FUNDAMENTAÇÃO
TEÓRICA
1. Considerações
Gerais sobre Surdez
1. Importância da
Audição
Ouvir é
uma importante fonte de experiências sociais. É
muito provável que nenhuma incapacidade produza tantas
dificuldades específicas em relação à
comunicação e à linguagem, do que a deficiência
da audição.
Aprende-se a falar, a compreender a fala dos outros, a comunicar
experiências passadas e idéias; assim, falamos
para ação futura, porque podemos ouvir.
Desse modo, a audição e a fala são extremamente
importantes e contribuem, decisivamente, para a aceitação
social do indivíduo, ou seja, para que o mesmo usufrua
de um sentimento de segurança pessoal, auxiliando-o,
de maneira preponderante na aprendizagem.
Conseqüentemente, a perda da audição, além
de fazer com que os sons da vida permaneçam desconhecidos
para o indivíduo, impede-o de dominar a língua
falada pelos seus pais, seus irmãos e pelos seus compatriotas.
Assim, é principalmente através da audição
que o indivíduo adquire a linguagem, a característica
mais marcante ao ser humano. Não ter acesso à
linguagem significa não conseguir desenvolver em toda
a sua plenitude uma capacidade lingüística; significa
também perder o direito de se tornar pessoa, em toda
a abrangência da palavra.
Nas pessoas surdas, o estabelecimento de um sistema lingüístico
deverá partir do processamento das informações
visuais-verbais, pois só desta forma, elas poderão
acessar a simbolização e os conceitos.
2. O que é Surdez?
Significa
a incapacidade de ouvir e de entender a fala, ou seja, a audição
socialmente incapacitante. O surdo não pode ouvir sons
com freqüências na escala da fala humana. O ouvido
humano percebe normalmente os sons com 20 a 20 mil vibrações
por segundo. Dessa maneira, o surdo pode ouvir certos sons,
embora não possa ouvir a fala. As crianças surdas
aprendem a falar com muita dificuldade. Normalmente as crianças
aprendem a falar imitando a fala dos outros. Mas as crianças
surdas não podem ouvir a fala, portanto, nunca aprendem
a falar o bastante para serem entendidas. Para se comunicarem
com os outros, usam a linguagem de sinais e outras técnicas
especiais. Muitos surdos conseguem fazer até o curso
universitário e exercer profissões variadas.
A surdez não é impedimento à ampla variedade
de ocupações.
As conseqüências da surdez são as mais variadas
possíveis e dependem de distintos fatores: grau da
perda auditiva; época do surgimento da mesma; inteligência;
experiências vivenciadas nos primeiros anos de vida,
educação precoce e oportunidade de estarem em
contato com outros surdos, o que é fundamental para
o processo de identificação e, conseqüentemente,
para o desenvolvimento de uma personalidade harmoniosa.
3. Histórico da
Educação dos Surdos
Desde os tempos
antigos, haviam pessoas que nasciam surdas. Essas não
conseguiam falar normalmente, passando a expressar-se por
sinais. Durante toda a antigüidade e quase toda a Idade
Média, consideraram-se os surdos como ineducáveis.
Desde esta época, havia referências acerca da
utilização de sinais por parte dos surdos; entretanto,
só no final do século XVIII se contou com uma
descrição destes sinais como parte integrante
de um código lingüístico.
No Renascimento, houve uma nova concepção da
surdez, isto é, não se negou ao surdo sua humanidade,
pelo contrário, se lhe atribuiu esse potencial humano.
Conseqüentemente, procurou-se de todas as maneiras instruir
o surdo para que ele pudesse desenvolver suas potencialidades.
Os surdos passaram a se comunicar na língua de sinais,
expressando suas idéias por meio da língua escrita.
Na época renascentista, os surdos gozaram de oportunidades
que, posteriormente, lhe foram negadas, com imposição
do oralismo, a partir da segunda metade do século passado.
O século XIX foi testemunha da luta entre duas tendências
conflitivas, o oralismo e o gestualismo, na educação
do surdo. Já nas primeiras décadas, o método
francês do abade Charles Michel de L´Epée,
que foi fundador da primeira escola de surdo, alcançou
conquistas significativas, entretanto aos êxitos iniciais
do gestualismo sucedeu uma poderosa reação do
oralismo, que a partir da segunda metade do século
passado foi ganhando terreno em todos os setores. Até
o século XIX, a surdez foi considerada acima de tudo
em termos sociais e pedagógicos, porém a partir
de certo momento passou a ser vista em termos médicos.
Esta medicalização da surdez irá acarretar
uma série de efeitos negativos para a comunidade surda.
Esse processo culmina com o Congresso de Milão, a partir
do qual as estratégias educacionais para os surdos,
tornaram-se terapêuticas.
Nos Estados Unidos, no século XIX, a educação
do surdo teve aspectos originais e peculiares na sua evolução,
graças a Thomas Hopkins Gallaudet (1787-1851) e seus
sucessores surdos e ouvintes, mesmo em condições
adversas garantiram espaço para a comunidade surda
subsistir, preservando sua cultura e sua identidade. Nos Estados
Unidos, a figura mais destacada do oralismo foi Alexander
Graham Bell.
Resumindo, podemos afirmar que, historicamente, a sociedade
negou ao surdo a possibilidade de ele lutar pelos seus direitos,
tendo inclusive uma atitude paternalista em relação
à sua educação. Eram poucas as pesquisas
dedicadas a este segmento social, e os estudos realizados
concebiam a surdez, exclusivamente como um tipo de patologia
audiológica. Só a partir de 1960, com base nos
esforços de Stokoe e outros é que se desenvolveu
uma verdadeira neuropsicologia da surdez; conseqüentemente
começou a se compreender como o surdo aprende e a importância
da Língua de Sinais, como um instrumento propriamente
lingüístico.
3.1. A Educação
do Surdo no Brasil
Iniciou em
1857, no Rio de Janeiro a 1ª escola para educação
dos surdos pelo professor francês surdo Ernest Huet.
Os alunos foram educados por linguagem escrita, datilológica
e de sinais. No Brasil, como no resto do mundo, a caminhada
foi a mesma; oralismo, comunicação total, e
recentemente o bilingüismo e biculturalismo, resultante
de uma visão muito mais abrangente do que a visão
médica, a visão sócio-antropológica
da surdez.
A realidade brasileira é muito diferente da realidade
de outros países e faz muito pouco tempo que a visão
sócio-antropológica da surdez passou a ser discutida
academicamente. Certamente ainda vamos enfrentar muitos desafios,
antes de termos uma proposta brasileira sobre o bilingüismo
que permita aos profissionais um bom trabalho e às
pessoas surdas melhores condições de aprendizado,
de participação e, sobretudo, que respeite mais
o contexto individual e cultural desta comunidade.
2. Introdução
à Anatomia e Fisiologia da Audição
A audição
é um sentido muito importante no desenvolvimento e
manutenção do funcionamento normal do ser humano.
A aquisição e monitoramento da fala, a detecção
de perigo potencial, a sensação de existir um
universo vivo dependem da audição. O ouvido
nos permite perceber os sons. Além disso, nos dá
o sentido de equilíbrio. A capacidade de ouvir nos
permite trocar idéias e opiniões com outras
pessoas através da fala. Assim, a audição
está intimamente relacionada ao desenvolvimento fonético
do indivíduo, tanto na aprendizagem quanto na modulação
e no controle de sua voz através da audição.
1. Anatomia do Ouvido
O ouvido está
em sua maior parte contido no osso temporal e em íntimas
relações com o aparelho vestibular ou do equilíbrio.
A parte visível do ouvido é apenas uma porção
desse órgão vital, o qual se estende profundamente
pelo crânio. O ouvido consiste em três partes,
cada qual com distintas características estruturais
e funcionais: o ouvido externo, o ouvido médio e o
ouvido interno.
Ouvido externo: O ouvido externo é constituído
pelo pavilhão auricular ou orelha, pelo conduto auditivo
externo com suas porções óssea e cartilaginosa
e pela membrana timpânica. O pavilhão auricular
se encontra na parte de trás da articulação
temporo mandibular e região parotídea e pela
frente da apófise mastóidea do osso temporal.
É constituído por um esqueleto fibrocartilaginoso
coberto por pele e sua face externa apresenta relevos e depressões.
Sua função é coletar as ondas sonoras
e afunilá-las para o conduto auditivo externo.
O conduto auditivo externo é continuação
do orifício auditivo externo. Situa-se entre a membrana
timpânica e o pavilhão auricular. É uma
formação tubular revestida pela pele e possui
um trajeto sinuoso. Em seu limite interno está fechado
pela membrana timpânica. Tem como função
principal conduzir o som até a membrana timpânica.
Serve também para estabelecer comunicação
entre o mecanismo auditivo (ouvido médio) e o meio
externo. Compõe-se de duas partes: uma externa sobre
um esqueleto cartilaginoso e uma interna cujo esqueleto é
ósseo.
A membrana timpânica encontra-se na porção
final do conduto auditivo externo, separando-o do ouvido médio.
É uma estrutura delgada, côncava e semi transparente;
e está fixada à parede do conduto auditivo externo
por um anel de tecido fibroso chamado anel timpânico.
Ouvido médio: O ouvido médio ou cavidade timpânica
é um sistema de cavidades ocas, preenchidas de ar,
que se comunicam entre si, encontrando-se integrado à
estrutura óssea do osso temporal. Esse sistema está
coberto por mucosa e sua coloração é
cinza rosada.
O ouvido médio tem uma função de extrema
importância na transmissão do fluxo de energia
aérea, oriunda do ouvido externo para os líquidos
do ouvido interno sem que exista perda ou alteração
nas suas características físicas. Apresenta
seis paredes paralelas entre si: parede lateral- membrana
timpânica; parede posterior- nervo facial, músculo
estapédio, antro da mastóide; parede medial
- janela oval, janela redonda e promontório; parede
anterior - tuba auditiva e semicanal do músculo tensor
do tímpano; parede inferior - células timpânicas,
bulbo da veia jugular e artéria carótida interna
e parede superior - tegmen tympani.
O ouvido médio é composto por três estruturas
principais: caixa timpânica e ossículos, sistema
pneumático do osso temporal e trompa de eustáquio.
Caixa timpânica: é uma cavidade óssea,
situada entre o conduto auditivo externo e o ouvido interno.
Tem como função transmitir o som desde o ouvido
externo até o ouvido interno. Sustenta a cadeia de
ossículos que coloca a membrana timpânica em
contato com a janela oval, que é a entrada do ouvido
interno. Dentro da caixa timpânica, encontra-se a cadeia
de ossículos formada pelo martelo, pela bigorna e pelo
estribo.
Sistema pneumático do osso temporal: é composto
de células da mastóide, arejadas, comunicadas
entre si e cobertas por mucosa. Com freqüência,
invadem a zona posterior e inferior da caixa timpânica,
que está integrada na apófise da mastóide.
Há também células da mastóide
que se dirigem para as zonas internas do osso temporal, ultrapassando
as estruturas do ouvido interno. A mucosa que recobre este
sistema, possui células secretoras de muco e células
ciliadas que deslocam o muco para o assoalho da caixa timpânica.
O assoalho da caixa timpânica se liga com a terceira
estrutura do ouvido médio, a trompa de eustáquio.
Trompa de eustáquio: é o conduto que liga o
ouvido médio com a porção superior da
faringe ou rinofaringe. Tem a função de equilibrar
a pressão negativa que se forma no ouvido médio
com a pressão da rinofaringe. A trompa é a via
de drenagem das secreções produzidas pela mucosa
do ouvido médio em estado patológico. Na estrutura
da trompa, encontramos duas partes: uma porção
óssea e uma porção cartilaginosa. A trompa
em repouso se encontra colabada pela tensão elástica
da cartilagem e dos tecidos peritubários. Sua abertura
se dá de modo ativo junto à contração
da musculatura do véu do palato, ao se realizar deglutição
ou um bocejo.
Ouvido interno: O ouvido interno está contido na porção
petrosa do osso temporal e situa-se por dentro e por detrás
da caixa timpânica. É a parte mais dura do ouvido.
Também é denominado de labirinto e é
formado por duas porções: uma anterior - cóclea
(órgão de corti) e outra posterior - aparelho
vestibular (canais semicirculares), utrículo e sáculo.
A cóclea transforma o estímulo mecânico
em elétrico. E o aparelho vestibular dá função
de equilíbrio. Entre ambas porções há
uma zona chamada vestíbulo.
O ouvido interno possui três tipos de estruturas: labirinto
ósseo, labirinto membranoso e líquidos labirínticos.
Labirinto ósseo: contém o labirinto membranoso
e os líquidos labirínticos. Dentro desse labirinto
estão: a cóclea, os canais semicirculares e
o vestíbulo ósseo. A cóclea se situa
diante do vestíbulo. Sua base relaciona-se com o fundo
do meato acústico interno e um ápice que é
o promontório. Possui três elementos: columela-
pirâmide, ocupa o eixo da cóclea; canal espiral
- tubo ósseo e lâmina espiral - lâmina
óssea. Os canais semicirculares estão atrás
e acima do vestíbulo. Fazem o equilíbrio dinâmico.
E o vestíbulo ósseo situa-se entre a cóclea
e os canais semicirculares. Na face externa estão a
janela oval e a janela redonda; na face interna temos o fundo
do meato acústico interno e a passagem aos ramos do
nervo vestibular.
Labirinto membranoso: é formado por estruturas de membrana,
em cujas cavidades circulam os líquidos labirínticos.
Dentro desse labirinto estão: o ducto coclear, o órgão
de corti, o ducto semicircular e o vestíbulo membranoso.
O ducto coclear é uma formação membranosa,
no interior do canal espiral da cóclea. É por
onde vem a perilinfa. A lâmina espiral e o ducto coclear
juntos dividem o canal espiral em duas rampas: uma anterior
que é a vestibular e uma posterior que é a timpânica.
Quando elas se encontram, chamamos de helicotrema. O ducto
coclear tem um aspecto triangular e possui três faces:
anterior - membrana de Reissner, posterior - membrana basilar
e externa - ligamento espiral. O órgão de corti
fica sobre a membrana basal. Possui células de sustentação
que sustentam as células ciliadas que podem ser interna
(uma fileira) ou externa (três fileiras). As células
ciliadas externas tem função de proteção
e amplificação, as internas dão o impulso
elétrico. O ducto semicircular situa-se no interior
do canal semicircular, formando o conjunto de células
de sustentação e de célula ciliada. No
vestíbulo membranoso temos células ciliadas
e a mácula. As primeiras responsáveis pela posição
da cabeça e pelo equilíbrio estático
e a mácula responsável pela orientação
direcional.
Líquidos labirínticos: são perilinfa
e endolinfa. A perilinfa circula por um circuito que se encontra
entre o labirinto ósseo e o labirinto membranoso. E
a endolinfa o faz entre as cavidades internas do labirinto
membranoso.
2. Fisiologia da Audição
A audição
é uma sensação fundamental à vida,
pois é a base da comunicação humana.
O órgão responsável pela audição
é o ouvido, o qual se encontra localizado no osso temporal
e divide-se em ouvido externo, ouvido médio e ouvido
interno. A parte mais importante é o ouvido interno,
pois sua porção anterior, a cóclea, abriga
o órgão de corti, que é uma estrutura
mecano-receptora essencial à audição.
O ouvido possibilita que as ondas sonoras excitem as células
sensoriais de corti com o mínimo de perda energética.
O ouvido externo tem função de canalizar as
ondas acústicas para a membrana timpânica. Quando
o fluxo de energia sonora incide sobre a membrana timpânica,
faz com que esta vibre com o mesmo padrão de vibração
do estímulo sonoro. Parte da energia que a atinge é
refletida devido aos fatores de resistência, de forma
que a intensidade do estímulo sonoro é diminuída.
Com a saída da membrana timpânica de sua posição
de equilíbrio, ocorre movimentação da
cadeia ossicular que está ligada a ela pelo cabo do
martelo.
O ouvido médio, possui uma função de
acoplar dois meios com impedâncias diferentes, o ar
e os líquidos labirínticos. Adapta essas duas
impedâncias, atuando como transformador da pressão
acústica. O martelo e a bigorna movem-se, transmitindo
ao estribo um movimento de pistão dentro da janela
oval, movimentando assim, os líquidos labirínticos.
Para esses líquidos se moverem, é preciso que
haja uma outra estrutura que compense os movimentos da janela
oval. Essa estrutura é a janela redonda que comunica
a rampa timpânica com o ouvido médio.
No ouvido interno, os movimentos da janela oval, serão
transmitidos à rampa vestibular e, conseqüentemente,
à membrana de Reissner. Esses se transformarão
em movimentos da endolinfa e, posteriormente, da membrana
tectória sobre as células sensoriais do órgão
de corti. Esse movimento da membrana tectória sobre
os cílios sensoriais é o que ocasionará
o impulso nervoso, isto é, transformará a energia
mecânica em energia bioelétrica.
3. Classificação
das Perdas Auditivas
Segundo Russo
e Santos (1993), as perdas auditivas podem ser classificadas
levando em consideração os seguintes fatores:
momento em que ocorrem, tipos de perdas auditivas e classificação
quanto ao grau de perda auditiva.
1. Classificação
das Perdas Auditivas Quanto ao Momento em que Ocorrem
Pré-natal:
se ocorre durante a vida gestacional;
Peri-natal: se ocorre durante o nascimento;
Pós-natal: se ocorre após o nascimento.
2. Tipos de Perda Auditiva
As perdas
auditivas podem ser divididas em: condutivas, neurossensoriais,
mistas, centrais e funcionais.
Quando os testes revelam uma perda da sensibilidade auditiva
através da condução aérea e os
limiares da condução óssea são
normais, a perda auditiva é condutiva. Resulta de patologias
que atingem o ouvido externo e/ou médio, diminuindo
a quantidade de energia sonora a ser transmitida para o ouvido
interno. A perda auditiva condutiva pode ser identificada
pela discrepância entre os limiares da condução
aérea e óssea. A perda da acuidade auditiva
quase nunca é superior a 60 dB. Na perda condutiva,
a deficiência é uma diminuição
da intensidade, já que o ouvido interno é normal
e o problema reside nas porções externa ou média
do mecanismo da audição. O problema reside na
"condução" do som para o ouvido interno.
Quando uma perda auditiva é encontrada tanto na condução
aérea quanto na óssea e os limiares da condução
óssea encontram-se no mesmo nível dos limiares
da condução aérea, a perda é neurossensorial.
Resulta de distúrbios que comprometem a cóclea
ou o nervo coclear VIII. Os ouvidos externo e médio
apresentam-se normais. O problema é com a "percepção"
do som no ouvido interno ou mais adiante. O indivíduo
tem dificuldades com a clareza, além de uma redução
de intensidade.
O tipo misto de perda é uma combinação
do tipo condutivo e do neurossensorial de perda. Há
uma perda da audição tanto pela condução
aérea quanto pela óssea, mas a perda pela condução
óssea não é tão grande quanto
a pela condução aérea, havendo a produção
de uma "lacuna aérea-óssea" em algumas
freqüências de teste. Os limiares da condução
óssea mostram a presença de perda neurossensorial
mas, já que os limiares da condução aérea
estão piores, há também um componente
auditivo na perda auditiva.
A perda auditiva central atinge a via auditiva central, ou
seja, a porção do nervo coclear e de suas conexões
que se encontram entre o núcleo coclear e o córtex
do lobo temporal.
São denominados portadores de perdas auditivas funcionais
aqueles pacientes cujo comportamento auditivo não está
de acordo com os limiares tonais apresentados.
3. Classificação
das Perdas Auditivas Quanto ao Grau
Segundo DAVIS
& SILVERMANN apud RUSSO e SANTOS (1993), as perdas auditivas
podem ser classificadas quanto ao grau em:
Normal: de 0 a 25 dB
Leve: de 26 a 40 dB
Moderada: de 41 a 70 dB
Severa: de 71 a 90 dB
Profunda: de 90 dB em diante
4. Fatores Etiológicos
Relacionados ao Caso
1. Citomegalovírus
O citomegalovírus,
pertence ao grupo herpesvírus. A infecção
por citomegalovírus pode persistir por toda a vida
do indivíduo sob forma latente, podendo reativar-se
anos após, quando as defesas imunológicas estiverem
comprometidas.
A transmissão de citomegalovírus pode dar-se
das seguintes formas: Gestacional (geralmente por via transplacentária),
Perinatal (provavelmente por contato com secreções
cervicais) e Pós-natal (ocorre por contato com secreções
como saliva, sêmem, leite humano, urina ou por transfusão
de hemoderivados e transplantes como de órgãos,
medula óssea infectados pelo citomegalovírus).
O citomegalovírus é considerado atualmente a
causa mais comum de infecção congênita
no homem. Estima-se que 10% dos recém-nascidos infectados
apresentam sintomas ao nascer. Entre as principais seqüelas
observadas após infecção congênita
pelo citomegalovírus, destacamos deficiências
auditivas, variando de deficiência parcial unilateral
a surdez bilateral profunda. A deficiência auditiva
é suficientemente importante para provocar sérias
dificuldades de comunicação verbal e fala em
mais de um terço dos casos e, em 80% dos casos, a deficiência
auditiva desenvolve-se ou acentua-se após o primeiro
ano de vida.
2. Rubéola
A rubéola
também conhecida como Sarampo Alemão, é
uma infecção viral, contagiosa, benigna, mas
quando ocorre numa gestante pode levar à infecção
fetal crônica grave e a malformações.
Fora da gravidez parece uma gripe forte acompanhada de vermelhidão
que começa no tórax e depois se estende por
todo corpo.
A transmissão da doença se dá por via
respiratória das pessoas doentes, principalmente durante
a fase de vermelhidão. O problema aparece quando a
rubéola acomete uma mulher grávida ainda não
imune à doença.
Na maioria dos casos, durante os três primeiros meses,
a rubéola leva ao abortamento. Se isso não acontecer,
o feto poderá ter problemas de audição
e visão, alterações cardíacas
e problemas nervosos. Durante o segundo trimestre, um dos
principais problemas causados ao feto é a surdez ,
pois justamente no período embrionário em que
o ouvido está em desenvolvimento, o vírus da
Rubéola Fetal inibe a multiplicação das
células, aumentando as fragmentações
cromossômicas responsáveis por anomalias e malformações.
Geralmente, o comprometimento situa-se no ouvido interno,
resultando em perdas neurossensoriais moderadas, severas e
até profundas, dependendo do período gestacional
da infecção; pode ser observado também
um retardo psicomotor. Nos últimos três meses
de gestação, a doença não tem
efeito sobre o bebê.
A rubéola pode ser prevenida através de vacina.
Toda mulher em idade reprodutiva deve ser vacinada antes de
engravidar, assim o bebê não correrá nenhum
risco.
3. Toxoplasmose
É um
processo infeccioso, determinado pelo protozoário toxoplasma
gondi. A transmissão da infecção ao feto
é infreqüente no primeiro trimestre (5%), mas
muito grave, sendo que neste período pode até
gerar surdez. No último trimestre é comum (67%),
mas sem maior gravidade.
O homem adquire a infecção principalmente por
três vias: a ingestão de cistos do solo, areia,
latas de lixo e em qualquer local onde os gatos defecam em
torno de casas e jardins, dissiminando-se através de
hospedeiros transportadores, tais como moscas, baratas e minhocas;
ingestão de cistos de carne crua e mal cozida, especialmente
porco e carneiro e infecção transplacentária
mostrou que cerca de 40% dos fetos foram infectados por essa
via em mulheres que contraem a infecção toxoplásmica
durante a gravidez.
A doença é usualmente pouco importante em adultos,
podendo passar despercebida. No entanto, quando a mãe
desenvolve a infecção durante a gestação,
ela pode transmitir a doença para o feto, o qual é
bastante sensível ao protozoário.
Por outro lado, alguns recém-nascidos infectados são
assintomáticos, mas podem vir a desenvolver complicações
da doença se não forem tratadas.
O tratamento é feito com medicações que
combatem o protozoário. Embora esse procedimento não
reverta as lesões já instaladas, o tratamento
seguramente impede a progressão dessa doença
e reduz o número e a gravidade das seqüelas, razão
pela qual é sempre administrado esse tipo de medicação
nos casos diagnosticados.
5. AASI - Indicação
e Aspectos Atuais
6. Indicação
de Aparelho de Amplificação Sonora Individual
(AASI)
A total integração
do ser humano ao mundo ocorre no momento em que esta estabelece
comunicação com o seu meio.
Dentre as formas conhecidas, a linguagem oral é a mais
usada, visto que expressa de forma mais rápida e completa
o que se quer transmitir. Por tal motivo, a audição
assumiu um papel de grande importância, e o indivíduo
que de alguma forma se vê privado deste sentido tem
o seu principal meio comunicativo prejudicado.
O objetivo básico deste trabalho consiste em apresentar
e analisar alguns aspectos básicos na indicação
de um dos meios que visa à integração
de pessoas portadoras de deficiência auditiva não
tratáveis medicamentosa ou cirurgicamente, o AASI.
1. Histórico
Por volta
de 1900 despontaram os primeiros aparelhos formados por um
microfone de carbono, uma bateria e um fone de ouvido. Tratava-se
de um aparelho bem maior do que os atuais, sem meios para
controle de amplificação.
Mais tarde, por volta de 1938 foi criado o aparelho com tubo
a vácuo, visando uma maior amplificação.
Também neste, o incômodo residia no tamanho,
pois necessitava de duas baterias.
Pós II guerra mundial, em meados de 1950, os circuitos
receberam maior sofisticação com o advento do
transistor. Tal fato trouxe grandes vantagens à performance
do AASI como uma significativa miniaturização
a conseqüente mudança no funcionamento elétrico,
ocasionando diminuição do consumo de energia
e, portanto, uma redução em suas dimensões.
A partir daí, com o avanço da tecnologia foram
criados novos modelos esteticamente mais bem aceitos (retroauricular,
intra canal, intra auricular) e com novas possibilidades de
controles visando uma melhor razão sinal-ruído.
Tais modelos perduraram por muitos anos até chegarmos
à microeletrônica digital que nos proporciona,
nos dias de hoje, uma maior versatilidade na programação
de um AASI.
2. O Aparelho Auditivo
Um AASI é
essencialmente um amplificador que tem como função
captar a energia sonora do ambiente, acrescê-la de uma
potência pré determinada e direcioná-la
ao ouvido do usuário de forma a levar a informação
acústica mais próxima a seu nível de
melhor discriminação e melhor conforto.
Todo aparelho é composto basicamente por: microfone,
sistema de amplificação e receptor que se dispõe
da seguinte forma:
A - Microfone - Trata-se de um transdutor mecanoelétrico
encarregado de transformar a energia acústica que capta,
em energia potencial elétrica, para percorrer os circuitos
elétricos de cada segmento do AASI. Os microfones tiveram
muita variação desde os primórdios até
os usados atualmente. A evolução ocorreu em
termos de durabilidade e qualidade do sinal transformado.
Os aparelhos atuais têm um microfone ELECTRET que é
responsável por gerar um campo magnético e,
da variação deste campo, ocorre a vibração
do diafragma que é enviada ao pré-amplificador.
Dentro das variações de um microfone contamos
com dois tipos de captação da energia sonora:
....A1 - Microfone multidirecional
- teoricamente tem capacidade para perceber o som incidente
de até 360º.
....A2 - Microfone direcional
- tem capacidade de captação seletiva, percebendo
o som de até 180º de incidência.
B - Pré amplificador - A tensão da corrente
emitida pelo micro é menor do que a capacidade de percepção
do amplificador. Portanto, torna-se necessário um estágio
de pré-amplificação, visando aumentar
esta tensão para que o amplificador principal a perceba.
C - Amplificador - É o estágio onde acontece
o maior número de modificações do sinal
de entrada, ou melhor, é nele que ocorre modificação
na quantidade de energia do sinal, da faixa de freqüência
e das demais características acústicas básicas
da onda sonora. Atuam em um amplificador a maior parte dos
controles existentes no AASI (H cut, L cut, out put, gain,
etc.).
D - Bateria - Todo circuito do AASI consome energia que é
fornecida por baterias que são atualmente de dois tipos:
mercúrio ou zinc-air. A durabilidade depende de fatores
variáveis tais como potência do aparelho, ruído
ambiental e uso de bobina telefônica.
E - Receptor - A energia elétrica transformada pelo
microfone e amplificada agora está no estágio
final: o receptor. Neste ocorre a transdução
novamente para energia acústica para que possa ser
entendida pelo usuário.
3. Tipos de AASI
A - Tipo caixa
ou convencional - É o mais antigo dos aparelhos utilizados
hoje em dia, mas que ainda, pela distância entre microfone
e receptor consegue prover maior amplificação.
Pela sua estrutura é o mais resistente, sendo indicado
nos casos de crianças portadoras de perdas profundas
com pouco ou nenhum resto de audição e para
pacientes com problemas motores sérios. Há ainda
a possibilidade de adaptação pseudo binaural,
onde com um aparelho podemos estimular os dois ouvidos. Como
desvantagem, podemos citar a falta de estética como
a principal, uma vez que é significativo o número
de pacientes que colocam esse fator como empecilho. Outra
desvantagem reside no fato do microfone situar-se em posição
não anatômica, pois os mesmos estão colocados
na parte superior da caixa que fica localizada no nível
do osso esterno.
Tipos de adaptação caixa:
....A1 - Binaural - aqui são
usados dois aparelhos de caixa; cada qual com um fio simples
(fio I). Ficam situados um em cada lado do peito.
....A2 - Monoaural - adaptação
feita para estimular apenas um ouvido com um aparelho e um
fio I. Fica situado no centro do peito.
....A3 - Pseudo binaural - neste
tipo de adaptação é usado um aparelho
para a estimulação dos dois ouvidos através
de fios Y ou V.
.... ....A.
Aparelho retroauricular - Foi o que nos últimos tempos
teve sua gama de uso extremamente aumentada com modelos criados
para todos os tipos de perda incluindo severas e profundas.
Neste o microfone está situado em posição
mais anatômica trazendo a amplificação
mais próxima do natural, em relação ao
de caixa. É também esteticamente mais aceitável
devido ao seu tamanho reduzido. Com este tipo de AASI podemos
também contar com mais um recurso para a melhora das
características acústicas fornecidas por ele:
o molde.
.... ....B.
Aparelhos embutidos em haste de óculos - Trata-se de
um aparelho retroauricular embutido na haste do óculos.
Foi muito usado há tempos atrás em casos de
deficiência auditiva e visual associados porém
esta associação acabou sendo um obstáculo
a esta adaptação, uma vez que, quando retirado
o óculos, o paciente voltava a sentir dificuldade em
enxergar e escutar. O fator estético também
influenciou muito para a sua não aceitação
pois as hastes devem ser grossas a fim de sustentar todo o
circuito. Ele pode ser usado com molde auricular, levando
a amplificação por via aérea ao paciente;
ou com vibrador ósseo incorporado à haste do
óculos, em casos onde há gap aéreo-ósseo.
Como este segundo exigia determinada compressão na
mastóide foi caindo em desuso devido ao desconforto.
.... ....C.
Aparelho intra auricular e intracanal - São os mais
requisitados pelos pacientes hoje, pois trazem grandes benefícios
no que concerne à parte estética à qual
se dá muita importância. Algumas são as
vantagens deste tipo de uso e, entre elas, a posição
anatômica do microfone (a nível do CAE), permitindo
com que o som seja percebido de forma mais equivalente à
real. No caso do intracanal, há também a preservação
da função da concha do pavilhão auricular
na amplificação. Cabe salientar também
que há uma restrição dada pelo tamanho
deste tipo de AASI. Pacientes portadores de problemas motores
e sensibilidade diminuída do tato não se adaptam
a esse tipo de aparelho. Mesmo assim, nos últimos anos
tem crescido a sua preferência em todo mundo, principalmente
devido ao avanço dos circuitos que estão possibilitando
o aumento da utilização deste para o maior número
e tipos de perdas auditivas.
7. Concepções
Ideológicas e suas Implicações Clínicas
e Educativas
Apesar das
inúmeras investigações, que já
não deixam dúvidas a respeito da verdade científica
em relação à Língua de Sinais
e da importância dos processos identificatórios
do surdo com sua comunidade, as relações de
poder entre os dois saberes (o saber da surdez e o saber construído
acerca dos surdos) ainda continuam intactas. Esta situação
não permite que o novo discurso seja legítimo
e amplamente aceito.
A cultura ouvinte é a dominante, conseqüentemente
as técnicas e as decisões são na sua
maioria, propostas pelos ouvintes. O ideal é que os
surdos possam ter oportunidade de ter uma educação
em que exista realmente paridade entre ambas as línguas.
1. Oralismo
O oralismo
visa à integração do surdo na comunidade
de ouvintes, dando-lhe condições de desenvolver
a língua oral. A noção de linguagem,
para esta filosofia, restringe-se à língua oral,
e esta deve ser a única forma de comunicação
dos surdos.
Seu objetivo é fazer com que o surdo faça parte
da sociedade ouvinte através da fala e de boa leitura
orofacial, evitando a utilização de sinais.
O oralismo percebe a surdez como uma deficiência que
deve ser minimizada pela estimulação auditiva.
Esta estimulação possibilitaria a aprendizagem
da língua portuguesa e levaria a criança surda
a integrar-se na comunidade ouvinte e a desenvolver uma personalidade
idêntica à dos indivíduos ouvintes.
A educação oral começa no lar e, portanto,
necessita da participação efetiva da família.
O oralismo sempre foi e continua sendo uma experiência
que apresenta resultados nada atraentes para o desenvolvimento
da linguagem e da comunidade dos surdos. Críticos desta
abordagem, argumentam que canalizar todas as experiências
pedagógicas e sociais da criança surda pelo
recurso mais fraco, a competência oral, produzia fracassos
em lugar de sucessos. O surdo não é visto dentro
de suas possibilidades e de suas diferenças, mas no
que lhe falta e que deve ser corrigido de qualquer forma para
que ele possa integrar-se e ser "normal".
Segundo Mindel e Vernon (1970), o oralismo força as
pessoas surdas a se adaptarem a uma imagem do que as pessoas
ouvintes pensam que elas deveriam ser. Todas essas tentativas
de oralização do surdo buscam a transformação
desta num ouvinte que jamais poderá vir a ser. Uma
vez que ele não pode vir a ser, nem a se comportar,
nem a aprender da mesma forma que o ouvinte, as abordagens
oralistas não alcançaram o resultado desejado
(desenvolvimento e integração do surdo na comunidade
ouvinte).
O princípio educacional não estava baseado na
necessidade do surdo e numa compreensão de suas necessidades,
ou sequer em sua forma de comunicação. Isto
não quer dizer que muitos surdos trabalhados no oralismo
não tenham conseguido desenvolver um nível de
linguagem e de fala bastante inteligível. O problema
é que estes são poucos e a questão de
integração na comunidade ouvinte, ainda continua
existindo. A surdez nunca é anulada, tanto pelos profissionais
como pelos ouvintes e, infelizmente, o surdo continua sendo
estigmatizado pela sociedade ouvinte.
2. Comunicação
Total
Na década
de 60, a insatisfação com os resultados da linha
oralista era muito grande nos EUA. Pesquisas e novos conhecimentos
teóricos levaram a questionar o trabalho realizado
até aquele momento, pois este não levava ao
desenvolvimento esperado de fala, leitura orofacial, desenvolvimento
de linguagem e habilidades de leitura.
A comunicação total foi considerada como filosofia
que incorpora as formas de comunicação auditivas,
manuais e orais apropriadas para assegurar uma comunicação
efetiva com as pessoas surdas (Schindler, 1988). Preocupa-se,
principalmente, com os processos comunicativos entre surdos
e surdos e surdos e ouvintes. Acredita também que os
aspectos cognitivos, emocionais e sociais não devem
ser menosprezados em prol do aprendizado exclusivo da língua
oral. Por isso essa filosofia defende o uso de recursos espaço-visuais
como facilitadores da comunicação. Fornece,
portanto, uma comunicação fácil, livre,
de dois caminhos entre a criança surda e o seu ambiente
mais próximo (Northern e Downs, 1975). A idéia
consiste na utilização de alguma maneira que
transmita vocabulário, linguagem e conceitos de idéias
entre o falante e a criança surda.
A comunicação total acredita que apenas o aprendizado
da língua oral não propicie um pleno desenvolvimento
à criança surda.
Brill (1977), sugeriu que sejam estimuladas todas as formas
possíveis de comunicação, tendo por objetivo
o desenvolvimento cognitivo e da linguagem.
Outra característica importante é o fato desta
filosofia valorizar a família da criança surda,
acreditando que cabe à família o papel de compartilhar
seus valores e significados, formando junto com a criança,
pela comunicação, sua subjetividade.
No Brasil, além da Língua Brasileira de Sinais
(LIBRAS), a comunicação total usa a datilologia
(alfabeto manual), o "cued- speech" (sinais manuais
que representam os sons do português), o português
sinalizado (língua artificial que utiliza o léxico
da língua de sinais como a estrutura sintática
do português e alguns sinais inventados, para representar
estruturas gramaticais do português que não existem
na língua de sinais) e o pidgin (simplificação
da gramática de duas línguas em contato). Por
exemplo, português e língua de sinais no Brasil.
A comunicação total não privilegia o
fato de esta língua ser natural e levar junto uma cultura
própria, então cria recursos artificiais para
facilitar a comunicação e educação
dos surdos, que podem provocar uma dificuldade de comunicação
entre surdos que dominam códigos diferentes e língua
de sinais.
3. Bilingüismo
O bilingüismo
tem como idéia básica que o surdo deve ser bilíngüe,
ou seja, deve ter como língua materna a língua
de sinais, que é considerada a língua natural
dos surdos e, como segunda língua, a língua
oficial de seu país.
A língua de sinais propiciará ao indivíduo
uma base para a aprendizagem de uma segunda língua,
a qual pode ser escrita ou oral, dependendo do modelo seguido.
Isto é, a criança é exposta à
Língua de Sinais por interlocutores surdos, ou ouvintes
que tenham proficiência em Língua de Sinais.
A língua oral ou escrita será trabalhada seguindo
os princípios de aprendizado de uma segunda língua.
Assim, as línguas de sinais são tanto o objetivo
como o facilitador do aprendizado em geral. São ainda,
línguas naturais e de modalidade gestual-visual e,
como tal, apresentam especificidades próprias devido
às restrições de ordem estrutural e a
fatores sócio- culturais. Além da função
comunicativa, as línguas naturais têm outra importante
função que é a de suporte lingüístico
para a estruturação do pensamento.
Os surdos apresentam um impedimento de ordem sensorial na
percepção das distinções fonêmicas
da fala, que prejudica a compreensão dos significados.
Em vista disso, criou-se a necessidade de um outro "meio"
para a realização de suas potencialidades lingüísticas.
O princípio fundamental do bilingüismo é
oferecer à criança um ambiente lingüístico,
no qual seus interlocutores se comuniquem com ela de uma forma
natural, da mesma forma como é feito com a criança
ouvinte através da língua oral. Assim, a criança
não apenas terá assegurada a aquisição
e o desenvolvimento da linguagem, como a integração
de um autoconceito positivo.
Segundo os bilingüistas, o surdo não precisa ter
uma vida semelhante ao do ouvinte, podendo aceitar e assumir
a sua surdez.
O conceito mais importante desta filosofia é que os
surdos formam uma comunidade, com cultura e língua
próprias. A noção de que o surdo deve
aprender, de qualquer forma, a modalidade oral da língua
para poder se aproximar ao máximo do padrão
de normalidade é rejeitada por esta filosofia. Isto
não quer dizer que a aprendizagem da língua
oral não seja importante para o surdo, ao contrário,
este aprendizado é desejado, mas não é
visto como o único objetivo educacional do surdo, ou
sequer como uma possibilidade de reduzir as diferenças
causadas pela surdez.
A proposta do bilingüismo é educacional, social
e cultural, independente do modo como se concebe a segunda
língua a ser adquirida pelo surdo.
O sistema social, que a escola bilíngüe dá
à criança surda, lhe fornece uma chance de se
ver a partir da "semelhança de" e não
da "impossibilidade de ser". A linguagem e a sociabilização
são elementos importantes para que a formação
inicial de sua identidade seja possível, e elas devem
estar acessíveis à criança surda, para
que a mesma tenha instrumentos para, posteriormente, adaptar-se
a um mundo, que não será tolerante com seu estigma.
Esta filosofia desempenha uma importante função
de suporte do pensamento e de estimulador do desenvolvimento
cognitivo e social.
Rocha - Coutinho (1986) diz: Um deficiente auditivo não
pode adquirir uma língua falada como língua
nativa, visto que ele não tem acesso a um sistema de
monitoria que lhe forneça um feedback constante para
a sua fala. O deficiente auditivo conta somente com expressões
faciais e movimentos corporais e não possui uma das
fontes mais rica de língua oral: monitorar sua própria
fala e elaborar sutilezas pela entonação, volume
de voz e hesitação.
A presença de surdos adultos apresenta grandes vantagens
dentro da proposta bilíngüe. Primeiro, a criança
tão logo tenha entrado na escola, é recebida
por um membro que pertença à sua comunidade
cultural, social e lingüística; assim ela começa
a ter oportunidade de criar a sua própria identidade.
Segundo, essa criança começa a adquirir a sua
língua natural. Tais vantagens são importantes
para o sucesso da proposta bilíngüe.
Assim, o bilingüismo seria o mais apropriado às
necessidades da pessoa surda, cuja potencialidade se habilita
a um desenvolvimento pleno da linguagem, contanto que haja
"input". Desse modo, os dados lingüísticos
que lhe servirão de "input" serão
transmitidos através de um canal gestual-visual, a
Língua de Sinais, já que sua audição
está danificada.
8. Relações
Familiares
O trabalho
de orientação e de aconselhamento aos pais ou
responsáveis pela criança deficiente auditiva
é fundamental e decisivo para o sucesso de uma proposta
educacional ou terapêutica.
Segundo Bevilacqua (1985), a família é o "agente
modificador da realidade" das crianças e os terapeutas
funcionam como "agentes de apoio".
É importante que as pessoas relacionadas com a criança
deficiente auditiva tenham conhecimento da área, persistência
e entusiasmo.
A ausência de respostas auditivas que o profissional
espera da criança, a lentidão do processo de
desenvolvimento em razão de reduções,
em qualidade e quantidade, para a construção
da linguagem oral, a confusão emocional dos pais, todos
esses fatores contribuirão para dificultar o acesso
da criança a uma necessária interação
auditiva, lingüística e social.
Segundo Cole (1992), quando os pais descobrem a deficiência
auditiva da criança torna-se rodeado de conflitos,
sendo assim, um momento muito delicado. Os sentimentos mais
observados nos pais, ao saberem da deficiência auditiva
são: negação, vulnerabilidade, ódio,
confusão e inadequação e destacam que
esses sentimentos passam por quatro estágios: negação,
resistência, afirmação e aceitação.
É comum aos pais o sentimento de culpa pela deficiência
auditiva dos filhos. A culpa gera neles uma superproteção
e uma dedicação exclusiva ao filho deficiente
em comparação aos demais membros da família,
o que pode gerar problemas familiares. Os irmãos sofrem
com o tumulto da família e tentam atrair a atenção
dos pais.
A superproteção faz com que a criança
não obtenha experiência em seu processo evolutivo.
Fica inseguro consigo mesmo e torna-se um adulto dependente.
Segundo Bevilacqua (1985), cabe à mãe proporcionar
o equilíbrio e a harmonia, estando atenta às
necessidades específicas do filho, sem deixar de ter
uma relação normal de mãe e filho.
Os irmãos merecem uma atenção especial,
uma vez que é comum se sentirem com culpa pela sua
normalidade, ou por terem raiva pelo problema do irmão.
Também sentem ciúmes em relação
à atenção especial que essa deficiência
requer dos pais e medo de assumir a responsabilidade pelo
irmão. Os pais devem incluir os irmãos nas atividades
que realizam com as crianças, mostrando-lhes o quanto
podem auxiliar na rotina diária e buscar o fortalecimento
de sua auto-estima.
A comunicação se estabelece e desenvolve-se
principalmente entre a família e a criança,
pois a troca entre pais e filhos ocorre em todos os momentos
da vida de ambos. Quem transfere grande parte das informações
de mundo para as crianças são os pais, pois
convivem com a criança desde o nascimento até
a adolescência, vida profissional e adulta.
A criança deficiente auditiva encontra dificuldades
no desenvolvimento do seu comportamento social, pois elas
não escutam o tom de voz que indica a variação
dos estados emocionais.
Ser social, é o indivíduo que, na companhia
de outros, identifica os seus interesses com os demais, que
tem um desejo intenso de estabelecer e de colaborar com os
seus semelhantes.
A socialização do surdo com demais surdos é
uma ponte para a ampliação de seu campo de interação
social, possibilitando mais facilmente, a sua integração
à comunidade como um todo e não apenas ao segmento
representado pelos ouvintes.
As línguas gestuais-visuais são a única
modalidade de língua que permite aos surdos desenvolver
o seu potencial lingüístico e cognitivo, oferecendo-lhes
uma possibilidade de libertação do real concreto
e de socialização que não apresentaria
defasagem em relação àquela dos ouvintes.
São o meio mais eficiente de integração
social do surdo.
A relação entre pais ouvintes e filhos surdos
é um aspecto de muita complexidade, pois a criança
surda não tem condições de assimilar
a língua de seus pais espontaneamente. Além
deste aspecto lingüístico, que por si só
acarreta grandes prejuízos ao desenvolvimento da pessoa
surda, há o aspecto social e cultural, pois o ser humano
necessita conviver e se identificar com os seus semelhantes.
Sendo o surdo um indivíduo bicultural, pertencente
à comunidade surda e à ouvinte é necessário
que tenha acesso às duas línguas, a oral e a
língua de sinais, pois só assim se alcançará
o desenvolvimento pleno do surdo como ser bicultural.
9. Cognição,
Linguagem e Aprendizagem
Estudar a
cognição humana, os poderes mentais do ser humano
é um tema que tem chamado atenção de
profissionais de diferentes áreas do conhecimento.
Psicólogos, pedagogos, lingüístas, fonoaudiólogos
junto com cientistas da computação não
só tem estudado o raciocínio, a fala, o diálogo
e a aprendizagem, como vêem tentando construir máquinas
que possam raciocinar, falar, conversar e aprender, com a
finalidade de poder analisar as relações da
cognição, linguagem e aprendizagem.
Nosso objetivo é esclarecer e refletir estas questões
no estudo da surdez. Claro que seria muito difícil
em pouco tempo fazer um histórico das teorias passadas
e atuais sobre as habilidades cognitivas do surdo, entretanto
tentaremos sintetizar alguns aspectos relevantes e tecer considerações
sobre as implicações deste tema na educação
do surdo.
Com base em estudos de Vygotsky, Piaget e Bruner, pesquisadores
da atualidade Marchesi (1987), Massone (1993), Stokoe (1960),
Volterra (1981) desenvolveram investigações
que demonstraram que pessoas deficientes auditivas apresentam
capacidade cognitiva equivalente à dos ouvintes e,
que são pessoas absolutamente normais, sob o ponto
de vista psicológico. Mas devido à falta de
informação, é comum que sejam tratados
ou confundidos com deficientes mentais ou autistas. Infelizmente
as pessoas surdas são marginalizadas, segregadas, tornando-se
muitas vezes deprimidas e inseguras, pela incapacidade da
sociedade em lhes dar atenção e respeito.
A comunicação humana é diferente e muito
superior a qualquer outra comunicação conhecida.
O homem se exprime através da fala, estrutura seu pensamento,
comunica-se com os outros, traduz o que sente e o que quer
através da linguagem. É a linguagem que marca
o ingresso do homem na cultura, construindo-o como sujeito
e capaz de produzir transformações.
As pessoas portadoras de deficiência auditiva apresentam
dificuldades no uso da linguagem oral e sérias deficiências
no que se refere ao domínio desta estrutura lingüística.
Entretanto podem ser fluentes ao expressarem seus sentimentos
e emoções mais profundos, na Língua de
Sinais, que é a língua natural das pessoas surdas.
MYKLEBUST apud WOOD (1990), sugeriu que a vida cognitiva do
surdo e do ouvinte eram muito diferentes. Crianças
surdas sendo excluídas do mundo do som estariam mais
centradas no "self" e nos efeitos de suas próprias
atividades. Estes e outros achados levaram o autor a concluir
que a surdez cria uma mudança de inspiração
biológica na orientação do indivíduo
em relação ao mundo e que as habilidades cognitivas
do surdo são mais concretas e, portanto, menos abstratas
do que as do ouvinte.
FURTH apud WOOD (1990), discordou desta idéia e, fundamentando-se
em Piaget, defendeu que as capacidades cognitivas dos surdos
são as mesmas que a das crianças ouvintes. Para
este autor, a linguagem não pode ser a base para o
pensamento, pois segundo Piaget o desenvolvimento cognitivo
precede a compreensão lingüística. Para
Furth a criança surda, mesmo em dificuldade com a linguagem,
desenvolve a mesma habilidade cognitiva não-verbal
que seus pares ouvintes.
As investigações de Furth nos deixaram questionamentos,
já que a criança surda apesar de poder resolver
os mesmos tipos de problemas lógicos e conceitos que
o ouvinte, em geral há uma diferença na época
em que isto acontece, chegando a ter um atraso de dois anos
em relação aos ouvintes, inclusive em algumas
tarefas a diferença é bem maior. A explicação
de Furth é que o surdo tem um déficit experimental.
São poucas as investigações sobre a comunicação
entre adultos ouvintes e crianças surdas, entretanto,
há evidências que o principal problema entre
a comunicação entre ouvintes e surdos é
controle demasiado. SCHLESINGER e MEADOW apud TRIADÓ
(1982), declararam que filhos surdos de pais ouvintes receberam
mais ordens de suas mães. WOOD, GRIFFITHS and HOWARTH
apud TRIADÓ (1986), demonstraram que em sala de aula
também aparece claramente este "over control".
Este demasiado controle por parte do adulto, resulta em pequena
iniciativa na criança e pouca expressividade (seja
em sinais, oral ou em ambos).
Segundo Wood, os efeitos da surdez na cognição,
não são conseqüências diretas inevitáveis
da condição da surdez, mas efeitos secundários
que surgem do impacto da surdez na comunicação
de pessoas ouvintes, que tem papel importante no desenvolvimento
da criança surda.
Outro problema é a atenção dividida na
comunicação com os surdos. Se desejamos dizer
ou sinalizar algo para a criança ela deve desviar seu
olhar do que está fazendo, para prestar atenção
aos lábios ou às mãos.
Estas razões explicam os déficits de experiência
ou atraso na cognição dos surdos. São
muitas as implicações educacionais que resultam
destes argumentos. A mais importante nos parece é que
não basta estudar a surdez e seus efeitos na aprendizagem
e cognição, simplesmente fazendo testes com
os surdos, concordamos com David Wood, que o melhor é
examinar as práticas de como as pessoas ouvintes tentam
educar a criança surda, examinar a qualidade da comunicação
entre adulto ouvinte e criança surda.
Sem saber quais os efeitos que a surdez causa nos pais, nos
terapeutas e nos educadores não compreenderemos realmente
a vida cognitiva dos surdos e qual o papel do ouvinte nesta
formação.