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.:: DESVIOS FONÉTICOS E FONOLÓGICOS EM PACIENTE ADULTO: ANÁLISE DE UM CASO

Autora: Fga. Cintia Schivinscki Gonçalves
Data do artigo: 09/09/2001
CFFa. 6860

DESCRIÇÃO DO CASO

O paciente C.N.D., 38:11, sexo masculino, bancário, apresentou-se para tratamento nas Clínicas Integradas IPA-IMEC com queixa de problemas na fala. A razão da busca pelo atendimento foi o comprometimento que a alteração do padrão de fala habitual causava ao seu desenvolvimento profissional; o paciente relatava perceber a sua voz muito nasalada e ininteligível (pelo estranhamento que causava às pessoas e não por incômodo próprio). Na história clínica, encontramos dados que, conforme ISSLER (1996) seriam indicativos de uma possível etiologia: a presença de familiares com distúrbios de fala semelhantes aos seus, o que caracteriza um modelo lingüístico inadequado, e inabilidades funcionais. Para GRUNDY (1989) os modelos de fala ruins não só contribuem para o desenvolvimento do distúrbio da fala como também para a sua manutenção. Na avaliação fonoaudiológica, ao exame orofacial, foi possível observarmos uma grande dificuldade na execução de movimentos voluntários de língua e fechamento inadequado do esfíncter velofaríngico, evidenciado pela diferença entre os valores obtidos na espirometria com e sem oclusão nasal e pelo escape aéreo nasal, observado através do embaçamento do espelho de Glatzel durante a produção de frases orais. Na avaliação perceptual da voz evidenciamos hipernasalidade em grau discreto. A avaliação fonológica foi baseada no modelo sugerido por YAVAS, HERNANDORENA & LAMPRECHT (1991); através dela observamos que C.N.D. apresentava o inventário fonético e sistema fonológico comprometidos. Havia distorção dos fonemas dento-alveolares /t, d, l/ (ver "Inventário fonético padrão dos segmentos consonantais do português" em YAVAS, HERNANDORENA & LAMPRECHT, 1991), que eram palatalizados e do fonema /r/, que era velarizado, e desoralização (debucalização) das velares /k/ e /g/. CLEMENTS e HUME (1995) descrevem a desoralização, perda do traço distintivo [consonantal], como um processo através do qual a constrição que caracteriza o fonema consonantal deixa de ser realizada na cavidade oral, sendo, em C.N.D., realizada ao nível da glote. À uma percepção auditiva menos detalhada a dosoralização pode ser tomada como um apagamento, mas na primeira o paciente marca a consciência do elemento fonológico e da estrutura da sílaba, precisamente da plosiva que forma o onset (ataque) da sílaba (SELKIRK apud COLLISCHONN, 1999), com um golpe de glote. A alteração que refletia-se na produção das velares comprometia significativamente a inteligibilidade da fala do paciente e acentuava o caráter vocal hipernasal. No nível textual discursivo encontramos a velocidade de fala bastante aumentada. A avaliação otorrinolaringológica, constatou a presença de desvio parcial de septo, o que levou-nos a solicitar uma fibronasolaringoscopia como exame complementar. O paciente, entretanto, protelou a execução da laringoscopia e da avaliação audiológica completa, também solicitada como exame complementar, interrompendo o tratamento antes de realizá-los. Apesar da ausência desses resultados, foi possível averiguarmos clinicamente que o paciente não possuía qualquer dificuldade de discriminação de fala; tampouco ausência de movimentação de véu palatino, porém aparentemente esse encontrava-se hipofuncionante, provavelmente devido à imprecisão articulatória presente no padrão usual de fala de C.N.D.. A abordagem utilizada no tratamento de C.N.D. teve como objetivos gerais adequar a condição miofuncional dos órgãos fonoarticulatórios e restaurar os aspectos fonéticos e fonológicos comprometidos, organizando o inventário fonético e o sistema fonológico do paciente. A trabalho com a linguagem expressiva oral, nos seus aspectos fonéticos e fonológicos, foi definido como prioritário e a hipernasalidade vocal foi abordada conjuntamente, através do desenvolvimento da precisão articulatória dos fonemas alterados; pois, de acordo com BOONE (1996), é possível obtermos uma diminuição na hipernasalidade vocal através do desenvolvimento de uma boa ressonância oral. O planejamento terapêutico compreendeu especificamente: o trabalho com a discriminação auditiva, capacitando o paciente a perceber a diferença sonora entre os fonemas, bem como o monitoramento auditivo da maneira correta de produzi-los; o treinamento articulatório (elicitação fonética), auxiliando o paciente a organizar-se sob o ponto de vista neuro-motor e a adequar a coordenação, precisão e agilidade dos movimentos utilizados durante a fala e a reestruturação semântico/ fonológica (conceitualização dos sons e relação entre significantes e significado) das palavras associadas a engramas equivocados. O fortalecimento do feedback positivo foi feito através do uso constante de gravações; os fonemas velares e dento-alveolares eram trabalhados paralelamente em textos de revistas escolhidos por C.N.D., sendo que esse material evidenciava também o comportamento emocional do paciente em relação à sua fala, o constrangimento de não ser compreendido e a falta de promoção profissional. A sobrearticulação foi utilizada na intenção de desativar padrões comprometidos; proporcionar a diminuição da velocidade do discurso; aumentar a precisão na produção dos fones, buscando garantir um bom molde de padrão de sons para a retroalimentação, e reforçar a ressonância oral visando a diminuição da hipernasalidade. Observamos que, apesar do prognóstico reservado, a evolução de C.N.D. foi perceptível e satisfatória, principalmente se considerarmos o curto período de tempo (um total de 36 sessões, com 2 encontros semanais) em que o mesmo manteve-se em atendimento. A interrupção do tratamento fonoterápico deu-se por vontade do paciente, que comunicou a necessidade de priorizar, naquele momento, outros compromissos. Na ocasião do desligamento, C.N.D. já havia adequado o seu inventário fonético e estava automatizando/ sistematizando os novos padrões fonológicos apreendidos através do uso de materiais-estímulo inseridos em atividades lingüísticas, conforme sugerido por LOWE & WEITZ (1996). Observamos também a diminuição da velocidade do discurso, o que proporcionou ao paciente um automonitoramento mais efetivo e um conseqüente aumento no grau de inteligibilidade da fala. O caráter vocal hipernasal foi adequado com o desenvolvimento da precisão articulatória, o que confirmou o parecer inicial de hipofuncionalidade de véu palatino. Para o paciente já era possível perceber uma produção fonética inadequada e automaticamente corrigi-la.

 


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