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.:: RELAÇÕES ENTRE PROCESSOS COGNITIVOS E LINGÜÍSTICOS: TERAPIA FONOAUDIOLÓGICA PARA ADOLESCENTE SURDO, DENTRO DE UMA VISÃO SÓCIO-ANTROPOLÓGICA

Autora: Mila Weissbluth Frejman
Data do artigo: junho de 1998
CRFa 6813
Especialista em Reabilitação em Fonoaudiologia - Linguagem.

TRATAMENTO FONOAUDIOLÓGICO

O tratamento fonoaudiológico do paciente A. G. S., iniciou-se em agosto de 1997, sendo as sessões terapêuticas, realizadas duas vezes por semana.

Adotou-se como filosofia de trabalho os princípios teóricos da visão socio-antropológica da surdez, que vê o surdo como um ser bilíngüe e bicultural, portanto valorizando a importância das duas formas de comunicação a gestual e a oral, mas desenvolvendo técnicas e procedimentos em que a ênfase maior é a priorização das relações que se estabelecem entre Linguagem e Cognição.

As atividades realizadas com A. G. S. serão a seguir relatadas levando-se em consideração os objetivos gerais e específicos da terapia. Cada sessão fonoaudiológica, foi dividida em três momentos, onde foram trabalhados: a mecânica da fala através da articulação, da respiração e da ressonância, a estruturação da linguagem através da estruturação do vocabulário (aspecto semântico), organização do aspecto sintático, introjeção dos conceitos mentais e treinamento auditivo, através de exercícios de localização e discriminação de sons, de ritmo e de entonação. Foram organizadas também situações com o objetivo complementar de desenvolver outras habilidades.

Para explicarmos a A. G. S. as atividades que iriam ser realizadas, além da comunicação oral, utilizávamos a Língua de Sinais, juntamente com a escrita, para que o paciente compreendesse melhor o que deveria ser feito.

Para estimulação da linguagem oral, compreensiva e expressiva, realizamos várias atividades, utilizando jogos de memória, seqüência-lógica, dominó; palavras cruzadas; descrição de gravuras; histórias em quadrinhos; recorte e colagem em revistas.

Com as gravuras, por exemplo, fazíamos uma descrição a partir do que era mostrado na mesma. Tínhamos várias fichas com as partes da casa. O paciente deveria colocar o nome da peça da casa e descrever o que havia dentro dessa peça. Então, tentava pronunciar as palavras descritas; logo após, a terapeuta falava e ele precisava mostrar na gravura o que havia sido dito pela terapeuta.

Nesta atividade, além de estimular a linguagem compreensiva e expressiva, trabalhamos a ampliação de vocabulário, a adequação do ponto e modo de articulação de fonemas ausentes, a estimulação da leitura orofacial e, junto a isso, proporcionamos o desenvolvimento do aspecto cognitivo do paciente.

Nas atividades realizadas com revistas, trabalhamos de diversas maneiras, utilizando, por exemplo, recortes de gravuras, de situações em que ele escolhia a gravura, recortava e colava e a terapeuta fazia perguntas escritas a respeito da gravura (Anexo 7).

Utilizamos também o livro "Iniciando a Comunicação Escrita" de Lemer (1994), no qual existem figuras agrupadas com diferentes classificações; por exemplo: frutas, verduras, animais, objetos de uso pessoal, entre outros.

Reservamos sempre um espaço, durante a sessão, para trabalhar especificamente a leitura orofacial, escolhendo atividades de repetição de palavras e de frases já utilizadas anteriormente em outros exercícios.

Nossa preocupação principal centrou-se na escolha de atividades que se relacionassem com o interesse de A.G.S., buscando sempre a relação significado/significante. Neste sentido, realizamos atividades com vídeo, em que havia cenas de novela, desfile de modas, propagandas, jogo de futebol, entrevistas, entre outros. Após assistir ao vídeo, o paciente deveria escrever ao lado das perguntas feitas pela terapeuta as respostas a respeito do vídeo.

Houve durante todo o período da terapia, o interesse em desenvolver aspectos semânticos e sintáticos. Para isso, cada palavra nova para o paciente, era colocada dentro de uma frase, dentro de um contexto.

Como reforço terapêutico, utilizamos um caderno com tarefas que deveriam ser realizadas por A.G.S.; ele o levava para casa e trazia na sessão seguinte. Podemos citar algumas atividades como, por exemplo, escrever palavras com o fonema trabalhado na sessão, falar na frente do espelho palavras produzidas oralmente pelo paciente durante a terapia, entre outras.

Realizamos, ainda, atividades que utilizavam fichas com os fonemas e a explicação de como produzir oralmente cada fonema e, com o auxílio dos carimbos Pró-Fono das boquinhas, que colocados ao lado da explicação, mostravam como era a articulação de cada fonema. Com isso, facilitamos a emissão do fonema, oferecendo-lhe uma pista visual (Anexo 8).

Para instalar os fonemas ausentes, utilizamos as fichas acima citadas que foram elaboradas pela terapeuta com o vocabulário acessível ao paciente. Esta atividade era realizada em frente ao espelho. O uso das fichas teve também como objetivo facilitar a busca do significado.

A percepção auditiva foi trabalhada, visando ao desenvolvimento das principais etapas do processamento central (atenção auditiva, discriminação auditiva, memória, localização e compreensão auditiva). As atividades foram realizadas utilizando-se sons de tambor, de chocalho, de pratos, de sino, de flauta, entre outros.

Realizamos atividades, para que A.G.S. pudesse observar a diferença entre som breve e longo (duração do tempo), agudo e grave, e forte e fraco. Para isso, utilizamos instrumentos musicais associados a símbolos (o breve é representado por uma seta pequena, com um sopro de uma flauta breve; o longo é representado por uma seta grande, com um sopro de uma flauta longa; agudo é representado por uma cor clara, com o som de um apito; grave é representado por uma cor escura, com uma batida de um tambor; fraco é representado por um círculo pequeno, com uma batida de um instrumento fraco; forte é representado por um círculo grande, com uma batida de um instrumento forte); dessa maneira, o paciente, após a explicação, indicava o tipo de som que havia escutado.

Para adequar a mobilidade de lábios e língua, realizamos exercícios, tais como estalar a língua de diferentes formas (com a boca aberta, com os dentes cerrados e os lábios entreabertos); passar a língua nos lábios e comissuras; estreitar e alargar a língua fora da boca; exercícios de sopro; esticar os lábios com força; movimentar os lábios como se fossem a tampa de uma garrafa que se pretende abrir.

A respiração foi trabalhada através de exercícios de relaxamento, sopro, entre outros. Mesmo nestas atividades, aparentemente sem conteúdo significativo, procuramos utilizar desenhos do aparelho respiratório, relacionando o que era realizado com o que era observado.

Cabe ressaltar ainda, que as atividades para cada objetivo, foram trabalhadas de diferentes maneiras, visando sempre à manutenção do interesse do paciente nas atividades propostas. Além disso, foram trabalhados diversos objetivos numa mesma sessão, para que tivéssemos um progresso fonoaudiológico global.


Index | Introdução | Dados de Identificação do Paciente
História Clínica do Paciente | Avaliação | Hipótese Diagnóstica | Etiologia
Fundamentação Teórica | Planejamento Terapêutico
Tratamento Fonoaudiológico | Evolução
Prognóstico | Conclusão | Bibliografia

 

 

           
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