990)
justifica a incidência maior nos lactentes devido a
predisposição dos mesmos as infecções
em geral e em particular as infecções respiratórias.
Em algumas
pessoas as otites de repetição pode ocorrer
por um período de anos. E a otite recorrente e severa
durante os 3 primeiros anos de vida podem ser associada a
retardo de linguagem em algumas crianças. (Jerger &
Jerger 1989).
Num estudo
realizado com 86 crianças afroamericanas entre 2 a
5 anos, por Zeisel, Roberts, Neebe, Riggins, Henderson em
janeiro de 1999, mostrou que a prevalência de otite
média com efusão decai quando a criança
fica mais velha. A proporção média dos
exames demonstram otite média de efusão alcançando
12% entre 24 a 30 meses para 4% entre 54 a 60 meses. A proporção
média dos exames revelaram ouvido ou audição
normal bilateral aumentada para 77% de 24 a 30 meses para
80% de 54 a 60 meses. Contudo 60 crianças experenciaram
otite média com efusão bilateral nos últimos
4 meses ou mais de 6 a 24 meses de vida e apenas 8 dessas
crianças experenciaram nos últimos 4 meses otite
média com efusão bilateral continuada entre
24 a 60 meses.
A conclusão
desse estudo é que a proporção do tempo
com otite média bilateral decresce progressivamente
com o aumento da idade nessa população.
Já Paradise
e colaboradores em recente estudo com 2253 crianças
durante o primeiro ano de vida, encontrou a proporção
média de otite com efusão em 20,4% das crianças
e 16,6% no segundo ano de vida. O fator de risco identificado
foi residência urbana, criança do sexo masculino
e afro-americanas, ajuda médica como um todo, fumantes
em casa e exposição repetida para largo números
de crianças em creches.
O cuidado com
criança tem sido identificado como um fator de risco
significante para otite média em vários estudos.
Assim como,
Zeisel, Roberts, Neebe, Riggins e Henderson (1999), Paradise,
Rockette,Colborn, Bernard, Smith, Kurns-Lasky e Janasky (1997),
concordam em seus estudos que a ocorrência de otite
média é maior entre crianças urbanas
e menos entre crianças suburbanas. Essa diferença
foi maior nos primeiros anos de vida.
No geral a
proporção média de dias com otite com
efusão foi maior entre meninos que meninas como observado
em outros estudos. O preto é mais propenso em ter otite
que branco e incidência é maior em lugar público
que particular. Peso ao nascimento, idade materna, nível
socio-econômico , educação materna, índex
socio-econômico e duração na amamentação
são itens que podem influenciar o surgimento da otite
média.
O padrão
socio-econômico também é citado no estudo
Rockette,Colborn, Bernard, Smith, Kurns-Lasky e Janasky,onde
(1997). A otite parece aparecer com mais freqüência
entre pretos com baixo padrão socio-econômico
que em brancos com padrão sócio-econômico
também baixo.