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RESPIRAÇÃO
BUCAL
Autora:
Mila Weissbluth
Frejman
Data do artigo: Outubro/2000
O homem foi programado
para ter a respiração nasal. Quando isso não
ocorre, substitui o padrão correto de respiração
por um padrão de suplência bucal ou misto. A respiração
bucal é muito rara; o comum é o paciente não
conseguir respirar livremente pelo nariz.
O nariz é
uma estrutura complexa e com várias funções.
Aprendemos desde cedo as funções de olfação
filtração e condicionamento do ar, seja aquecendo
e umedecendo ou mantendo interalação com outras
estruturas, tais como seios para-nasais, canal lacrimal, ouvido
médio e amígdalas faríngeas.
Caso o obstáculo
à respiração seja temporário, a
criança poderá recuperar-se sem que alterações
se efetivem. Caso a alteração se prolongue, alterações
osteomusculares podem desenvolver-se.
Nos casos de
rinite alérgica, há o edema da mucosa dos cornetos
nasais, que provoca vedamento nos orifícios dos seios
da face, interferindo na aeração e permitindo
deformidades na face.
Com a permanência
da alteração respiratória, agrave-se toda
a mecânica da respiração, chegando à
alterações do equilíbrio das forças
musculares torácicas e posturais. Como os ombros comprimem
o tórax, dificultam o processo respiratório, levando
a afundamentos que diminuem o espaço interno da caixa
torácica.
Dessa forma,
temos algumas características do respirador bucal: assimetria
torácica; depressão submamária; ombros
antero-pulsionados; escapulas salientes; hipersifose; hiperlordose;
escoliose e rotação do tronco.
Toda má
formação óssea maxilar ou manipular leva
a problemas respiratórios, que, por sua vez, sendo uma
alteração estrutural, causarão uma alteração
funcional.
A disfunção
muscular tem sido responsabilizada pelas alterações
morfofuncionais que se apresentam em decorrência da adaptabilidade
entre forma e função.
A postura labial
é definida por um padrão de hipofuncionalidade
tanto no lábio superior quanto no inferior, sendo que
o lábio superior apresenta-se encurtado e o inferior
evertido.
São compostos
de tecidos moles e estão envolvidos no fechamento, arredondamento,
protusao e compressão, entre outros. São as mudanças
de posição feitas pelos lábios que determinam
a produção dos movimentos articulatórios,
por isso, indispensáveis a fala. Portanto, uma criança
respiradora bucal pode apresentar alteração de
fala, em decorrência de sua hipotonia de lábios
e língua. Em função das reduzidas proporções
das aberturas nasais e de obstruções das vias
aéreas superiores, pela presença de adenóides
hipertróficas, rinites, hipertrofia de cornetos, desvio
de septo, pólipos, o organismo desencadeará um
padrão de respiração bucal.
Também
pode haver processos alérgicos, que estão muitas
vezes associados à hipertrofia de amígdalas e
das mucosas nasais, gerando uma alteração na deglutição
e na postura de língua, em repouso ou em ação.
O respirador
bucal pode apresentar as seguintes características:
- Alteração
dos órgãos fonoarticulatorios (hipotrofia, hipotonia
e hipofunção dos músculos elevadores da
mandíbula, alteração de tônus com
hipofunção dos lábios e bochechas, lábio
superior retraído ou curto, e inferior evertido ou interposto
entre os dentes, lábios secos e rachados com alteração
de cor, gengivas hipertrofiadas com alteração
de cor e freqüentes sangramentos);
- Língua
com postura anormal posicionada na arcada inferior ou entre
os dentes, deixando de exercer sua função modeladora
do palato e também com tonicidade prejudicada;
- Alterações
corporais (deformidades toráxicas, musculatura abdominal,
olheiras com assimetria de posicionamento dos olhos, olhar cansado,
cabeça mal posicionada em relação ao pescoço,
trazendo alterações para a coluna no intuito de
compensar o mal posicionamento, ombros caídos para frente
comprimindo o tórax, assimetria facial, indivíduo
muito magro e as vezes obeso, e sem cor);
- Alterações
das funções orais ( mastigação ineficiente
levando a problemas digestivos e engasgos pela incoordenação
da respiração com a mastigação,
deglutição atípica com ruído, projeção
anterior de língua, contração exagerada
de orbicular, movimentos compensatórios de cabeça,
fala imprecisa, trancada, com excesso de saliva, sem sonorização
pelas otites freqüentes, com alto índice de ceceio
anterior ou lateral e voz rouca ou anasalada);
- Hipertrofias
de adenóides (tem seu desenvolvimento desde o período
intra uterino);
Linder – Aronson
(1961), percebeu que as crianças com adenóides
desenvolvidas costumavam manter a língua em posição
inferior na boca. Encontrou a relação entre adenóides
hipertrofiadas e arco dental superior estreito, mordida cruzada
e tendência a essa forma de mordida, e retro – inclinação
dos incisivos superiores e inferiores. Linder – Aronson atribuiu
a retro – inclinação dos incisivos superiores,
à influência dos músculos do lábio
superior quando a boca estava aberta.
- Estrutura facial
alterada. (Dolicofacial ou dolicocefálico ou face longa
e estreita: flacidez de toda a musculatura da face);
- Estreitamento
da arcada superior gerando uma má oclusão dentária
e espaço insuficiente para a língua (sendo a alteração
mais comum em relação a dentição
a classe II, divisão I e II de Angle, "over jet",
mordida cruzada ou aberta e classe III), e alterações
do palato e da narina, desvio de septo.
Um outro estudo
realizado por Nanda e seus colegas (1972) investigou um grupo
de 2.500 crianças de dois a seis anos de idade na
cidade de Lucknow, na Índia. Foi encontrada respiração
bucal em 27,3 % dessas crianças. Não foi relatada
nenhuma associação entre a presença de
deglutição atípica e a respiração
bucal, embora as crianças que apresentaram ambos os hábitos
demostrassem problemas de má oclusão de Classe
I em menor número e maior incidência da Classe
III.
- Olfato prejudicado,
também acompanhado pela diminuição gustativa,
halitose e redução do apetite;
- Mau funcionamento
da tuba auditiva (caracteriza-se por apresentar a membrana timpanica
opacificada e retraída, em conseqüência da
ventilação nasal deficiente);
- Diminuição
da acuidade auditiva, repetitivas otites médias serosas,
membrana timpânica alterada, surdez;
- Coração
super excitado, batimentos arrítimicos, cardiopatias
várias (principalmente em crianças com excesso
de peso, pois não tem ânimo ou resistência
para fazer esportes, a não ser natação,
quando reforça seu padrão respiratório),
lentidão do aparelho digestivo, desordens intestinais,
tosse amigdalite repetitiva, anemia, rinofaringites crônicas,
cefaléias, problemas pulmonares, traquio-bronquites,
bronquiectasias, crises asmatiformes, sinusite;
- Má oxigenação
cerebral ocasionando dificuldade de atenção e
concentração e com isso problemas de aprendizagem.
Com relação
ao tipo facial do respirador bucal, podemos citar algumas características:
altura facial aumentada com provável mordida aberta esquelética,
nariz verticalmente mais longo e com maior protusão,
ponte nasal e raiz do nariz com tendência a ser muito
mais altos, arco maxilar e palato duro mais longos, estreitos
e profundos, ângulo mandibular (goníaco) aberto,
base posterior do crânio mais curta e arco dentário
longo e estreito, musculatura em geral estriada e hipotônica,
lábio superior em hipofuncao e com hipertonia do mesmo,
hipertonia de mentalis, língua mais anteriorizada, mastigação
ineficiente, deglutição com interposição
de língua e participação ativa da musculatura
perioral, enfraquecimento dos fonemas plosivos e de /k/ e /g/
pela distância entre o dorso da língua e o palato.
Ao nível
de crescimento horizontal, citaremos a classe II (divisai I
e II de Angle) e classe III.
Na classe II,
os primeiros molares inferiores estão distalizados em
relação aos primeiros molares superiores. Em geral,
o arco mandibular é menor em relação ao
maxilar. Pode haver mandíbula diminuída ou maxila
aumentada, ou ambos com alteração de tamanho e
discrepância entre eles. A maxila, em geral, é
longa e estreita.
Na classe II
- divisão I, encontramos o lábio superior hipofuncionante
e às vezes hipotônico, lábio inferior retrovertido,
mentalis hipertônico, deglutição com interposição
do lábio inferior atrás dos dentes superiores,
tendência a anteriorizacao de mandíbula para aumentar
o espaço intra - oral nas funções de fala
e deglutição, e se houver sucção
do lábio inferior, esse pode ficar hipertônico.
Em relação
à classe II - divisão II, encontramos uma musculatura
labial normal ou hipertonicidade de lábio superior, posicionamento
inadequado em fonemas bilabiais, onde a oclusão labial
é substituída pela oclusão de lábio
inferior com incisivos superiores, sibilantes com deslize mandibular
anterior ou lateral e projeção da língua
sobre os rebordos da arcada.
Na classe III
os primeiros molares inferiores relacionam-se mesialmente em
relação aos superiores, o arco mandibular maior
em relação ao maxilar, pois a mandíbula
cresceu muito ou a maxila cresceu pouco ou ambos, língua
hipotônica, larga e no assoalho da boca.
Na mastigação,
utiliza o dorso da língua esmagando o alimento contra
o palato, realizando-se mais verticalmente e sem lateralização
de mandíbula, a deglutição realiza-se com
pressão atípica do dorso da língua e com
participação da musculatura perioral, há
anteriorização de língua, e movimentos
associados de cabeça.
Holik (1958)
constatou que 85% de um grupo de crianças que respiravam
pela boca apresentavam subdesenvolvimento da musculatura oral.
Wotson e associados (1968) divulgaram uma pesquisa segundo a
qual as crianças com face longa e estreita, ou com palato
ogival tinham uma resistência maior à respiração
nasal do que aquelas de face curta e larga, ou palato largo
e baixo. Hanson e Cohen (1973) identificaram uma relação
entre a presença de respiração bucal e
a permanência ou desenvolvimento de deglutição
atípica no grupo por eles pesquisado.
Temos como classificação
dos respiradores bucais:
Respirador bucal
orgânico: apresenta obstáculos mecânicos
que podem ser nasais, retronasais e bucais. São diagnosticados
através da clínica e de radiografia. Temos como
exemplos: estenose nasal a atresia maxilar, retrognatismo, alteração
de tônus, postura e tamanho de língua, entre outros.
Respirador bucal
funcional: esse tipo de respirador bucal geralmente já
foi submetido a tonsilectomia e também amigdalectomia,
mas permanecem respirando pela boca, mesmo tendo o trato respiratório
superior permeável.
Apresentam quadros
de catarros repetitivos, características das rinites
alérgicas.
Respirador bucal
impotente funcional: respiradores bucais que desencadeiam quadro
alterado de respiração por disfunção
neurológica. Muitos desses quadros estão acompanhados
de alterações psiquiátricas.
Citaremos abaixo
as conseqüências da respiração bucal:
- Rendimento
físico e escolar diminuídos por dormirem mal;
incoordenação global;
- Impaciência,
irritabilidade, inquietude, ansiedade, medo;
- Relacionamento
social, familiar e afetivo reduzidos;
- Cansaço,
depressão, impulsividade, desânimo;
- Crescimento
físico diminuído decorrente da má alimentação;
- Alteração
da fala, provenientes das deformidades dos dentes e da face;
- Otites acompanhada
de um quadro de hipertrofia das adenóides, podendo levar
a diminuição da audição;
- Sono agitado
e pesadelos;
- Não
dorme na posição que quer, mas sim na que pode
(decúbito ventral ou de lado);
- Sono durante
o dia;
- Enurese noturna
e cai da cama;
- Suga o polegar,
chupetas ou rói unha;
- Ronco noturno
e excesso de baba no travesseiro;
- Expressão
facial vaga;
- Redução
do apetite, alterações gástricas, sede
constante, engasgos, palidez;
Index
| Resumo | Summary
| Introdução
| Etiologias | Respiração
Bucal
Prevenção|
Tratamento | Conclusão
| Referências Bibliográficas