.::
A Língua De Sinais Como Recurso Para A Terapia Fonoaudiológica
Autora: Fga. Fabiane Zanini dos Santos
e-mail: fabianez@cpovo.net
5 DIAGNÓSTICO
Segundo resultados obtidos nas
avaliações realizadas, constatou-se que a paciente apresenta
uma Perda Auditiva Neurossensorial Profunda na orelha direita
e Anacusia na orelha esquerda, ocasionando dificuldades na linguagem
oral, a nível expressivo e compreensivo.
6 ETIOLOGIA
A paciente em estudo, não apresentou
em toda sua história, nenhum fator indicativo, que fosse conclusivo
para elaboração de hipótese etiológica de sua deficiência auditiva.
Desta forma, não se pode afirmar qual a etiopatogenia da deficiência
auditiva de N.E.M., mas pode-se levantar uma suposição.
Com base nos dados obtidos na
anamnese e nas avaliações, supõem-se que entre as possíveis
etiopatogenias encontram-se a perda auditiva de origem genética,
onde incluem-se a hereditariedade e malformações congênitas
da orelha interna.
7 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
7.1 Perdas Auditivas: Conceitos
Segundo Van Riper e Emerick (1997),
surdo é aquele que apresenta perda auditiva de 90 dB ou mais
em diversas freqüências (250 a 2000 Hz), e deficiente auditivo
é aquele cuja perda auditiva encontra-se até 90 dB.
Para os autores, os surdos, embora
consigam ocasionalmente ouvir alguns sons extremamente intensos,
não podem utilizar sua audição para objetivos de comunicação.
Em contrapartida, Lopes Filho
(1997), considera surdo um termo muito forte e
depreciativo sobre a condição do indivíduo, utilizando "Deficiência
Auditiva" ao invés de surdez.
Prinz (1989) define a deficiência
auditiva, como um desvio ou mudança para pior de estruturas
ou funções auditivas situando-se fora dos limites da normalidade.
Durante o desenvolvimento deste
trabalho, apesar de possuir caráter clínico (área da saúde),
utilizaremos tanto o termo deficiente auditivo quanto surdo,
porque as pessoas com perda auditiva preferem que as chamem
de surda, abolindo a conotação de deficiência (patologia).
Conforme Lopes Filho (1997),
o termo anacusia significa falta de audição, sendo diferente
de surdez, onde existem resíduos auditivos. Na anacusia não
há nenhuma audição, pois a orelha está lesada apresentando um
comprometimento significativo.
7.2 Classificação das Perdas
Auditivas
Segundo Russo e Santos (1993),
as perdas auditivas podem ser classificadas, levando em consideração
os seguintes fatores: momento em que ocorrem, origem do problema,
tipos de perdas auditivas e classificação quanto ao grau de
perda auditiva.
7.2.1 Classificação das Perdas
Auditivas Quanto ao Momento em que Ocorrem
- pré-natal: se ocorre durante
a vida gestacional; peri-natal: se ocorre durante o nascimento;
pós-natal: se ocorre após o nascimento.
7.2.2 Classificação das Perdas
Auditivas Quanto à Origem do Problema
- hereditária; não hereditária.
7.2.3 Classificação das Perdas
Auditivas Quanto ao Tipo
- perdas auditivas condutivas:
resultam de patologias que atingem a orelha externa e/ou média,
reduzindo assim, a quantidade de energia sonora a ser transmitida
para a orelha interna; perdas auditivas neurossensoriais:
resultam de distúrbios que comprometem a cóclea ou nervo coclear
(VIII par); perdas auditivas mistas: aparecem componentes
condutivos e neurossensoriais em uma mesma orelha; perda auditiva
central: atingem a via auditiva central, ou seja, a porção
do nervo coclear e de suas conexões, que se encontram entre
o núcleo coclear e o córtex do lobo temporal.
7.2.4 Classificação das perdas
auditivas quanto ao grau
Segundo DAVIS & SILVERMANN1
apud RUSSO e SANTOS (1993), as perdas auditivas podem ser
classificadas quanto ao grau em:
normal: de 0 a 25 dB;
leve: de 26 a 40 dB;
moderada: de 41 a 70 dB;
severa: de 71 a 90 dB;
profunda: 91 dB em diante.
7.3 Fatores Etiológicos Relacionados
ao Caso
7.3.1 Hereditariedade
Na surdez hereditária, a perda
é relacionada a genes e algumas vezes constituem-se em síndromes
com outros comprometimentos, além da audição. Para que a deficiência
auditiva seja de caráter hereditário, é necessário que exista
história familiar de surdez. O aparecimento da perda auditiva
ocorre com mais freqüência em crianças, onde a perda é profunda,
irreversível, bilateral e neurossensorial, conforme Northern
e Downs (1989). A perda auditiva ocorre isoladamente sem qualquer
anormalidade associada em 2/3 dos indivíduos, conforme PAPARELLA
and CAPPS2 apud JERGER & JERGER (1989).
No caso da paciente em questão,
como não foi apresentado nenhum dado de influência lesional
em sua história gestacional e existe história familiar de deficiência
auditiva, pode-se enquadrá-la na surdez de origem hereditária.
Segundo PROCTOR e PROCTOR3 apud NORTHERN e DOWS (1989),
a surdez hereditária é uma doença razoavelmente comum, ocorrendo
na proporção de 1:2000 a 1:6000 nascidos vivos.
A deficiência auditiva hereditária,
está relacionada a uma anomalia de transmissão genética, podendo
ser do tipo recessivo (quando são necessários dois genes recessivos
para a manifestação da perda auditiva); dominante (quando um
gene determina a presença da perda auditiva) ou relacionado
ao sexo (onde o gene que determina a presença da perda auditiva
está localizada no cromossomo X).
Portmann e Portmann (1993) afirmam
que as perdas auditivas hereditárias recessivas são bilaterais,
simétricas e geralmente aparecem desde o nascimento. Já as dominantes
são progressivas e aparecem após o nascimento, as curvas audiométricas
são simétricas, com queda nas freqüências agudas. De acordo
com essas características, a paciente em estudo poderia apresentar
uma perda auditiva hereditária autossômica dominante.
Segundo Portmann e Portmann (1993),
as perdas auditivas hereditárias de condição dominante, sem
nenhuma anormalidade associada, representam 10% das deficiências
auditivas hereditárias. Nesse tipo, um dos pais traz o gene
afetado do tipo dominante, não sendo necessário que o pai ou
a mãe sejam surdos para a condição ser dominante. Segundo Ballantyne,
Martin e Martin (1995), a perda auditiva pode apresentar padrões
diferentes, podendo ser de 80-90 dB nas baixas freqüências e
cair para um nível profundo de 105 dB ou mais nas freqüências
altas, como no caso de N.M.. Pode também ocorrer uma perda uniforme
de 70-80 dB na extensão da faixa, ou ser relativamente leve
nas baixas freqüências com um declínio para 80 dB a 1000 Hz
e uma perda profunda depois disso. Devido ao caráter da surdez
ser genético, não pode-se conferir um tipo de curva patognomônico
específico. Contudo, segundo Russo e Santos (1994), a maioria
dos casos revelam um comprometimento regularmente descendente
dos graves para os agudos.
Às vezes, a perda auditiva na
surdez hereditária de condição dominante, é progressiva, tendo
um início precoce. Para Ballantyne, Martin e Martin (1995),
isso sugere a deterioração de uma perda que estava presente
ao nascimento, porém de grau leve à moderado, passando despercebida
em virtude da condição satisfatória da linguagem durante algum
tempo.
Conforme Jerger e Jerger (1989),
a perda auditiva hereditária pode estar presente ao nascimento
ou ter um aparecimento tardio. Se a perda for congênita, o grau
da mesma é estável. Entretanto, se a perda auditiva desenvolver-se
após o nascimento, como no caso da paciente em estudo, o grau
da perda pode progredir severamente com o passar do tempo.
As perdas auditivas neurossensoriais
hereditárias dominantes, estão freqüentemente associadas à alterações
histopatológicas do tipo displasia de Scheibe (alteração do
desenvolvimento cocleossacular, exclusivamente membranoso),
podendo-se incluir também a displasia de Mondini (alteração
do desenvolvimento do labirinto ósseo e membranoso), embora
esta alteração, também possa ser associada a transmissão hereditária
recessiva, conforme Costa, Cruz e Oliveira (1994). Essas alterações
estruturais da orelha interna podem em algumas situações serem
confirmadas através de exames por imagens, como por exemplo:
a tomografia computadorizada.
7.3.2 Malformações Congênitas
da Orelha Interna
A aplasia da orelha interna implica
incapacidade da orelha alcançar o seu desenvolvimento completo,
conforme relatam Northern e Downs (1989). Conseqüentemente,
a aplasia da orelha interna sempre é uma malformação congênita,
determinada por uma falha no desenvolvimento no período embrionário,
que pode se manifestar de forma isolada ou associada a outras
anormalidades, recebendo o nome de síndrome. No caso de N.M.
a deficiência auditiva ocorreu isolada sem outras anormalidades
associadas.
Embora haja uma grande variedade
de anomalias anatômicas da orelha interna, existem quatro tipos
clássicos que incluem: a Aplasia de Michel, a Aplasia de Mondini,
a Aplasia de Scheibe e a Aplasia de Alexander.
BLACK, SANDO, WAGNER et al4
apud NORTHERN e DOWNS (1989), afirmam que não é incomum o paciente
demonstrar um tipo de anomalia de orelha interna em uma orelha
e outro tipo na outra. Nestes casos, o grau ou padrão da perda
auditiva podem ser completamente distintos. Segundo Costa, Cruz
e Oliveira (1994), a confirmação do diagnóstico é realizada
através de exames por imagens, sendo a tomografia computadorizada
de alta resolução, a mais indicada.
7.3.2.1 Aplasia de Michel
É representada pela ausência
completa da orelha interna e do nervo auditivo. Ocorre a ausência
total do desenvolvimento do labirinto ósseo e membranoso. É
uma alteração relativamente rara onde as orelhas externa e média
podem estar normalmente formadas e aparentemente capazes de
funcionar. Conforme relatam Northern e Downs (1989), os padrões
audiométricos mostram ausência de audição pois não existe orelha
interna real. De acordo com Russo e Santos (1993), a Aplasia
de Michel é considerada como de transmissão dominante autossômica.
7.3.2.2 Aplasia de Mondini
Caracteriza-se pelo desenvolvimento
incompleto da cóclea, a qual consiste de somente um caracol
basal. Northern e Downs (1989), relatam que em 1904, Alexander
acrescentou mais detalhes a esse tipo de anomalia, indicando
também um envolvimento do nervo auditivo e dos canais vestibulares.
Os autores também afirmam que a Aplasia de Mondini envolve tanto
a cápsula óssea, quanto o labirinto membranoso e as anomalias
da orelha média podem também estar presentes.
Segundo Costa, Cruz e Oliveira
(1994), a audição é relativamente melhor nos primeiros meses
de vida, com gradativa piora dos limiares auditivos com o tempo.
Para Pontes e Weckx (1989), a Aplasia de Mondini apresenta os
mais variados graus, pois se a cóclea for representada por uma
"cloaca" o paciente apresentará uma perda auditiva
progressiva que evolui para a anacusia por volta dos quatro
anos de idade, e se as lesões forem parciais a perda auditiva
será progressiva e flutuante e a surdez aparecerá na puberdade,
e ao perguntar aos pais, eles revelam que a criança possuia
dificuldades em andar naquele período. De acordo com Northern
e Downs (1989), teoricamente é possível para o indivíduo com
malformação tipo Mondini possuir restos auditivos e a perda
pode ser unilateral, mas na outra orelha há sempre algum tipo
de alteração.
Para Russo e Santos (1993), existe
a possibilidade de que possa haver alguma audição residual,
razão pela qual deve-se tentar o uso de aparelhos auditivos.
Para as autoras a Aplasia de Mondini é transmitida por um gene
autossômico dominante.
7.3.2.3 Aplasia de Scheibe
É a alteração ou ausência do
desenvolvimento cocleossacular ( cóclea e sáculo) da orelha
interna, exclusivamente membranoso. Esse tipo de aplasia é o
mais comum entre as malformações da orelha interna e de acordo
com Northern e Downs (1989) e Russo e Santos (1993), a histopatologia
mostra atrofia da estria vascular, degeneração do órgão de Corti
e enrolamento da membrana tectória, especialmente na volta basal
da cóclea. Para Russo e Santos (1993) é uma anomalia do tipo
autossômico dominante.
Geralmente, o indivíduo acometido
da malformação tipo Scheibe apresenta restos auditivos aos sons
graves e médios, já que o maior dano é na volta basal da cóclea
7.3.2.4 Aplasia de Alexander
É uma malformação do sistema
membranoso coclear, envolvendo especialmente os giros basais.
É caracterizada por uma cápsula óssea normal com malformação
membranosa da cóclea e do mecanismo vestibular. Segundo Northern
e Downs (1989) e Pontes e Weckx (1989), esses casos geralmente
mostram uma perda auditiva profunda e com instalação tardia,
predominante nas freqüências médias e agudas, pois o órgão de
Corti e as células ganglionares adjacentes da espira basal são
as mais afetadas.
Conforme resultados obtidos nos
testes audiológicos e estudos relatados sobre as malformações
congênitas, pode-se supor que a paciente N.E.M. possa apresentar
Aplasia de Michel na orelha esquerda, e Aplasia de Scheibe ou
Mondini na orelha direita, tendo isso de ser confirmado pela
tomografia computadorizada de orelha interna, a qual N.E.M.
já foi encaminhada.
7.4 Implicações da Deficiência
Auditiva na Linguagem
Segundo Costa (1994), todos os
sentidos do homem são importantes, pois quando entrar em contato
com os estímulos que o cercam, através de informações e experiências
que são captados pelos sentidos, possam construir suas discriminações,
elaborar respostas, conceitos, pensamentos e conhecimentos.
Quando há a ausência de um dos
sentidos, o organismo é privado de um conjunto de informações
fundamentais, causando uma lacuna na sua experiência integral.
Na ausência da audição, impossibilita o deficiente auditivo
de "conhecer" os sons de uma maneira geral, em particular
os sons da voz humana, ocasionando problemas de comunicação
na linguagem convencional. É graças a audição que a criança
forma seus conceitos, através de informações que recebe do meio
ambiente, assim sendo, a criança surda fica em desvantagem em
relação as demais.
A linguagem é o mais eficiente
meio de expressão, pois possibilita a organização, o desenvolvimento
e a comunicação do pensamento, constituindo ainda a base das
relações humanas que aproxima os homens, portando é fundamental
no processo de comunicação oral, mas esta só haverá se todos
os elementos constitutivos da fala estiverem perfeitos. Estes
elementos vão desde o estímulo auditivo até a necessidade de
um sistema nervoso central perfeito e um aparelho fonador sem
anomalias. É por este motivo, que a criança deficiente auditiva
fica impossibilitada de assimilar e desenvolver a linguagem
oral normalmente por meios naturais, pois lhe faltam informações
auditivas, que são indispensáveis ao seu completo desenvolvimento.
Conforme Andrade (1996), em seu
quadro comparativo entre a criança deficiente auditiva e a criança
ouvinte, as crianças surdas seguem a mesma evolução das crianças
ouvintes no que se refere ao crescimento físico e desenvolvimento
mental. As diferenças entre as duas ocorrem em nível de estruturação
de linguagem, o que faz com que as crianças deficientes auditivas,
tenham um desenvolvimento social e intelectual defasado.
7.5 Aquisição da Linguagem Oral
pela Criança Deficiente Auditiva
O processo de aquisição de linguagem
oral pelas crianças deficientes auditivas, é diferente das crianças
ouvintes. As crianças deficientes auditivas profundas enfrentam
um difícil e complicado problema de adquirir uma linguagem oral
que não podem ouvir. De acordo com Andrade (1996), quando uma
criança nasce com deficiência auditiva, ou perde a audição após
o nascimento, ela apresentará dificuldades para adquirir a linguagem
oral. Dependendo do grau da perda auditiva, a criança poderá
adquirir linguagem com comunicação limitada, podendo não chegar
à oralização se a perda auditiva for profunda.
Portanto, a aquisição da linguagem
oral, no deficiente auditivo, não é um processo espontâneo e
natural vividos em situações habituais de comunicação e intercâmbios
de informações orais. É, na verdade, um aprendizado que deve
ser planificado de forma sistemática pelos adultos. Aos poucos,
as palavras incorporam-se ao vocabulário da criança, sendo muito
importante não distanciá-la de um contexto comunicativo e interativo.
Nas crianças portadoras de deficiência
auditiva surge um problema audiológico diferente daquele que
ocorre nos adultos, pois na criança, está em jogo a sua linguagem
ameaçada pela surdez. As conseqüências são muito mais graves
que no adulto, pois o problema ultrapassa o quadro clínico otológico
para penetrar na esfera educacional. Nessas crianças, pode-se
tornar escassa ou até mesmo nula a projeção dos estímulos auditivos
na área temporal do córtex cerebral, especialmente dos sinais
representados pelos sons da fala, indispensáveis às ligações
condicionadas verbais.
As crianças com perda auditiva,
dispõem dos mesmos órgãos fonadores e das mesmas possibilidades
corticomotoras para a produção da fala que as crianças ouvintes,
mas o mecanismo da fonação não se organiza por se achar ausente
a contribuição sensorial, representada pelas sensações acústicas
do mundo exterior, dada a incapacidade funcional do aparelho
auditivo. Faltam às crianças deficientes auditivas, os sinais
auditivos verbais, que permitem à criança ouvinte a aquisição
da linguagem no meio em que vive.
Rabelo (1996) nos relata que
a grande maioria dos deficientes auditivos, apesar de vários
anos de treino e esforço, não conseguem captar todos os fonemas
e perceber as estruturas morfossintáticas da linguagem oral.
Assim, a articulação defeituosa, a voz sem entonação e monótona
que produzem, tornam difícil a compreensão de seus enunciados.
Leibovici (1996) concorda com a autora, acrescentando ainda
que isso não deve fazer a criança sentir-se diminuída, pois
haverá sempre outras formas de comunicação para compensar sua
deficiência.
7.5.1 Erros Típicos na Produção
de Vogais nos Deficientes Auditivos
Segundo Jakubovicz (1997), os
principais erros que ocorrem na produção de vogais pelos deficientes
auditivos são: substituições (de uma vogal por outra); neutralizações
(uma vogal soa igual a outra); ditongações (alcança a produção
de uma vogal por intermédio de outra) e; nasalizações (o velo
não fecha totalmente a passagem de ar para a produção da vogal).
Conforme a autora, todos esses fatores, vêm geralmente acompanhados
de uma aspiração de ar excessiva e uma tonalidade inadequada.
Segundo SMITH5 apud
JAKUBOVICZ (1997), os erros com as vogais, estão em relação
direta com os erros nas consoantes.
7.5.2 Erros Típicos na Produção
das Consoantes nos Deficientes Auditivos
HUDGENS6 apud JAKUBOVICZ
(1997), realizou um estudo onde foram caracterizado os seguintes
erros na produção das consoantes pelos deficientes auditivos:
confusão de surdas e sonoras; omissões nos grupos consonantais;
omissões ou distorções da consoante inicial e final; nasalizações
(a consoante oral soa como nasal); substituições de uma consoante
por outra.
O autor destaca ainda, que os
erros mais observados em crianças com perda auditiva profunda
que são: a nasalização, a sonorização, a substituição e a distorção
da consoante inicial, a substituição da consoante final e grupos
consonantais.
7.6 Enfoques Metodológicos
Segundo Fernandes (1990), o objetivo
da educação do deficiente auditivo, não é apenas fazê-lo falar,
mas ver suas potencialidades físicas, psíquicas e sociais. A
recuperação e reabilitação do deficiente auditivo, baseia-se
fundamentalmente na substituição da audição por outros canais
sensoriais, destacando-se a visão e o tato, além de restos auditivos.
A capacidade de comunicação lingüística, apresenta-se como um
dos principais responsáveis pelo processo de desenvolvimento
do deficiente auditivo em todas as suas potencialidades. Poderá
desenvolver-se e desempenhar enfim, um papel social, fator necessário
e fundamental para sua verdadeira integração como indivíduo
e em suas relações interpessoais.
Muitas são as discussões sobre
a melhor orientação metodológica dentro da educação dos deficientes
auditivos. Segundo PERIER7 apud CASANOVA (1992),
é possível agrupar as diferentes orientações metodológicas em
três grandes grupos: métodos orais, métodos gestuais e métodos
mistos. Além desses métodos, existe ainda uma filosofia educacional
chamada Comunicação Total, que para LOWENBRAUN e SCROGGS8
, e SHIFRIN9 apud COSTA (1994) é um procedimento
que implica no fato da criança surda ter ao seu alcance todas
as formas disponíveis de comunicação para poder desenvolver
uma linguagem global.
Dentro dos métodos orais, existem
aqueles que possuem um enfoque unissensorial e outros que possuem
um enfoque multissensorial. No enfoque multissensorial, é utilizado
a estimulação auditiva, visual e tátil através do uso de aparelho
de amplificação sonora individual, de leitura orofacial e das
pistas táteis. SANDERS10 e VAN UDEN11
apud RABELO (1996), não admitem porém, o uso do alfabeto digital
ou a Língua de Sinais.
Os autores relatam que muitas
crianças têm apresentado bons resultados através dos métodos
orais, mas existem outras, que por características próprias
como perda auditiva muito profunda, lento amadurecimento neurológico,
problemas emocionais e outros, não desenvolvem a comunicação.
Em vários países esses mesmos problemas ocorreram, pondo em
dúvida a eficácia da abordagem unicamente oral na reabilitação
dos deficientes auditivos.
Como os deficientes auditivos
apresentam um impedimento de ordem sensorial na percepção das
distinções fonêmicas da fala, que prejudica a compreensão dos
significados, criou-se a necessidade de uma outra maneira para
a realização de suas potencialidades lingüísticas. A restrição
ao aprendizado pelos deficientes auditivos de apenas uma língua
oral, conforme Brito (1993), acarreta freqüentemente em um desenvolvimento
lingüístico limitado, que por sua vez, causa prejuízos ao desenvolvimento
cognitivo, social, intelectual e, às vezes, até mesmo emocional.
PAIVA, SPINELLI & VIEIRA12
apud RABELO (1996), colocam que um aspecto importante da controvérsia
entre os métodos, relaciona-se ao desenvolvimento cognitivo
do deficiente auditivo. Nos métodos orais tradicionais, este
aspecto fica prejudicado na medida em que nos primeiros anos
de reabilitação, o deficiente auditivo ainda não alcançou um
desenvolvimento da linguagem que lhe possibilite a aquisição
de conceitos. Trabalhando-se com técnicas manuais e orais conjugadas,
é de se esperar que adquira conceitos de forma mais rápida e
efetiva, pois aqueles que não puderem ser adquiridos através
da comunicação oral, poderão ser pela linguagem gestual. Com
o desenvolvimento do processo de reabilitação, estes conceitos
adquiridos através dos gestos, serão incorporados ao acervo
oral do sujeito. Desta forma, parece que os deficientes auditivos
poderão ser melhor trabalhados quanto aos aspectos cognitivos
e lingüísticos.
"Poder-se-ia dizer que um
bom método é aquele que é capaz de conseguir os melhores resultados
para cada caso concreto, tendo-se em conta suas características
pessoais, seu entorno, e abrangendo tanto os parâmetros de desenvolvimento
afetivo e social, como os puramente acadêmicos e terapêuticos."
(Juarez, 1992, p.195).
7.6.1 Comunicação Total
Segundo Ciccone (1996), a Comunicação
Total implica numa maneira própria de se entender o deficiente
auditivo e, a partir daí, elaborar a na organização de uma metodologia
de trabalho, que vise programas para seu atendimento e seu processo
educacional.
A Comunicação Total, entende
o deficiente auditivo como uma pessoa e a perda auditiva como
uma marca, cujos efeitos podem adquirir as características de
um fenômeno com significações sociais.
Um programa de Comunicação Total,
inclui técnicas e recursos para a estimulação auditiva, adaptação
de aparelhos de amplificação sonora individual, leitura labial,
oralização, leitura e escrita. Esta filosofia apoia uma suficiente
liberdade na prática de quaisquer estratégias, permitindo o
resgate de comunicações total ou parcialmente bloqueada,, seja
pela linguagem oral, pela língua de sinais, pela datilologia,
pela combinação desses modos, ou mesmo por outros que, de alguma
forma, possam permitir uma comunicação total. Seus programas
de ação estarão interessados em aproximar pessoas e permitir
contatos.
DENTON, BRILL, KENT e SWAIKO13
apud COSTA (1994), concordam com Ciccone (1996), quando colocam
que a Comunicação Total utiliza a linguagem dos signos, o alfabeto
digital, a amplificação sonora, a fonoarticulação, a leitura
dos movimentos dos lábios, a leitura e a escrita, utilizando
todos esses aspectos ao mesmo tempo, tendo como principal objetivo,
o desenvolvimento da linguagem.
"Podemos perceber a Comunicação
Total como a mala onde colocamos: estimulação auditiva, leitura,
escrita, desenho, alfabeto digital, linguagem de sinais, leitura
labial e fala e entregamos à criança. Cada uma das crianças
surdas abre a mala e pega o que precisa, a cada momento."
( KEMPE14 apud NOGUEIRA, 1996, p.94.).
O objetivo fonoaudiológico para
com a criança deficiente auditiva é a aquisição e/ou o aprimoramento
da linguagem oral, utilizando para tal o método oral. Tendo
em vista as características e necessidades da paciente N.E.M.,
utilizamos o método oral multissensorial juntamente com a Comunicação
Total, respeitando assim sua identidade e limitações de pessoa
surda, não abolindo sua comunicação através da Língua de Sinais,
mas sim utilizando esta como recurso facilitador no aprimoramento
de sua linguagem oral.
7.7 Língua de Sinais
Segundo Ciccone (1996), dentro
da filosofia da Comunicação Total, a Língua de Sinais tem recebido
uma postura de respeito e de aceitação, por ser mais uma alternativa
facilitadora para o desenvolvimento global da pessoa deficiente
auditiva.
A comunicação humana abrange
mais processos do que somente palavras e idéias, abrange um
processo contínuo que envolve também o silêncio, a pele, o ambiente,
sendo também um processo integral, completo e multissensorial,
incluindo
sentimentos e estímulos internos,
incorporando a parte expressiva da linguagem.
Conforme Campelo (1995), a Língua
de Sinais é a língua natural dos surdos, já que seus instrumentos
não requerem qualquer apelo à sua deficiência, sendo emitida
através de gestos e envolvendo uma estrutura sintática própria.
A Língua de Sinais, difere-se
da língua oral no que diz respeito ao canal comunicativo usado,
ou seja, a visão ao invés da audição. Os componentes deste sistema,
são configurações precisas das mãos e movimentos exatos, sendo
capaz de expressar idéias sutis, complexas e abstratas. Os seus
usuários, podem discutir desde filosofia, literatura, política,
até os mais variados assuntos. Como outras línguas, a Língua
de Sinais aumenta o seu vocabulário com novos sinais introduzidos
pela comunidade surda, resultado das mudanças culturais e técnicas.
Quadros (1995), coloca que a
Língua de Sinais apresenta palavras que combinadas, expressam
infinitas idéias e pensamentos, assim como a língua oral. Segundo
Fernandes (1995), está comprovado cientificamente que a Língua
de Sinais é uma língua como qualquer outra e não apenas gestos
combinados. Apresenta uma gramática complexa e cumpre o papel
não só de comunicação, mas também de instrumento para a estruturação
do pensamento.
A Língua de Sinais não está expressa
somente nas palavras (sinais), mas num conjunto de fatores que
determinam o significado que o emissor intenciona comunicar,
tornando-a altamente rica. As expressões faciais e corporais,
são feitas simultaneamente com a expressão sinalizada, determinando
qual será sua interpretação. EPSTEIN15 apud QUADROS
(1995), refere que a linguagem expressiva, envolve os elementos
paralingüísticos da comunicação, citando a entonação e o ritmo
como aspectos que podem mudar o significado de uma mesma expressão
verbal. O mesmo ocorre com a Língua de Sinais, sendo que uma
mesma expressão sinalizada, apresenta diferentes interpretações
dependendo das expressões faciais e corporais simultâneas a
ela.
Há muitas discussões, no que
se refere a permissão ou não da utilização da Língua de Sinais
pela pessoa deficiente auditiva. Autores como Brito (1993) e
Fernandes (1995), defendem a utilização da Língua de Sinais
colocando que a mesma desempenha a importante função de suporte
do pensamento e de estimulador do desenvolvimento cognitivo
e social. Além disso, aprendendo apenas a língua oral, o deficiente
auditivo acaba sujeitando-se a uma limitação permanente, pois
dificilmente atingirá o modelo de "ouvinte" que lhe
é imposto. A falta de uma identidade cultural provocará conflitos
quanto à sua integração consigo mesmo e, portanto, dificultará
a sua integração à comunidade surda, e mais ainda à comunidade
ouvinte que a circunda, não se integrando em nenhuma das duas.
A Língua de Sinais como primeira
língua dos deficientes auditivos, não irá dificultar o aprendizado
da língua oral, ao contrário, a presença de um suporte lingüístico
na criança deficiente auditiva adquirida em tempo hábil e a
comunicação gratificante dessa criança com um círculo de pessoas,
ainda que restrito, só pode favorecer a aprendizagem da língua
oral.
"Assim, as línguas de sinais
são tanto objetivo quanto o meio facilitador do aprendizado
em geral, até mesmo a aprendizagem da língua oral." (Brito,
1993, p.28).