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A Segunda
Língua do Surdo - Experiência em Grupo
Autora: Fga. Luciana dos Santos Célia
Email: lucianacelia@hotmail.com
CRfa-RS 6984
A
surdez antes de ser um problema audiológico, é
uma questão social. O Surdo não é um ser
patológico, mas um sujeito que tem uma língua
natural, a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) e, o
português é uma segunda língua. (Skliar,
1997).
Respeitando, em primeiro lugar, esta condição
do Surdo de ter uma língua natural, de ter suas próprias
demandas de discussão e de estar inserido em uma comunidade
majoritária, a ouvinte. Também, buscando uma forma
diferenciada de oferecer a aprendizagem da segunda língua
ao Surdo, iniciei um grupo com cinco jovens Surdos, com idade
entre 14 e 20 anos, no mês de maio de 1999, na Clínica
da Escola de Ensino Fundamental Frei Pacífico - Educação
para Surdos, em Porto Alegre/RS, considerando a importância
de estimular a autonomia e a identidade de cada um, oportunizando
vivências estimuladoras, respeitando a identidade Surda
e oferecendo a estes condições de demonstrar seus
interesses e necessidades, vivenciando situações
que privilegiem a função da escrita em nosso cotidiano.
No livro de Laborit (1996) há um trecho onde diz, "tenho
necessidade dos outros, de trocas. Tenho necessidade de uma
comunidade. Não poderia viver sem os ouvintes nem sem
os Surdos. A comunicação é minha paixão...
quero me comunicar... Dou uma enorme importância ao que
é escrito... E escrever na língua materna de vocês.
A língua de meus pais. Minha língua adotiva..."
Segundo Poersch (1995), "há três fatores para
o aprendizado de uma segunda língua: - fatores motivacionais,
fatores construídos no sujeito aprendiz devido ao contexto
comunicacional lingüístico em que ele se insere;
- atenção, que é derivada da motivação,
ou seja, dependerá da maneira como o aprendiz tem contato
com a língua a ser aprendida (métodos e técnicas
utilizadas no ensino, oportunidades e qualidades da utilização
da língua); - memória, que provém da atenção
e está relacionada à aptidão do indivíduo
para o aprendizado de novas línguas".
A partir de interesses do grupo, selecionamos assuntos a serem
debatidos ao longo dos encontros, através da LIBRAS.
Já que, segundo Pichon Rivière: "O grupo
é um sistema de ações, que surge a partir
de necessidades dos integrantes, o que determina a existência
de objetivos e de tarefas para alcançá-los".
Além de debater os assuntos selecionados, produzimos
atividades com ênfase na aprimoração da
língua portuguesa escrita e ampliação do
vocabulário, através da confecção
de painéis, convites, produções textuais,
dramatizações, entrevistas, dentre outros. Durante
as atividades recebemos a visita de duas professoras Surdas
da Bahia e de um grupo de jovens Surdos da Escola Lília
Mazeron, coordenado por duas estagiárias de fonoaudiologia,
o que nos proporcionou importantes trocas de experiências.
É fundamental permitir que o indivíduo Surdo se
expresse, a partir de trocas de idéias e do diálogo,
pois o diálogo não é apenas um estímulo
para auxiliar na estruturação da linguagem do
Surdo, é uma necessidade vital de qualquer ser humano,
que permite relacionar a realidade interna com a externa do
indivíduo.
No ano de 2000, confeccionamos o Jornal Mundo Surdo, o qual
circulou por grande parte da Comunidade Surda, inclusive do
interior, contendo entrevistas, comentários, eventos,
espaço para arte, informações, partindo
de interesses e necessidades dos próprios Surdos.
Em seguida, mantivemos contato através de cartas com
surdos do município de Canela/RS, foi uma experiência
bastante significante, pois pudemos trocar informações
e idéias com surdos que vivem numa outra realidade.
Este trabalho em grupo vem proporcionando aos integrantes o
crescimento da autonomia e da crítica perante a sociedade,
a interação, a troca de idéias, a ampliação
do vocabulário, a melhora na produção escrita,
maior interesse pelo atendimento fonoaudiológico individual
e em grupo.
Na experiência em grupo, pode-se vivenciar situações
de muito valor. Acredito ser esta experiência muito significante,
onde a troca é a base de qualquer aprendizado, tornando
o trabalho mais gratificante e com maior retorno. Segundo Pichon
Rivière: "A mútua representação
interna vai correndo em diferentes níveis, a partir de
diferentes vínculos em que todos se percebem em uma relação
de uniformidade e de diferenciação em que, a partir
das diferenças de cada um, se desenvolvem as semelhanças
presentes na grupalidade".
Bibliografia:
BRITO, Lucinda F. Integração Social & Educação
de Surdos. Rio de Janeiro: Babel Editora, 1993.
DANESI, Marlene. GEPEL - Grupo de Estudos e Pesquisas Emmanuelle
Laborit. Porto Alegre, 1999 - 2000. (Notas de Debates).
LABORIT, Emmanuelle. O vôo da gaivota. São Paulo:
Best Seller, 1996.
POERSCH, J. M. Atitudes e Aptidões no Ensino de Línguas:
é possível alfabetizar em língua Estrangeira?
Letras de Hoje, Porto Alegre, v.30, n.2, p. 193-205, junho 1995.
RIVIÈRE, Pichon. La Psicología de Vygotski. Aprendizaje.
Visor, Madrid, 1984.
SÁ, Nídia Limeira de. Educação de
Surdos: A Caminho do Bilingüismo. Niterói: EDUFF,
1999.
SKLIAR, Carlos (Org.). Educação & Exclusão:
Abordagens Sócio-Antropológicas em Educação
Especial. Porto Alegre: Mediação, 1997.
_____________________ A Surdez: Um Olhar sobre as Diferenças.
Porto Alegre: Mediação, 1998.