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.:: Papilomatose: Percepções de um Leigo
Manfredo Rosa (Engenheiro e Sociólogo)

Como eu sempre gostei de escrever um pouco sobre minhas experiências de vida, registro também algumas percepções sobre esse problema de saúde vocal que tem me envolvido nos últimos cinco anos. Espero que possa embutir alguma contribuição, pois que, muitas vezes, quem "está de fora" pode enxergar coisas diferentes.
O HPV, como o próprio nome diz, é um vírus. E, assim sendo, ele é deveras singular, para não dizer, até mesmo fenomenal: não existem recursos na ciência moderna, com todos os seus maravilhosos avanços, que consigam elimina-lo.
A física, que hoje já é quântica, ainda não conseguiu disponibilizar qualquer grandeza capaz de por fim à presença do HPV no organismo humano. Nem todas as variegadas emissões, com tanta utilidade para milhares de outras aplicações, servem de alguma coisa contra os vírus. Micro ondas, infravermelhos, ultravioletas, raios x, ultra-som, laser, nada consegue atingi-lo. Não obstante o largo espectro já disponibilizado pela ciência para uso do homem, nenhum dos comprimentos ainda conseguiu atingir o pequeno ente, assim, tão robusto. Nas faixas mais sensíveis das vibrações, desde a criogenia até o intenso calor, tampouco se conseguiu alguma maneira de atingir o estranho "corpo". Não obstante tanta pesquisa, ainda não se conseguiu descobrir uma brecha sequer, um calcanhar de Aquiles do vírus.
A química, por seu turno, não logrou melhor êxito. Com todos os novos e complexos compostos disponibilizados pela tecnologia moderna, com tantas substâncias sofisticadas, polímeros, ácidos, acetis, equilibrados ou não tautomeramente, hipos, ortos ou paras, nada, mas nada mesmo conseguiu algum resultado. Produtos sofisticadíssimos, colocados no mercado internacional à bilhões de dólares a tonelada, à prova de qualquer genérico, não são suficientes. Os cerca de 20.000 medicamentos disponibilizados nas prateleiras das farmácias brasileiras, nenhum ao menos sequer, serve para lidar com o minúsculo ser, que é então potente, sempre novo, sempre antigo.
Do ponto de vista biológico então, essa constatação passa a ser mesmo deveras surpreendente. O tal de vírus situa-se em posição de exceção, privilegiada, usufruída por muito poucos seres vivos: ele não tem predador. Não existe nenhum outro animal, bicho pequeno ou grande, do qual se possa valer como arma de combate. Poder-se-ia ao menos contar com um outro vírus, que injetado no sangue, se alimentasse do HPV, o que nos proporcionaria a chance de escolher qual a doença da qual desejaríamos padecer. Não, não há tampouco essa alternativa.
Diante dessa inevitável e desconsoladora constatação, vamos tratar agora da presença do HPV no homem, mais especificamente, quando alojado na mucosa da laringe. Quer dizer, uma vez sendo impossível elimina-lo, tecemos abaixo algumas considerações sobre o tratamento e/ou convivência, a partir da minha experiência pessoal com o problema.
Uma das teorias mais aceitas sobre presença de papilomas nas pregas vocais propõe que as lesões são devidas, ou facilitadas, pela agressão das vias aéreas superiores, inclusive laringe, pelos miasmas do refluxo gastro-esofágico.
Olhado sobre esse ponto de vista, e aplicando o mesmo raciocínio disponível em engenharia sobre controle de ruído, pode-se dizer que deveriam existir três métodos básicos de controle do problema, e que correspondem ao local onde se procura impedir, ou minimizar, o processo de agressão. São eles:

 

NA FONTE. Nessa linha de raciocínio, a prescrição médica básica para minimização do problema é o da administração dos específicos conhecidos como Omeprazol, que têm por princípio ativo a redução da atividade gástrica no aparelho digestivo. Evita-se assim, na origem, que sejam formados elementos excessivos agressores da mucosa laríngea. O grande inconveniente é o de sempre, de todos os medicamentos: as contra-indicações, principalmente após o uso prolongado. Fora o problema de custo. Até o ano de 2000, um comprimido de Omeprazol, de 20 mg, custava US$ 0,50. Agora, com a vinda dos genéricos, passou a valer US$ 1,00. Assim, para a prescrição de 40 mg por dia, o custo mensal vai para US$ 60,00. Pode-se comprar o mesmo produto manipulado, baixando sensivelmente o preço para cerca de US$ 0,30 o comprimido, mas nem sempre funciona. Já o adquiri em farmácias que, depois de usado, surtiu o mesmo efeito que se tivesse amarrado um biscoito de polvilho na cintura. A ingestão de antiácidos e mesmo água, também pode minimizar a acidez mas, da mesma maneira, incluem efeitos colaterais. O refluxo pode ser causado pela presença de hérnia de hiato ou má formação anatômica. Emagrecimento e dieta, ou o tratamento cirúrgico, em casos mais extremos, podem resolver o problema.

NO PERCURSO, que envolveria todas as medida que impeçam que a agressão chegue até às pregas vocais, favorecendo o ataque do HPV. Nesse caso, poder-se-ia pensar na disponibilização de tampões (tipo OB) que seriam utilizados de uma a duas horas após cada refeição. Não há referência conhecida sobre a adoção desse método ou de apetrecho similar, mas, certamente, também deve incluir as suas contra-indicações, muito embora contaria com o grande conveniente de dispensar o uso do Omeprazol. Ou seja, como o caminho está interrompido, a acidez estomacal deixa de ser importante. Nessa ordem de providências inclui-se a de elevar a cabeceira da cama para que a posição do corpo, ao dormir, conte com a gravidade para dificultar a suspensão de ácidos. Também é citada aqui a ingestão de água, permanentemente, em pequenos goles, durante todo o dia, funcionando como lavagem do esôfago, antes que os refluxos de fel cheguem até à laringe.

 

NO DESTINO. Nessa classe de solução encontrar-se-iam apetrechos ou produtos que revestissem a mucosa da laringe, protegendo-a do ataque, da agressão por compostos agressivos. Surge daí a idéia do uso de algum tipo de "spray" contendo substância alcalina, adstringente, umectante, aderente, assimilável pelo organismo após umas duas horas. Seria aplicado em seguida às refeições e ao deitar. Também não conhecemos registro de utilização desse tipo de substância, mas não deve ser difícil para a química disponibilizar um sintético qualquer que polimerisasse tão logo em contato com o oxigênio do ar e, ao mesmo tempo, formasse uma camada tênue e flexível bastante para não perturbar as características de mobilidade, tanto da mucosa como das pregas vocais. Sprays homeopáticos, de romã ou própolis, receitados como auxiliares no tratamento de afecções das vias aéreas superiores, parecem conter algumas dessas propriedades citadas, mas, ao que consta, falta reconhecimento de constatação científica efetiva. Tanto assim que a medicina convencional, alopática, não os prescreve normalmente. Gargarejos e nebulizações se enquadram nessa ordem de providências pela função de limpeza que cumprem, mas não são muito eficientes dada a pouca durabilidade da proteção. Seriam necessárias, pelo menos, umas dez aplicações por dia, o que é muito difícil para quem trabalha e/ou cuja ocupação se dá em locais que não favorecem a adoção do preceito. Além disto, todo o período do sono fica a descoberto e, assim, durante sete ou oito horas a aplicação não seria feita, abandonando a área à agressão.

 

A partir das considerações feitas acima, surge imediatamente a idéia da associação das possíveis vantagens dos três vetores. Atacar o problema por todos os lados aumentaria a garantia da não presença de acidez na mucosa. Isto pode ser altamente conveniente, não somente pela efetividade citada, como, também, pela possibilidade de se interromper momentânea e alternadamente cada um dos três, de maneira a propiciar uma pausa nos problemas dos efeitos colaterais, físicos ou imateriais, de cada um deles.
É interessante observar ainda que, convenhamos, quem, como eu, se vale de todos eles para enfrentar o problema, torna-se uma pessoa muito estranha. Tomar a última refeição, um pequeno lanche, as quatro da tarde, acordar a mulher com gargarejos ruidosos, fazer nebulização com a temperatura ambiente próxima de quarenta graus, dormir quase sentado no sofá, não poder comer chocolate (o maior dos sacrifícios), mastigar "ruminantemente" a comida etc. ... bem, a gente acostuma. Fora as cirurgias a laser para retirar as lesões, uma vez a cada três anos.
As soluções acima citadas, segundo a minha experiência, poderiam ser, todas elas, classificadas como paliativas, provisórias. Mais importante tem sido avaliar os hábitos alimentares: o que eu ingiro, a forma como me alimento, qual o tempo que reservo para as refeições, como mastigo, os horários de alimentação (dormir com estômago mais vazio), e aspectos similares. Fumo e bebida devem ser considerados como fatores preponderantes. Refrigerantes, chocolate, café, alimentos condimentados ou ácidos complementam a lista. A orientação médica deve ser bastante clara e precisa nesse aspecto. Ou o paciente segue rigorosa e disciplinadamente a prescrição, tentando corrigir-se, ou será muito difícil debelar o problema.
Contudo, considero ainda que, mais fundamentalmente, é preciso investigar componentes psicológicas associadas. A má digestão, ou a acidez excessiva podem ser resultado de ansiedade, impaciência, angústia e assemelhados, direta ou indiretamente ligados à forma de relacionamento com o emprego, os colegas de trabalho, a situação sócio econômica (principalmente a da conta bancária), problemas com a família (destacadamente com os filhos, preocupação com o futuro da prole nesse Brasil de tanta incerteza, de instabilidade político-social-econômica, não embora o discurso oficial diga ao contrário) etc.
Desta maneira, a terapia, individual ou em grupo, seguida de disciplina adequada, devem levar a resultados mais definitivos, resolvendo o problema na verdadeira origem, eliminando a causa, ainda que mais a longo prazo, dispensando, definitivamente, o uso permanente de medicamentos e eliminando comportamentos exóticos.

 

           
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