Respire Melhor
Desenv. e Gerenciamento www.w-commerce.com.br
 
.:: Respire Melhor
   
           
 
.:: A Fonoaudiologia e a Cirurgia Ortognática



O conteúdo dessa seção foi cedido pelo site www.respiremelhor.com.br, portal dedicado às áreas de saúde que trabalham a respiração (medicina, fonoaudiologia, odontologia, fisioterapia). Este artigo encontra-se originalmente disponível na seção Fonoaudiologia do Site Respire Melhor



A Fonoaudiologia e a Cirurgia Ortognática
Irene Queiroz Marchesan
Esther Mandelbaum Gonçalves Bianchini


Características: o que observar?

Como dissemos anteriormente, raramente o paciente com desproporções esqueléticas vem em primeiro lugar ao fonoaudiólogo. Isso tem ocorrido com maior frequência quando o indivíduo adulto tem queixas claras em relação à articulação da fala. As vezes a queixa é simplesmente por que o padrão de fala não o agrada, outras vezes porque interfere em seu trabalho ou mesmo em seu convívio social. Quando isto acontece, e o fonoaudiólogo entende que estas alterações de fala são consequência de alterações nas bases ósseas, o paciente é encaminhado ao cirurgião para que este forneça seu parecer e conduta. Informamos ao paciente que a correção da fala muitas vezes não será possível ou não alcançará os resultados desejados sem a correção da forma. Na maior parte das vezes, o paciente com desproporções maxilo-mandibulares chega ao fonoaudiólogo encaminhado pelo ortodontista ou cirurgião, já com o diagnóstico e procedimentos definidos. Na verdade a grande maioria dos casos avaliados e tratados pela fonoaudiologia são pacientes pós cirúrgicos, em geral encaminhados por recidivas.

Previamente à cirurgia, quando necessário a avaliação fonoaudiológica, consiste em relacionar as características crânio faciais e suas correspondentes adaptações funcionais, assim como a qualidade neuro muscular.

Esta avaliação inicial parece-nos importante no sentido de verificar a atual situação miofuncional e prever as possibilidades de adequação espontânea ou necessidade de reavaliação pós cirúrgica. Dentre as características funcionais observadas, preocupa-nos principalmente a respiração e o posicionamento mandibular, dos lábios e cervical. A postura de língua, variável de indivíduo para indivíduo, sofre a influência da postura mandibular e cervical e da passagem aérea já que estas são interrelacionadas (Simões 2).

Claramente, nos casos de desproporções esqueléticas, se constata uma nítida alteração da musculatura dos lábios, bochechas, do mento e até língua, cuja função e postura de repouso depende, em grande parte da posição da sínfise mentoniana.

Passaremos agora a descrição dos problemas mais frequentes da clínica fonoaudiológica: face longa, retrognatismo e prognatismo onde são comuns queixas em relação à fala com ou sem desvio de mandíbula, dificuldades com o processo mastigatório e respiratório. O odontólogo também encaminha estes pacientes preocupado com as alterações das funções orais e as assimetrias faciais.

As características miofuncionais orais observadas são no geral, peculiares ao tipo de desproporção

FACE LONGA

Na face longa, onde exista excesso vertical da maxila (1, 4, 5, 6), observamos déficit de vedação labial, com significativa distância interlabial e excessiva exposição dos incisivos superiores com lábio superior em hipofunção ou utilização excessiva do músculo mentoniano acompanhado de eversão de lábio inferior e hiperfunção do lábio superior na tentativa de obter selamento labial. Alguns casos mostram uma depressão na ponta do nariz ou movimento excessivo desta concomitante ao movimento do lábio superior especialmente na fala, pela ação do músculo depressor do septo nasal (1) e fibras oblíquas do músculo orbicular dos lábios.

O sorriso expõe as gengivas, já que existe excesso vertical da maxila. A postura de repouso lingual é variável. Depende principalmente do padrão respiratório e da posição mandibular. Na ocorrência de rotação póstero-inferior da mandíbula, a parte anterior da língua encontra-se mais baixa e o dorso alto devido à redução do espaço funcional póstero - anterior. Durante a função, aparece predomínio de movimento de anteriorização da língua tanto em mastigação como deglutição e fala, especialmente nos casos de mordidas abertas anteriores.

A articulação da fala encontra-se prejudicada quanto ao ponto de articulação, especialmente nos fonemas plosivos bilabiais (/p/, /b/ e /m/) onde o lábio inferior oclui com os incisivos superiores. Os fonemas línguo - alveolares, ( /t/, /d/, /l/, /n/, /s/ e /z/ ) são realizados com interposição lingual entre os incisivos ou com elevação da parte média da língua redirecionando o fluxo aéreo.

Observamos que a mastigação nestes indivíduos caracteriza-se principalmente pelo déficit de vedamento labial, com reduzida utilização do orbicular dos lábios e bucinador acompanhado de movimento de lateralização da língua que controla a posição e posteriorização do alimento. Este modo de mastigar interfere na deglutição que comumente apresenta movimento póstero-anterior de língua, com interposição dental, especialmente quando existe mordida aberta anterior.

A contração excessiva da musculatura peri-oral demonstra ainda a tentativa de vedamento e compensações durante a deglutição, sendo estas adaptadas à alteração das bases ósseas.

Alguns estudos eletromiográficos mostram a ocorrência de diminuição da atividade eletromiográfica, com redução da força mastigatória em sujeitos com excesso vertical da maxila, quando comparados com sujeitos sem esta desproporção, sugerindo menor eficiência do sistema neuro muscular nestes indivíduos(1,16,17).

RETROGNATISMO

Nos casos onde exista retrognatia, a caracterização funcional mais evidente é o vedamento anterior, efetuado com lábio inferior ocluindo com os incisivos superiores e hiperfunção do músculo mentoniano.

Na articulação da fala, o ponto articulatório utilizado para realização dos fonemas bilabiais /p/,/b/ e /m/ é o mesmo que o utilizado para o vedamento anterior. Os fonemas sibilantes ( /s/ e /z/ ) apresentam-se distorcidos, acompanhados por deslize mandibular anterior.

Em repouso, a língua costuma permanecer com ponta baixa e dorso elevado devido à redução do espaço póstero anterior. Isto tem se confirmado por meio das telerradiografias em norma lateral utilizadas por nós em nossa clínica diária, onde observamos que há uma elevação da parte posterior da língua tocando no palato mole, interferindo em sua posição, elevando-o.

A mastigação em geral, é rápido, com redução do número de ciclos mastigatórios e consequente comprometimento da deglutição. A deglutição apresenta deslize mandibular anterior acompanhado de movimento póstero-anterior de língua e hiperfunção da musculatura peri-oral forçando o vedamento bucal anterior. É comum ainda a ocorrência de sinais de alteração da articulação têmporo - mandibular, tais como estalos e/ou dor durante a mastigação.

PROGNATISMO

Na ocorrência de prognatismo, sendo a mandíbula maior e mais profunda, a língua ocupa o espaço inferior estando plana no soalho da boca(13) com hipotonia de sua base. Estando sua base mais baixa e sem contatar o palato mole este apresenta-se em telerradiografias laterais, mais verticalizado. O vedamento labial pode não ocorrer satisfatoriamente, especialmente quando associado a aumento do terço inferior da face, aparecendo hipotonicidade de lábio inferior e hipertonia do músculo mentoniano compensatoriamente.

Observamos a prevalência do uso de lábio superior, especialmente na fala em fonemas bilabiais e fricativos /f/ e /v/ ocorrendo inversão do movimento labial, ou seja, o lábio superior oclui com os incisivos inferiores. Nos linguo - alveolares e sibilantes, aparece utilização da parte média da língua e interposição dental anterior.

A mastigação é uma das funções mais alteradas, prevalecendo movimentos mandibulares verticalizados com grande utilização de dorso de língua esmagando o alimento contra o palato e pouca ou nenhuma ação dos músculos bucinadores (13) devido à discrepância das bases ósseas e alterações oclusais consequentes que se apresentam. Alguns estudos (7) citam redução da força de mordida e necessidade de maior número de ciclos mastigatórios para triturar o alimento. Colocam como principal razão para realização da cirurgia, a melhora da função mastigatória.

Apesar de encontrarmos com frequência a deglutição destes pacientes com interposição lingual anterior, esta característica não é o que mais nos preocupa uma vez que esta maneira de deglutir não agrava e nem compromete mais o quadro. Além disto, este posicionamento de língua não é possível de ser modificado e estabilizado, a não ser pela cirurgia ortognática em que ocorra a mudança da posição da sínfise mentoniana.

ASSIMETRIAS

Em assimetrias faciais ósseas, a característica funcional mais frequente por nós observada, é a presença de mastigação unilateral. A musculatura encontra-se mais alongada do lado maior mesmo após a cirurgia. Verificamos ainda que apesar da tentativa do paciente mastigar bilateralmente, predominam movimentos mandibulares unilaterais.

Durante a articulação da fala, os movimentos mandibulares protrusivos são substituídos por movimentos de lateralidade, acompanhados por maior contração muscular na região da comissura labial do mesmo lado.

Quando há a inclinação lateral da cabeça aparece compensação da cintura escapular com elevação do ombro.

EM RESUMO:

Apesar de considerarmos estas características miofuncionais adaptativas à discrepância das bases ósseas, existem casos nos quais a qualidade neuro-muscular está aquém do esperado, principalmente com relação ao tônus. Nestes pacientes, as características observadas podem sugerir dificuldades em se readaptar à nova forma, especialmente nas situações em que o procedimento cirúrgico envolve redução do espaço intra-bucal. Esta redução pode implicar em maior pressão anterior de língua nas estruturas operadas.

Quando a posição mandibular é modificada, também o osso hióide e a língua mudam de posição no repouso, na deglutição e articulação da fala. Isso relaciona-se tanto à mudança espacial da musculatura quanto ao mecanismo de defesa compensatório para manter os espaços adequados à passagem de ar (3,9). Estas mudanças pós-cirúrgicas tendem a se estabilizar com o passar do tempo, uma vez que os tecidos moles vão se readaptando aos novos espaços. Verificamos entretanto, que em alguns casos, tanto a fala como mastigação e deglutição mostram-se pouco satisfatórias, mesmo após um ano da cirurgia. Muitos pacientes relatam que a forma de falar e ou mastigar é estranha e também observam que mesmo um longo tempo após a cirurgia estas características permanecem. Durante o processo terapêutico fonoaudiológico destes pacientes percebemos que muitos deles conseguem modificar de fato as funções e outros apenas a incorporam, sendo isto por nós considerado como satisfatório.


Introdução | 1 | 2



www.respiremelhor.com.br
respiremelhor@respiremelhor.com.br

           
   
Cadastre-se é Gratis !!
  .:: Recomende este site a um amigo !