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Algumas Reflexões Éticas sobre
a Disfonia Enquanto Doença Ocupacional e a Atuação Terapêutica
de Fonoaudiólogos com Docentes
Autor:
Gustavo Bruno
Bicalho Gonçalves
Data do artigo: Outubro de 2000
Bacharel em Fonoaudiologia - FAMIH
Bacharel em Psicologia - UFMG
Mestrando em Educação - UFMG
Um problema que
desperta grande interesse de muitos pesquisadores e clínicos
na área da fonoaudiologia em todo o mundo e, mais especificamente,
dos fonoaudiólogos que trabalham com voz, é a
incidência de disfonia entre professores e seu tratamento.
Isto ocorre devido à grande relevância social do
problema, que aflige significativa parcela de uma imensa população
de trabalhadores, cujo trabalho, de inegável relevância
social, depende de uma boa saúde vocal para sua satisfatória
execução.
Paralelamente
a esse problema há uma tendência mundial, relatada
na edição de Jan./Fev. de 2000 do jornal do CFFa,
página 17, de considerar a disfonia como uma doença
ocupacional. Apesar de comprovada a correlação entre
uso profissional da voz e incidência de casos de disfonia,
é difícil estabelecer critérios que discriminem
em que medida as condições de trabalho interferem
e até mesmo causam esta patologia. Assim, de modo semelhante
à DORT, ou LER, vemos que a disfonia ainda terá
um longo caminho pela frente antes que se estabeleça critérios,
medidas profiláticas e adicionais de insalubridade que
visem minimizar seus efeitos deletérios na vida do trabalhador.
Diante
da polêmica sobre o poder de influência das condições
de trabalho no desenvolvimento das disfonias, profissionais
da área de saúde mais diretamente ligados à
questão, notadamente fonoaudiólogos e médicos
otorrinolaringologistas, passam a ter um importante papel político
ao se posicionarem, o que faz com que precisem revisar suas
posturas teóricas e ideológicas relativas a ao
problema. Faz-se necessária uma análise da postura
que está sendo assumida por estes profissionais, recapitulando
o que já vem sendo dito e feito em relação
a disfonia ocupacional e quais as implicações
destes atos. Enfim, é demandado um debate ético
sobre o assunto.
As
atuais abordagens terapêuticas aplicadas ao problema da
disfonia entre professores dividem-se em duas vertentes: a)
atendimento clínico individualizado, realizado em consultórios
de fonoaudiologia, após instalação do quadro
patológico e devido encaminhamento do otorrinolaringologista
e b) realização de projetos educativos e de prevenção
primária, geralmente desenvolvido dentro das escolas,
visando divulgar para os professores noções de
higiene vocal, saúde vocal, abuso e mau uso vocal, além
de despertar a atenção dos professores para possíveis
problemas de voz e sua propedêutica.
Em
ambas abordagens o enfoque primário está no sujeito
e não no contexto que supostamente gerou seu adoecimento,
o que implica em uma provável continuidade das contingências
que corroboraram para que o professor viesse a desenvolver maus
hábitos vocais. Isso não quer dizer que não
haja, da parte de muitos profissionais, interesse e preocupação
de se conhecer e intervir, se possível, nas condições
objetivas de produção do trabalho do professor,
na sala de aula, mas essa preocupação muitas vezes
se dá em um nível secundário e não
a ponto de mobilizar interessados em fazer reais transformações
nesses ambientes. Não há divulgação,
por exemplo, de uma abordagem ergonômica, em que os fonoaudiólogos
atuariam como consultores, convidados pela escola a diagnosticar
e intervir em situações, ambientes físicos
e formas de organização do trabalho que seriam
de risco para o adoecimento vocal de professores. Esta abordagem
terapêutica ainda não se difundiu porque soluções
desta natureza são consideradas demasiadamente caras
e demandam significativas mudanças na estrutura escolar,
tais como aquisição de aparelhos de microfones,
amplificadores, diminuição do tamanho das turmas,
reformas de espaços para otimização da
acústica, dentre outras, o que dificilmente seria de
interesse dos administradores escolares, embora talvez fossem
bastante eficazes na redução dos índices
de morbidade, relativos a casos de disfonia.
O
que se observa na maioria dos projetos de prevenção
às disfonias realizados em escolas é que enquanto
professores são encorajados por seus empregadores a enfrentar
cursos de reabilitação e reeducação
vocal ministrados por fonoaudiólogos, as condições
insalubres muitas vezes continuam a agir e a gerar risco de
novo adoecimento vocal. Após tais cursos, por ocasião
de reincidência da disfonia, há uma forte tendência
por parte do empregador, do fonoaudiólogo e até
do professor em acreditar que ele, o professor disfônico,
é o único culpado por seu adoecimento, por não
ter conseguido cumprir todos os preceitos que lhe foram ensinados
durante o curso, ainda que a sua sala de aula continue cheia,
barulhenta, todos continuam fumando na sala dos professores,
ele continua a aspirar pó de giz, ar condicionado e as
relações com os colegas e diretores continuam
estressantes.
Por
trás de uma abordagem que privilegia o atendimento ao
indivíduo doente ou em risco, em detrimento de uma reflexão
mais aprofundada sobre o contexto que ocasiona tal adoecimento,
há uma crença que fundamenta tal atitude. No atual
estágio de conhecimento sobre a disfonia enquanto doença
ocupacional é possível crer1
que talvez as condições de trabalho não
exerçam poder tão grande sobre o desenvolvimento
das disfonias, o que justificaria uma intervenção
voltada para o indivíduo e para técnicas de melhora
do controle pneumofônico, ressonância e articulação,
bem como técnicas de oratória. Porém, deve-se
atentar para o fato de que toda crença está a
favor de uma ideologia e, no caso de programas de prevenção
à disfonia entre professores, haverá sempre uma forte
tendência em se adotar a ideologia dos gestores da escola, que,
afinal, são quem contratam os serviços do fonoaudiólogo. Sendo
assim torna-se muito importante uma reflexão crítica
por parte do profissional que realiza a intervenção
dentro da escola porque, talvez inconscientemente, alguns programas
de prevenção, no intuito de proteger o trabalhador
de algum problema de voz, podem estar indo contra ele. É
necessária uma reflexão ética sobre o uso
do discurso da fonoaudiologia que diz que é o trabalhador
que não sabe utilizar corretamente sua própria
voz, já que este discurso pode justificar e reforçar
uma postura em que pouco se faz pela modificação
das condições objetivas de produção
do trabalho. Com este discurso, o fonoaudiólogo pode
estar indo contra o seu cliente disfônico, impedindo que
ele lute por melhores condições de trabalho e
de uso da voz, assim criando para si próprio melhores
condições de vida e de trabalho.
Cabe,
pois, ao fonoaudiólogo consciente, questionar-se sobre
a implicação de sua postura frente ao problema
da disfonia ocupacional entre professores, e agir eticamente,
sempre pensando em uma melhor qualidade de vida para o seu cliente,
enquanto profissional da voz. O fonoaudiólogo deve estar
sempre atento para fato de que no modo de produção
capitalista há uma certa tendência em se optar
por soluções mais rápidas e baratas, ao
custo de um "pequeno" sacrifício da saúde
do trabalhador. A partir desta reflexão ele deve evitar,
a todo custo, ser conivente com esta atitude vergonhosa e, pelo
contrário, deve utilizar-se de seus conhecimentos para
lutar por uma condição de trabalho mais digna
para os seus clientes, ainda que isso lhe custe coragem, determinação
e paciência.
Deve-se
sempre lembrar que a educação, enquanto profissão,
é um trabalho de extrema relevância social, fato
que por si só confirma a validade de todos os esforços
no sentido de melhor atender essa classe profissional nos seus
anseios de ter uma voz que supra às suas necessidades.
Que a fonoaudiologia esteja sempre empenhada em descobrir a
melhor forma de atender à demanda dessa significativa
parcela da população, ajudando-a a recuperar a
sua voz, em todos os sentidos.
1
Embora eu não concorde que o fonoaudiólogo deva apoiar-se em crenças
para basear suas intervenções terapêuticas, e sim deva sempre
procurar dados científicos, usei aqui a palavra crer porque não
há dados empíricos que comprovem definitivamente qual seria a
abordagem mais adequada à disfonia ocupacional. Logo, o fonoaudiólogo
não tem como
apoiar-se na ciência para fazer uma opção por uma abordagem mais
voltada para o indivíduo ou para a organização do trabalho.