TRATAMENTO
FONOAUDIOLÓGICO
O tratamento
fonoaudiológico do paciente A. G. S., iniciou-se em
agosto de 1997, sendo as sessões terapêuticas,
realizadas duas vezes por semana.
Adotou-se
como filosofia de trabalho os princípios teóricos
da visão socio-antropológica da surdez, que
vê o surdo como um ser bilíngüe e bicultural,
portanto valorizando a importância das duas formas de
comunicação a gestual e a oral, mas desenvolvendo
técnicas e procedimentos em que a ênfase maior
é a priorização das relações
que se estabelecem entre Linguagem e Cognição.
As atividades
realizadas com A. G. S. serão a seguir relatadas levando-se
em consideração os objetivos gerais e específicos
da terapia. Cada sessão fonoaudiológica, foi
dividida em três momentos, onde foram trabalhados: a
mecânica da fala através da articulação,
da respiração e da ressonância, a estruturação
da linguagem através da estruturação
do vocabulário (aspecto semântico), organização
do aspecto sintático, introjeção dos
conceitos mentais e treinamento auditivo, através de
exercícios de localização e discriminação
de sons, de ritmo e de entonação. Foram organizadas
também situações com o objetivo complementar
de desenvolver outras habilidades.
Para explicarmos
a A. G. S. as atividades que iriam ser realizadas, além
da comunicação oral, utilizávamos a Língua
de Sinais, juntamente com a escrita, para que o paciente compreendesse
melhor o que deveria ser feito.
Para estimulação
da linguagem oral, compreensiva e expressiva, realizamos várias
atividades, utilizando jogos de memória, seqüência-lógica,
dominó; palavras cruzadas; descrição
de gravuras; histórias em quadrinhos; recorte e colagem
em revistas.
Com as gravuras,
por exemplo, fazíamos uma descrição a
partir do que era mostrado na mesma. Tínhamos várias
fichas com as partes da casa. O paciente deveria colocar o
nome da peça da casa e descrever o que havia dentro
dessa peça. Então, tentava pronunciar as palavras
descritas; logo após, a terapeuta falava e ele precisava
mostrar na gravura o que havia sido dito pela terapeuta.
Nesta atividade,
além de estimular a linguagem compreensiva e expressiva,
trabalhamos a ampliação de vocabulário,
a adequação do ponto e modo de articulação
de fonemas ausentes, a estimulação da leitura
orofacial e, junto a isso, proporcionamos o desenvolvimento
do aspecto cognitivo do paciente.
Nas atividades
realizadas com revistas, trabalhamos de diversas maneiras,
utilizando, por exemplo, recortes de gravuras, de situações
em que ele escolhia a gravura, recortava e colava e a terapeuta
fazia perguntas escritas a respeito da gravura (Anexo 7).
Utilizamos
também o livro "Iniciando a Comunicação
Escrita" de Lemer (1994), no qual existem figuras agrupadas
com diferentes classificações; por exemplo:
frutas, verduras, animais, objetos de uso pessoal, entre outros.
Reservamos
sempre um espaço, durante a sessão, para trabalhar
especificamente a leitura orofacial, escolhendo atividades
de repetição de palavras e de frases já
utilizadas anteriormente em outros exercícios.
Nossa preocupação
principal centrou-se na escolha de atividades que se relacionassem
com o interesse de A.G.S., buscando sempre a relação
significado/significante. Neste sentido, realizamos atividades
com vídeo, em que havia cenas de novela, desfile de
modas, propagandas, jogo de futebol, entrevistas, entre outros.
Após assistir ao vídeo, o paciente deveria escrever
ao lado das perguntas feitas pela terapeuta as respostas a
respeito do vídeo.
Houve durante
todo o período da terapia, o interesse em desenvolver
aspectos semânticos e sintáticos. Para isso,
cada palavra nova para o paciente, era colocada dentro de
uma frase, dentro de um contexto.
Como reforço
terapêutico, utilizamos um caderno com tarefas que deveriam
ser realizadas por A.G.S.; ele o levava para casa e trazia
na sessão seguinte. Podemos citar algumas atividades
como, por exemplo, escrever palavras com o fonema trabalhado
na sessão, falar na frente do espelho palavras produzidas
oralmente pelo paciente durante a terapia, entre outras.
Realizamos,
ainda, atividades que utilizavam fichas com os fonemas e a
explicação de como produzir oralmente cada fonema
e, com o auxílio dos carimbos Pró-Fono das boquinhas,
que colocados ao lado da explicação, mostravam
como era a articulação de cada fonema. Com isso,
facilitamos a emissão do fonema, oferecendo-lhe uma
pista visual (Anexo 8).
Para instalar
os fonemas ausentes, utilizamos as fichas acima citadas que
foram elaboradas pela terapeuta com o vocabulário acessível
ao paciente. Esta atividade era realizada em frente ao espelho.
O uso das fichas teve também como objetivo facilitar
a busca do significado.
A percepção
auditiva foi trabalhada, visando ao desenvolvimento das principais
etapas do processamento central (atenção auditiva,
discriminação auditiva, memória, localização
e compreensão auditiva). As atividades foram realizadas
utilizando-se sons de tambor, de chocalho, de pratos, de sino,
de flauta, entre outros.
Realizamos
atividades, para que A.G.S. pudesse observar a diferença
entre som breve e longo (duração do tempo),
agudo e grave, e forte e fraco. Para isso, utilizamos instrumentos
musicais associados a símbolos (o breve é representado
por uma seta pequena, com um sopro de uma flauta breve; o
longo é representado por uma seta grande, com um sopro
de uma flauta longa; agudo é representado por uma cor
clara, com o som de um apito; grave é representado
por uma cor escura, com uma batida de um tambor; fraco é
representado por um círculo pequeno, com uma batida
de um instrumento fraco; forte é representado por um
círculo grande, com uma batida de um instrumento forte);
dessa maneira, o paciente, após a explicação,
indicava o tipo de som que havia escutado.
Para adequar
a mobilidade de lábios e língua, realizamos
exercícios, tais como estalar a língua de diferentes
formas (com a boca aberta, com os dentes cerrados e os lábios
entreabertos); passar a língua nos lábios e
comissuras; estreitar e alargar a língua fora da boca;
exercícios de sopro; esticar os lábios com força;
movimentar os lábios como se fossem a tampa de uma
garrafa que se pretende abrir.
A respiração
foi trabalhada através de exercícios de relaxamento,
sopro, entre outros. Mesmo nestas atividades, aparentemente
sem conteúdo significativo, procuramos utilizar desenhos
do aparelho respiratório, relacionando o que era realizado
com o que era observado.
Cabe ressaltar
ainda, que as atividades para cada objetivo, foram trabalhadas
de diferentes maneiras, visando sempre à manutenção
do interesse do paciente nas atividades propostas. Além
disso, foram trabalhados diversos objetivos numa mesma sessão,
para que tivéssemos um progresso fonoaudiológico
global.