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.:: RELAÇÕES ENTRE PROCESSOS COGNITIVOS E LINGÜÍSTICOS: TERAPIA FONOAUDIOLÓGICA PARA ADOLESCENTE SURDO, DENTRO DE UMA VISÃO SÓCIO-ANTROPOLÓGICA

Autora: Mila Weissbluth Frejman
Data do artigo: junho de 1998
CRFa 6813
Especialista em Reabilitação em Fonoaudiologia - Linguagem.

EVOLUÇÃO

Durante o período de atendimento, verificou-se que A. G. S. apresentou um aproveitamento significativo nas atividades realizadas. Em todos os momentos se mostrou participativo e motivado para o trabalho. Sua adaptação foi rápida, mantendo um bom vínculo com a terapeuta.

Observou-se uma evolução significativa na linguagem oral, na percepção auditiva e na mobilidade dos lábios. Demonstrou, também, um aproveitamento nas atividades de leitura e escrita, assim como nas aprendizagens relacionadas aos aspectos cognitivos.

A. G. S. tem demonstrado muito interesse em se comunicar, tentando expressar, através de vocalizações e gestos, as situações vivenciadas por ele dentro e fora da terapia. Estas reações do paciente indicam que ele se esforça e se interessa bastante no que diz respeito à linguagem oral. Além disso, ele não produzia nenhum fonema, de maneira clara, antes de iniciar o atendimento fonoaudiológico e até o presente momento, já foram instalados os seguintes fonemas: /a/, /e/, /i/, /o/, /u/, /p/, /t/, /l/, /f/, /v/, /m/, /d/ e /s/.

O paciente está utilizando juntamente com sua língua materna (Língua de Sinais), a língua oral para palavras e expressões verbais de seu conhecimento. A estrutura sintática das frases da linguagem oral padrão sofre uma alteração quando é transmitida para a Língua de Sinais. Entretanto na escrita A. G. S. já está usando palavras de ligação, adjetivos, artigos definidos e indefinidos.

Na evolução da percepção auditiva, notou-se que, a partir do trabalho fonoterápico realizado, A. G. S. apresentou uma melhora significativa. Quanto às atividades relacionadas à atenção auditiva, o paciente responde corretamente ao condicionamento auditivo com apoio visual. Está mais atento aos exercícios de presença e ausência de sons, conseguindo discriminar sons graves.

Quanto à mobilidade dos lábios e da língua, A. G. S. consegue vibrar os lábios mas ainda não consegue assobiar e nem estalar e vibrar a língua.

Quanto ao uso do AASI, A. G. S. está bem adaptado, permanecendo a maior parte do tempo com o mesmo, tanto em sala de aula quanto no atendimento.

Nossa principal preocupação durante todo o processo terapêutico foi de desenvolver estratégias e procedimentos que favorecessem as relações entre os processos cognitivos e lingüísticos de A. G. S.

Inicialmente, foi difícil nossa comunicação e, muitas vezes, pensamos que A.G. S. apresentava um déficit cognitivo, pois não conseguia dar respostas adequadas para solicitações com pequeno grau de complexidade.

Então, decidimos fazer um curso de Língua de Sinais e iniciamos uma comunicação efetivamente bilíngüe, utilizando ambas as línguas. Deste momento em diante, terapeuta e paciente passaram a desempenhar duplo papel, pois ambos eram mais hábeis em uma das línguas. Constatamos então que o déficit de A. G. S. era somente de ordem lingüística e não cognitiva.

Superada esta dificuldade, iniciamos nosso planejamento terapêutico, desenvolvendo tarefas que auxiliassem as relações entre os processos cognitivos e lingüísticos; sendo assim, escolhemos trabalhar com atividades de classificação, de categorização, de associações, de descrição, de definição e de introjeção de conceitos mentais.

Em relação à classificação trabalhamos com classe de palavras (substantivos, adjetivos, verbos, preposições, conjunções e advérbios). No início, o vocabulário de A. G. S. era formado quase que exclusivamente por substantivos, alguns adjetivos e poucos verbos (tudo demonstrado pela expressão gráfica, já que A. G. S. não oralizava nenhum som). A partir da aplicação de exercícios escritos de copiar, completar, de compor e de jogos ortográficos, A. G. S. foi incorporando e usando outras classes de palavras. Atualmente utiliza conetivos, advérbios, adjetivos e artigos definidos e indefinidos na linguagem escrita. Aumentou significativamente o número de verbos e adjetivos nos textos que produz.

Em relação à categorização, trabalhamos com categorias de: animais (domésticos, selvagens, mamíferos e aves); alimentos (frutas, verduras, legumes e cereais); utensílios domésticos; brinquedos; meios de transporte (aquáticos, terrestres e aéreos). Atualmente A. G. S. já domina o vocabulário das principais categorias e tem consciência de categorização. Entretanto necessita desenvolver um maior número de habilidades lógicas para o domínio completo desta área.

Quanto às associações, nosso trabalho foi centrado em antônimos e sinônimos. O vocabulário de A. G. S. era demasiado pobre em língua portuguesa. Houve um aumento significativo neste sentido, tanto nos aspectos semânticos, quanto nos sintáticos.

Em relação à descrição das características dos objetivos, o desempenho de A. G. S. melhorou consideravelmente. Já faz descrições escritas, considerando cor, forma, tamanho, substância, uso e função. Esse fato também pode ser constatado em relação a definições de objetos. No que diz respeito a definições de palavras abstratas, A. G. S. ainda demonstra dificuldades.

Os conceitos mentais Quem?, Quando?, Onde?, O quê?, Como? e Por quê? Foram trabalhados em diferentes contextos, tanto de forma oral como escrita. Em relação à compreensão, A. G. S. não apresenta nenhuma dificuldade. Melhorou seu desempenho em relação à leitura orofacial destas perguntas e já domina sem dificuldades estes conceitos mentais.

Numa entrevista final realizada com o paciente, este referiu ter notado grandes progressos em relação ao desenvolvimento da comunicação oral; mostrando-se satisfeito em relação à fonoterapia durante o decorrer do processo terapêutico, sendo isso demonstrado através do questionário final elaborado pela terapeuta. (Anexo 9).


Index | Introdução | Dados de Identificação do Paciente
História Clínica do Paciente | Avaliação | Hipótese Diagnóstica | Etiologia
Fundamentação Teórica | Planejamento Terapêutico
Tratamento Fonoaudiológico | Evolução
Prognóstico | Conclusão | Bibliografia

 

 

           
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