A Fonoaudiologia e o Cotidiano na Saúde Pública

Publicado em
05/04/2001 por

A Fonoaudiologia e o Cotidiano na Saúde Pública

Autora: Fga. Elaine Minatel de Castro 
Data: 05/04/2001 
CRFa 6663 


Formada pela USP-Bauru
Pós-graduanda em Saúde Pública pela Unioeste/Cascavel
Fonoaudióloga do Setor de Saúde Escolar da Prefeitura Municipal de Cascavel-PR
Fonoaudióloga da Associação dos Portadores de Fissura Lábio-Palatal - Centrinho/Cascavel


A Fonoaudiologia e o Cotidiano em Saúde Pública
Centro de Atendimento Especializado à Criança

Introdução

A área da Saúde Pública é muito rica nos seus pressupostos, fundamentados em atenção primária, medidas preventivas e educativas, além da integração entre os profissionais de Saúde. Porém, seja por motivos político-econômicos, seja por uma cultura médica vigente há tempos, o que ocorre é uma atenção voltada mais para a recuperação do indivíduo. Existem boas iniciativas, como os centros especializados e, mesmo sendo difícil seguir esses ideais, ainda há muito a se fazer.
Este estudo procura mostrar um pouco da atuação fonoaudiológica em Saúde Pública, com uma clientela infantil, carente de saúde e educação, em sua maioria.

Características do Ambiente de Trabalho
O estudo, a partir da vivência e observação direta do trabalho como funcionária, foi realizado em um Centro de Atendimento Especializado à Criança - Prefeitura Municipal de Cascavel-PR, único a oferecer esse serviço na cidade. 
Esse centro é regido pela Secretaria Municipal de Educação e conta, também, com um corpo técnico cedido pela Secretaria Municipal de Saúde. 
O prédio apresenta condições satisfatórias de conservação e higiene. Fornece, na medida do possível, adequada quantidade de materiais para atendimento e manutenção periódica, além de alimentação a profissionais e usuários. 
Quanto à equipe, existem duas fonoaudiólogas, duas psicólogas, dois fisioterapeutas, uma enfermeira, dois pediatras, um oftalmologista, uma assistente social, dentistas, auxiliares, equipe pedagógica e pessoal de apoio (administração, limpeza e manutenção), totalizando mais de 40 funcionários. Eles ocupam salas específicas e individuais, dentro do mesmo prédio.
A seguir, será mais detalhado o trabalho realizado no setor de Fonoaudiologia.

O cotidiano no Setor de Fonoaudiologia
A clientela no setor de Fonoaudiologia do Centro são os alunos das escolas municipais de Cascavel, até a 4a série do ensino fundamental.
Os alunos são encaminhados pelas professoras, coordenadoras e monitoras de saúde de mais de 60 escolas e pelos profissionais do próprio centro.
A demanda é grande; existem cerca de 300 crianças aguardando vaga para atendimento. Cada fonoaudióloga atende, em média, 40 pacientes por semana. Mas como o tratamento é complexo, feito com qualidade e duração necessárias, eles permanecem por longo período em terapia; assim, a rotatividade e o número de altas são pequenos, dificultando a oferta freqüente de vagas.
O contato para encaminhamento é feito diretamente com as fonoaudiólogas. Estas direcionam o caso para a agenda de atendimento ou lista de espera, dependendo da disponibilidade de vagas.
Quando o aluno é convocado para atendimento, em primeiro lugar, realiza-se a anamnese com os pais ou responsáveis, por meio da qual podem ser verificados dados relevantes sobre a história de vida da criança e associá-los com a queixa e a observação da patologia. 
Numa próxima consulta, inicia-se o processo de avaliação, diretamente com o paciente. Esse processo às vezes exige mais de uma sessão para se esclarecer o diagnóstico. A partir da avaliação, o profissional determina a conduta: encaminhamentos ou sessões de fonoterapia, cujo número varia de acordo com a patologia em questão.
Então é realizada a devolutiva a pais e escolas, iniciando o processo terapêutico. Agendam-se sessões semanais de 30 ou 40 minutos de duração, em que são aplicadas técnicas para habilitação/reabilitação do paciente, sempre visando propiciar saúde e bem-estar à criança.

Aspectos negativos
Como a demanda é numerosa, todos os profissionais estão constantemente atarefados com suas atividades específicas. É muito difícil estabelecer horários para discussão de casos, troca de informações, enfim, a comunicação entre as especialidades torna-se comprometida. Além disso, também em função da demanda, muitas vezes uma mesma criança necessita de mais de um atendimento (em áreas diferentes), mas não consegue vaga, prejudicando o sucesso rápido da terapia.
Outro fator a ser mencionado é o nível sócio-econômico-cultural da maioria das famílias atendidas, que nem sempre compreendem ou confiam no trabalho do especialista. Ainda que o atendimento seja gratuito (incluindo merenda e transporte), muitas vezes, os pais apresentam resistência e desinteresse pelo tratamento e não estimulam a criança na realização das atividades propostas. É o reflexo da sociedade carente , para a qual deveria haver projetos sérios e eficientes na área da ação social.

Organização do Trabalho
O modelo que vigora em todas as especialidades, assim como o trabalho descrito de Fonoaudiologia, é o clínico, pois tem como finalidade a reabilitação da criança. Pelos meios de trabalho, os profissionais procuram conhecer, manipular e recuperar o indivíduo.
Apesar de existirem algumas ações preventivas (palestras a professores, triagem nas escolas) estas não são suficientes e a atenção em nível terciário é a que predomina, embora não seja a situação ideal. Não há recursos humanos disponíveis e os já existentes não têm tempo hábil para a atender toda a demanda. 
Quanto à carga horária, as fonoaudiólogas e outros profissionais da Saúde cumprem 30 horas semanais, distribuídas em 6 horas diárias ininterruptas. São funcionários contratados sob Regime Estatutário, após aprovação em concurso público.
Os processos de trabalho de cada especialidade, embora tenham relação uns com os outros, são independentes. Cada profissional tem autonomia e é responsável pela concepção e execução do trabalho, desde o agendamento até a alta do paciente.
Uma questão bastante cobrada aos profissionais é a pressão vinda de pais e escolas por atendimento às crianças, já que muitas delas ficam um longo tempo na lista de espera.

Considerações
É de conhecimento geral que a situação da Saúde Pública no Brasil não está adequada e o estudo acima descrito é um exemplo disso. Todos temos em mente o modelo ideal de trabalho nessa área, de cada especialidade, mas é difícil colocá-lo em prática. Com estudos, observações e persistência, talvez um dia possamos, senão reverter o quadro, pelo menos procurar agir conforme os pressupostos da Saúde Pública no dia-a-dia do trabalho de cada um. Ínfimos resultados seriam considerados 'grandes mudanças'.
Neste centro, novas idéias estão surgindo por parte de toda a equipe. Particularmente em relação à Fonoaudiologia, as duas profissionais elaboraram um projeto voltado para a área preventiva. 
Serão planejadas e distribuídas apostilas a todas as escolas e creches do município. Até as 1as séries, o material enfatizará a importância da estimulação para o processo de comunicação. Outra apostila enfocará os critérios de indicação para as professoras estarem encaminhando seus alunos para triagem ou avaliação. Para a divulgação dessa proposta, serão agendadas palestras para toda a rede de ensino de abrangência municipal. Além disso, as fonoaudiólogas estarão visitando as escolas, conhecendo a realidade de cada uma e realizando triagens e orientações. Também estão programados estudos clínicos para todas as especialidades.
O intuito desse texto foi mostrar um pouco da realidade da Fonoaudiologia na Saúde Pública do município de Cascavel. Para julgar esse serviço, devemos levar em conta vários fatores: realidade social do município, número de profissionais atuantes, demanda populacional, filosofia do ambiente de trabalho, entre outros. Tudo isso deve ser questionado como positivo ou negativo para a aplicação dos pressupostos defendidos em livros e revistas científicas. Muitas coisas podem e devem ser mudadas, muitas coisas terão sucesso, outras não. Mas sempre devemos estar conscientes do nosso papel e aptos a inovar para melhor servir a população

Bibliografia Consultada
ALMEIDA, M.C.P.; MELLO, D.F.; NEVE, L.A.S. - O Trabalho de Enfermagem e sua Articulação com o Processo de Trabalho em Saúde Coletiva / Rede Básica de Saúde em Ribeirão Preto. R. Bras. Enferm., 44 (2/3): 64-75, abril/set. 1991
MANO

VIEIRA, R. et al (org). Fonoaudiologia e Saúde Pública. 2a ed. Carapicuíba: Pró-Fono, 2000.