A
linguagem, objeto de interesse e estudo da Fonoaudiologia,
constitui um dos aspectos fundamentais da vida do homem.
A capacidade de comunicação é o instrumento
de interação social por excelência e
se desenvolve ao longo da vida através de múltiplas
relações em contínua transformação
(Rabadán, 1998). A linguagem permite a transmissão
dos conhecimentos que o homem adquiriu ao longo de sua história.
É através da linguagem que as pessoas resolvem
seus problemas, expressam suas idéias, pensamentos
e sentimentos. A linguagem possibilita o crescimento e o
desenvolvimento do potencial que existem em cada um, ativado
e intensificado através das relações
humanas.
O envelhecimento origina uma deterioração
da capacidade comunicativa, do mesmo modo como o faz nos
outros aspectos da vida e da saúde. Existem, segundo
Mascaro (1997) várias maneiras de se
envelhecer, que dependem de circunstâncias de ordem
biológica, psicológica, social, histórica,
cultural.
Conforme Rabadán (1998), a comunicação
na velhice é determinada por um processo sociocultural,
assinalado pelo afastamento do homem do sistema produtivo,
e por um processo biológico, marcado pela deterioração,
que é característica da última fase
da vida.
As teorias biológicas que explicam o envelhecimento
(processo que independe da vontade do homem), afirmam
que o mesmo é resultado de fatores variados -intrínsecos
e extrínsecos - que devem ser considerados em um
contexto amplo, sendo a herança genética
(fator de ordem intrínseca, juntamente com os radicais
livres, o sistema de defesas e outros) quem determina
a maior ou menor longevidade e as probabilidades de aparição
de determinadas doenças. Entre os fatores extrínsecos
-igualmente importantes- destacam-se a exposição
à radiação, à poluição,
fatores alimentares e o estresse.
Assim, do ponto de vista biológico, o envelhecimento
é caracterizado por modificações
sucessivas de todas as estruturas e sistemas, que provocam
uma diminuição da capacidade de adaptação
ao meio ambiente. Ribeiro (1999) diz que todos os seres
vivos de reprodução sexuada envelhecem,
modificando-se com o tempo em direção a
uma diminuição de sua performance.
O tema do envelhecimento adquire excepcional relevância
neste momento pois no Brasil têm acontecido, nas
ultimas décadas, um crescimento acelerado da população
idosa. Silvestre et al (1996) e Zimerman (2000) revelam
que o nosso país vem apresentando uma expressiva
mudança no seu perfil populacional, pois de uma
situação de elevadas fecundidade e mortalidade,
passou-se para outra, de baixa fecundidade e menor mortalidade.
A esperança de vida atualmente é de 67 anos
e, em 2025, considera-se que poderá chegar aos
74 anos (Zimerman, 2000). Isto torna necessário
que haja maior dedicação e mais estudos
por parte dos profissionais que se ocupam da saúde
desta parcela da população, incluído
o fonoaudiólogo.
Concordamos com Zimerman (2000) em que, em função
das mudanças demográficas ocorridas, não
é mais possível ignorar a necessidade de
atenção à velhice por parte dos âmbitos
político, econômico, da saúde e institucional.
Os idosos têm necessidades e características
próprias que devem ser atendidas através
da criação de novos espaços, serviços
e produtos, assim como da reformulação de
posturas e conceitos.
Não existe um consenso em relação
a qual é idade do envelhecer, assim
como não há um marco fixo para definir que
esta ou aquela seja a idade de se ficar velho.
Há, não obstante, acordo entre os diversos
campos científicos que estudam o envelhecimento
em relação à grande heterogeneidade
existente entre os idosos em todos os aspectos. A idade
cronológica não ocasiona o início
da velhice nem de qualquer outro período etário;
ela deve servir como um parâmetro para se julgar
a maturidade social do indivíduo, ou como uma referência
para compreender as mudanças evolutivas (Néri,
1995).
Tanto
os geriatras -médicos que se dedicam a estudar,
prevenir e tratar os aspectos patológicos do envelhecimento
- quanto os gerontólogos - especializados nos aspectos
biológicos, sociais e psicológicos - estão
de acordo ao afirmar que o envelhecimento é uma
experiência individualizada e heterogênea
(Mascaro, 1997). Tal fato exige que estes profissionais,
assim como todos os outros que se dedicam ao estudo do
envelhecimento e ao cuidado do indivíduo idoso,
levem em consideração esta singularidade
para não cometer o erro de fazer generalizações
impróprias.
O
envelhecimento é um campo de interesse, pesquisa
e atuação de grande número de especialidades.
Ele constitui um âmbito ímpar para o trabalho
interdisciplinar, uma vez que profissionais de diversas
áreas (medicina, enfermagem, psicologia, fonoaudiologia,
fisioterapia, gerontologia, terapia ocupacional, etc.)
têm possibilidades de oferecer uma contribuição
decisiva para melhorar a qualidade de vida do idoso, através
da prática do intercâmbio e da cooperação,
assim como da busca de uma linguagem comum entre as diversas
ciências.
Néri
(1995) afirma que a velhice não é um período
caracterizado só por perdas e limitações,
sendo possível manter e até aprimorar as
funções cognitivas, físicas e afetivas,
a despeito do aumento da probabilidade de doenças
e limitações. Um dos desafios que as ciências
atualmente enfrentam é o de perceber os limites
e as potencialidades para o desenvolvimento na velhice,
assim como as condições que aceleram, retardam
ou compensam os resultados das mudanças ocorridas
como conseqüência do envelhecimento.
É
aceito entre os especialistas que há muito para
se estudar a respeito do envelhecimento, bem como a idéia
de que é essencial para o desenvolvimento integral
na velhice a busca de um equilíbrio entre potencialidades
e limitações. Se por um lado, o envelhecimento
significa declínio e incapacidade, o indivíduo
e a cultura podem criar condições de progresso
e desenvolvimento. (idem, 1995).
Fala-se
hoje de velhice bem-sucedida e velhice produtiva, expressões
usadas na literatura quando se fala de envelhecer bem.
O conceito velhice bem-sucedida se relaciona à
idéia de realização do próprio
potencial para alcançar um grau desejável
de bem-estar físico, psicológico e social,
assim como ao logro de um funcionamento similar ao da
população mais jovem e à manutenção
da competência em domínios selecionados do
funcionamento, através de mecanismos de compensação
e otimização. (Néri, 1999:
116).
Velhice
produtiva é um conceito que compreende as possibilidades
de o idoso exercer diversas funções e papéis
num momento em que cada vez mais pessoas vêem como
possível envelhecer bem, considerando-se como manifestações
de produtividade na velhice: exercer trabalhos remunerados
e também não-remunerados, porém valiosos
social e economicamente, como cuidar de outros idosos,
da casa, dos netos; trabalhos voluntários na comunidade;
atividades de lazer proveitosas para a própria
pessoa; a criação de novas áreas
de consumo como conseqüência de uma melhoria
do padrão de vida (idem, 118)
A
Fonoaudiologia no Brasil vem pesquisando a linguagem do
indivíduo idoso nos casos de afasias e das demências
senis, e também são realizados estudos para
compreender e minimizar as conseqüências da
presbiacusia e da presbifonia na comunicação.
Porém, nota-se uma falta de estudos relacionados
à linguagem no envelhecimento sadio, estudos estes
necessários para que seja possível atuar
preventivamente, com o objetivo de garantir uma maior
qualidade de vida.
É
essencial conhecer a linguagem das pessoas idosas, as
mudanças que ocorrem ao longo do tempo, seus mecanismos
e deficiências. Deste modo será possível
desenhar programas de intervenção e prevenção
a serem postos em prática no âmbito familiar,
nos clubes de terceira idade, nas instituições,
nos lares para idosos, e desse modo contribuir para conservação
da comunicação destes indivíduos
nas melhores condições possíveis.
A
intervenção deve ter como meta básica
possibilitar o desenvolvimento de estratégias que
ajudem a aprimorar as interações sociais
e familiares, paliando e compensando a deterioração
lingüística. Os idosos podem e devem, quando
é possível, conservar ou readquirir o controle
de suas vidas, realizar atividades criativas, integrando
âmbitos sociais ricos e estimulantes. Ao estarem
inseridos em grupos familiares e sociais, os idosos têm
a oportunidade de realizar troca de experiências
que favoreçam o desenvolvimento pessoal, criando
novas possibilidades de humanização e abordagem
de seus problemas (Penteado, 2000).
A
vida dos idosos parece ser feita de rotinas e automatismos:
os que vivem em família ou em lares vêem
sua vida organizada por outras pessoas, de modo que suas
perdas sensoriais ou de memória sejam compensadas
e a segurança seja garantida. Porém, os
idosos menos deteriorados devem ter maior controle de
todos os aspectos de sua vida, realizando atividades criativas
e tomando suas próprias decisões.
Cabe
aos profissionais que lidam com o envelhecimento orientar
os idosos quanto aos aspectos relativos a uma vida qualitativamente
melhor: adoção de uma alimentação
equilibrada, manutenção de hábitos
saudáveis, combate ao sedentarismo, práticas
voltadas à prevenção de doenças,
manutenção das relações afetivas
e sociais e das atividades que favoreçam as interações
e o uso da comunicação.
Referências
Bibliográficas
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...al: Velhice e sociedade.
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PENTEADO, R. Z.: A Linguagem no Grupo Fonoaudiológico:
potencial latente
...para a Promoção
da saúde. São Paulo, 2000. 146 p. Dissertação
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- Universidade de São Paulo.
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Complementar
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PUCCAMP, Campinas, 4 (3): 130-132, set-dez, 1995.
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Aula. Disciplina Estudos
...Integrados em Fonoaudiologia,
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