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.:: A PERCEPÇÃO DIFERENCIADA DO BARULHO

Autora: Fga: Cláudia Ribeiro Martines
CRFa 6413-8 / 2ª Região
Data do artigo: Dezembro/1999

DISCUSSÃO TEÓRICA

Oriundo do trânsito intenso, da localização inadequada de indústrias, aeroportos, ferrovias, dos locais de trabalho, dos eletrodomésticos e de atividades de lazer, o ruído torna-se um dos mais importantes fatores para o desencadeamento do estresse.

Por estresse entende-se a ação de agentes externos ou internos, de origem física, química, biológica ou mecânica que tenta romper o equilíbrio orgânico. Pode-se manifestar sobre a forma de alterações emocionais e/ou orgânicas, com efeitos auditivos e não-auditivos. Os efeitos auditivos do ruído estão divididos em três tipos (Oliveira, 1997):

  • Trauma Acústico: decorrente de uma única exposição ao ruído muito intenso (explosão, martelada, tiro de arma de fogo). O barulho agride violentamente estruturas sensoriais da orelha média e da orelha interna, extrapolando seus limites fisiológicos resultando, em alguns casos, em perfuração da membrana timpânica, desarticulação da cadeia ossicular, e do Órgão de Corti.

  • Mudança Temporária do Limiar Auditivo: ocorre a fadiga das estruturas sensoriais, mas tem a vantagem da recuperação do limiar após cessada a exposição (geralmente entre 2 e 14 horas).

  • Mudança Permanente do Limiar Auditivo (ou Perda Auditiva Induzida por Ruído): são alterações do tipo neurossensorial em que a faixa de freqüência mais atingida está entre 3 e 6KHz, de caráter irreversível, instala-se de maneira progressiva e gradual, geralmente bilateral.

Os principais sintomas da PAIR, segundo Seligman (1997), são: o zumbido uni ou bilateral; a dificuldade na compreensão da fala à medida que ocorre o avanço do déficit para as freqüências mais baixas; dores de ouvido mediante exposição a sons intensos (algiacusia) e sensação de plenitude auricular.

Conforme citaram Hetú (1990) e Oliveira (1997), o ruído provoca além de alterações de ordem auditiva, efeitos colaterais em todo o organismo. Dentre eles destaca-se a elevação da pressão arterial (sistólica ou diastólica), conseqüência de alterações provocadas no sistema circulatório, uma vez que a exposição, mesmo que rápida, a níveis fortes de barulho (de 10 a 20 minutos) pode provocar vasodilatação dos vasos mais internos, resultando na diminuição do fluxo sangüíneo. Assim, devido a alterações na quantidade de sangue bombeado pelo coração, pode haver aumento nos batimentos, com irregularidade do ritmo cardíaco. Em um primeiro momento esse processo se dá de forma reflexa e involuntária, voltando ao normal após terminada a exposição, mas essas desordens podem agravar-se, tornando-se crônicas caso a exposição ao ruído seja regular e por tempo prolongado. Nesse caso o indivíduo pode tornar-se hipertenso, desenvolvendo sintomas dos mais leves como edema das extremidades e cansaço, até os mais graves como o derrame e a morte súbita.

Assim como o aparelho circulatório, o aparelho digestivo também está sujeito a alterações mediante exposição contínua às fortes intensidades de pressão sonora, dentre as quais destaca-se a desordem dos movimentos peristálticos, responsáveis pela condução do bolo alimentar, refletindo em sinais como a prisão de ventre, cólicas, diarréia, gastrite, úlceras gástricas ou duodenais.

Distúrbios hormonais podem ser desencadeados pela ação nociva do barulho. A produção desordenada de hormônios ocorre devido a hipo ou a hiperestimulação do hipotálamo, estrutura cerebral responsável pela produção e regulagem dos hormônios nas glândulas endócrinas. O desarranjo hormonal pode levar a efeitos colaterais, como por exemplo, o aumento da adrenalina e seus derivados, favorecendo o aumento da pressão arterial, úlceras e gastrites. A desordem dos hormônios do crescimento pode causar situações desfavoráveis ao organismo, uma vez que, em taxas elevadas, podem aumentar as taxas de glicose no sangue, provocando o risco de desencadeamento da Diabetes Mellitus.

O sistema imunológico também pode ser afetado. O ruído provoca alterações na composição dos elementos de defesa do organismo, tornando-os mais vulneráveis às doenças de origem infecciosa, de cunho contagioso.

A vida sexual de pessoas expostas ao ruído pode sofrer modificações. As mulheres podem apresentar sintomas como alterações no ciclo e/ou no fluxo menstrual, cólicas e, em casos particulares, dificuldade em engravidar. Os homens podem apresentar problemas de impotência e infertilidade.

O equilíbrio pode estar comprometido, pois uma vez que o vestíbulo é afetado, pode provocar náuseas, tonturas e vômitos. Caso persista o contato constante com o barulho, esses sintomas podem tornar-se crônicos.

Outra alteração muito comum (e talvez a mais incômoda) é a do sono. Pessoas que estão freqüentemente em locais barulhentos, relatam dificuldades para adormecer e quando adormecem, despertam com facilidade. Em alguns casos, não conseguem dormir, desenvolvendo assim, episódios de insônia, o que leva, conseqüentemente a alterações comportamentais, fazendo com que o indivíduo apresente-se sempre mal-humorado, cansado, desatento, estando mais passível de sofrer algum tipo de acidente em casa, na rua ou no trabalho.

A comunicação e a sociabilidade dessas pessoas podem estar comprometidas, desde que a perda se desenvolva abrangendo as áreas de freqüências onde situa-se a região da fala. Podem apresentar dificuldade em entender o que é dito, em ouvir rádio, TV. Nesses casos, a tendência é ao isolamento do convívio social.

Outros sintomas podem surgir, com manifestações comportamentais como a falta de atenção, a dificuldade de concentração, os problemas de memória, o desânimo, a irritabilidade e a depressão.

Em virtude de todos os prejuízos que o ruído pode causar à saúde humana, foi que esse trabalho procurou conhecer os principais sintomas percebidos mediante o contato com o barulho gerado em casas noturnas.

Muitas pessoas submetem-se a tal risco por ignorarem seus efeitos. Porém, além de todos os danos já citados, existe um fato descrito por Axelson (1981) que trata da suscetibilidade individual. Segundo ele há pessoas que têm maior tolerância ao ruído, por isso são denominadas "orelhas de pedra". Já aquelas mais sensíveis, foram definidas como "orelhas de cristal".

Na impossibilidade de se reconhecer a que categoria de "orelhas de Axelson" os indivíduos pertencem, cabe apenas o esclarecimento prévio dos efeitos colaterais a que estão submetidos e à prevenção.

A preocupação com os efeitos danosos causados pela ação do excesso de barulho, rompeu a barreira das áreas relacionadas à saúde. Órgãos responsáveis pela preservação do meio ambiente e pelo bem estar da população também estão empenhados na promoção da boa qualidade de vida da comunidade, combatendo os fatores que contribuem para o aumento da poluição sonora.

Foram esses fatores que levaram entidades como, por exemplo, o Projeto PSIU (Programa de Silêncio Urbano), da cidade de São Paulo e a Universidade Livre do Meio Ambiente, através de seu Programa Nacional de Educação Ambiental e Controle da Poluição Sonora – Silêncio / IBAMA, tornarem-se responsáveis pela vigilância, autuação, multa e interdição de estabelecimentos cujos níveis exagerados de pressão sonora excedam os limites permissíveis e toleráveis, perturbando o bem estar público.

Os níveis máximos permitidos, na cidade de Vitória/ES, por exemplo, segundo o Programa Nacional de Educação Ambiental e Controle da Poluição Sonora – Silêncio / IBAMA, levando-se em conta que esses níveis correspondem à medição na fonte receptora, tal como o quarto de dormir do reclamante, são:

  • Das 07 às 20 horas: 55dB em zonas residenciais, 65dB em zonas de uso diverso e parque tecnológico e 75dB em zonas portuárias e aeroportuárias.

  • Das 20 às 07 horas: 50dB em zonas residenciais, 60dB em zonas de uso diverso e parque tecnológico e 70dB em zonas portuárias e aeroportuárias.

A nocividade desse agente físico não afeta tão somente a saúde humana, como prejudica o ambiente, tornando-o cada vez mais insalubre.

 


 

 

           
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