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REPENSAR
SOBRE O PAPEL DO FONOAUDIÓLOGO NO AMBITO ESCOLAR
Autora:
Fga. Karine Wiggers
Morais
Data do artigo: 01/10/2001
CFFa.CRFa 7929/SC
REVISÃO
DE LITERATURA
ODe
acordo com CAVALHEIRO1 apud LAGROTTA & CESAR (1997), no
inicio da trajetória da Fonoaudiologia Educacional, sentiu-se
uma certa resistência ou mesmo desconfiança por
parte dos profissionais da escola, talvez por desconhecerem
o fazer fonoaudiológico. Não havia uma rejeição
dirigida à área, mas uma falta de identidade entre
o fonoaudiólogo e o sistema educacional.
O campo da Fonoaudiologia
em âmbito escolar é muito vasto, segundo PACHECO
& CARAÇA2 (1989), o fonoaudiólogo na escola
pode também atuar dando orientações aos
professores, sugestões técnicas que ajudem a preparar
as crianças para a alfabetização propriamente
dita, assim como etapas posteriores a ela. Esta atuação
ajudaria prevenir problemas futuros, ficando deste modo evidenciado
o caráter profilático desta participação.
Para melhor entendermos
tamanha importância do fonoaudiólogo, vamos balizar
aqui, apenas como meio didático, o objeto de trabalho
da fonoaudiologia escolar como sendo especificamente a linguagem
escrita, comunicação humana.
Há milhares
de anos, mulheres, homens e crianças viviam em cavernas
feitas pela própria natureza. Estas pessoas se alimentavam
de frutas, ervas, raízes e carne de animais que conseguiam
caçar. Nesta época as pessoas faziam desenhos
que representavam animais, objetos e pessoas, sendo que estes
desenhos, feitos nas pedras das cavernas, no tempo em que a
escrita ainda não existia, e talvez, mal soubessem falar,
é que nos trazem informações daquela época.
Com o passar
do tempo o homem começou a cultivar a terra, domesticar
animais e fazer trocas. Os desenhos, então não
eram suficientes para o registro. Foi nesta época, portanto,
que surgiram as letras. A partir daí, a escrita passou
por três fases distintas até os dias atuais: a
pectória, a idiográfica e a alfabética.
De acordo com SACALOSKI3; ALAVARSI & GUERRA (2000), o código
gráfico da leitura e escrita, é uma das formas
mais aprimoradas da comunicação humana. PACHECO
& CARAÇA (1989), acrescentam que, através
da comunicação o homem transmite e interpreta
sentimentos e pensamentos, assim como interage com outros indivíduos,
numa troca de informações e experiências
que o enriquece cada vez mais.
O mundo atual
é extremamente rico em aspectos visuais e informações
escritas, o que acaba despertando as crianças para essa
forma de linguagem. Conforme PINTO4 (1995) em princípio
é possível afirmar que, quando a criança
chega à escola, ela domina o código oral, que
continuará obviamente a enriquecer com base nas suas
novas experiências, segundo um processo contínuo,
que dependerá das oportunidades a que cada um pode ou
não estar exposto.
A primeira fase
mais importante para a vida escolar da criança é
entre os seis ou sete anos quando ingressa na primeira série,
e se neste momento a escola for uma experiência boa, prazerosa
e positiva, o será por toda a vida acadêmica, levando-o
ao sucesso escolar.
Desta forma,
se tiver êxito na aprendizagem da leitura e escrita, a
criança virá a adquirir a autoconfiança
e a auto-estima necessárias para que lute contra os diversos
obstáculos que deverá vir a encontrar ao longo
dos tempos. De acordo com CAGLIARI5 (1991) antes de ensinar
a criança a escrever, é necessário saber
o que elas precisam da escrita, qual sua utilidade, e a partir
daí programar as atividades adequadamente. Segundo SANTOS6
(1996) o domínio da língua escrita é extremamente
facilitado quando impulsionado pelo desejo de ler e de escrever.
Evidentemente, esse desejo só poderia manifestar-se a
partir do momento em que a criança saiba da existência
e função da escrita. Como a função
social da escrita tem sido desvirtuada pela escola, uma vez
que concentra o ensino da língua escrita em seus aspectos
materiais (ortografia), ingressa neste contexto o profissional
da Fonoaudiologia direcionando o seu fazer para o resgate do
prazer do ler e do escrever.
Ao despertar
na criança o desejo e a curiosidade em relação
à linguagem escrita, estaremos anulando seu medo em relação
às mesmas. Para a efetividade deste trabalho do Fonoaudiólogo,
é necessário que se desenvolva uma parceria com
o professor. De acordo com SACALOSKI; ALAVARSI & GUERRA
(2000) fonoaudiólogo e professor precisam trabalhar juntos
numa relação de troca, já que cada um tem
seu papel definido e experiência dentro do imenso universo
de ações que é a educação.
Assim, KIRILLOS7; MARTINS & FERREIRA (1997) afirmam que
a experiência da atuação do fonoaudiólogo
associada a do professor, com base na integração
de conhecimentos, cooperação, entendimento e discussão
de exercícios de trabalho escolar, só têm
a contribuir para o desenvolvimento dos alunos. Então,
contrapondo-se à prática clínica dentro
da escola, o fonoaudiólogo deve procurar identificar
a natureza dos distúrbios apontados pelos
profissionais da escola e promover uma reflexão, no sentido
de evitar os rótulos e todas as conseqüências
implicadas. Para isto, precisa-se estabelecer um vínculo,
uma parceria com estes profissionais, discutindo e avaliando,
com a comunidade escolar, suas reais necessidades. Na atuação
em equipe, tendo perspectiva coletiva, o Fonoaudiólogo
deve procurar fazer parte da equipe interdisciplinar da instituição,
traçando metas conjuntas para melhor atender o grupo
de alunos, participando na elaboração do planejamento
escolar, das reuniões de pais e professores, entre outros.
Além do trabalho em grupo, é preciso prever atendimentos
individuais, ocasionais, na medida em que os profissionais sintam
necessidade de discutir situações específicas.
Com relação à orientação
aos professores, deve caracterizar-se por um processo de formação
consciente e refletida, distinta do contexto em que um grande
número de pessoas recebe um conjunto de informações,
que podem ou não se transformar em algo útil para
o seu cotidiano.
Quanto à
atuação Fonoaudiológica no ensino fundamental,
é importante que se conheça profundamente o processo
formal de aquisição da linguagem escrita e seu
desenvolvimento. CAVALHEIRO apud LAGROTTA & CESAR (1997)
aponta a grande heterogeneidade existente entre as crianças
que freqüentam as primeiras séries do primeiro grau,
tanto do ponto de vista sócio-econômico cultural
quanto em relação a experiências anteriores
com a linguagem escrita. Há uma grande heterogeneidade
numa mesma sala de aula, por exemplo, que se encontram: crianças
com escolarização anterior e praticamente alfabetizadas
e, outras que puderam participar de experiências significativas
e prazerosas com a escrita mesmo sem ter freqüentado a
escola; e ainda, outras que ingressam na primeira série
sem que a escrita fizesse parte do seu cotidiano. Se estas diferenças
não forem consideradas, pelo Fonoaudiólogo ou
outros profissionais da equipe, corre-se então, o risco
de concluir precipitadamente, que muitas crianças apresentem
distúrbios de aprendizagem. As ações neste
nível de escolaridade podem priorizar:
A reflexão
sobre as questões ligadas á leitura e a escrita
que possibilite a promoção de atividades com materiais
de diferentes naturezas e funções em contraposição
aos exercícios com função essencialmente
escolar;
A valorização
do conteúdo e da criatividade, diminuindo a preocupação
excessiva com a ortografia nas séries iniciais;
Atividades de
leitura, de tal forma que não haja predomínio
das tarefas de escrita;
A valorização
de atividades que estimulam a linguagem oral.
A autora supracitada,
complementa que o excesso de rigor com relação
à forma (letra, ortografia) tem produzido um sentimento
de medo de escrever, levando muitas crianças a produzir
textos curtos e padronizados, segundo os modelos dos livros
didáticos. Equivocadamente, as crianças que assim
escrevem, muitas vezes são consideradas como excelentes
alunos, enquanto que aqueles que expõe sua escrita de
forma gráfica desviante do padrão,
e que muitas vezes possuem um bom conteúdo, acabam vistas
como desviantes ou portadoras de distúrbios da escrita,
por infringir regras gramaticais/ortográficas.
No que se refere
ao professor, de acordo com SANTOS (1996), é que a grande
maioria dos fracassos escolares, é desencadeado por atitudes
deste profissional, marcados pela ansiedade e impaciência
ou pelo hábito de forçar as crianças a
reconhecer e copiar com perfeição as letras do
alfabeto, contribuindo então, de modo a retardar ou até
mesmo, perturbar a evolução da apropriação
da escrita pela criança.
Cabe ao Fonoaudiólogo
inserido em instituições escolares, mudar esta
visão mecanicista que possa estar ocorrendo na escola,
de modo a desmistificar o medo que as crianças apresentam
ao ler e escrever, visto que, ao valorizarmos suas capacidades,
estaremos tornando-as seguras, e lendo não pelo simples
fato de ler corretamente, mas de modo que possam assimilar o
que estão fazendo. Desta forma, possivelmente o Fonoaudiólogo
estará tornando o ato de ler e escrever algo que desperte
o interesse nas crianças, levando-os a perceberem então,
a função da leitura e da escrita e o que estas
representam no seu dia a dia.
Index
| Resumo | Introdução
| Revisão de Literatura
| Conclusão | Referências
Bibliográficas | Bibliografia