A Família e os Hábitos Orais Viciosos na Infância

Publicado em
01/12/1999 por

RESUMO

Este trabalho visou discutir as crenças existentes sobre os hábitos orais na infância, em um grupo de famílias de classe média baixa, usuários de serviço público de saúde. Procuramos, com a pesquisa, levantar as necessidades deste grupo em relação ao desenvolvimento bio-psico-social de suas crianças e incentivar a discussão e, consequente descoberta de estratégias úteis à adequação dos seus comportamentos orais. Para tanto, além de uma discussão teórica sobre o tema, enfocando várias opiniões diferentes de especialistas, investigamos famílias através de uma pesquisa prática com questionários e encontros de mães, estimulando a troca de experiências sobre o assunto. Pudemos concluir que podem ou não ocorrer dificuldades orais relacionadas aos hábitos orais viciosos na infância e, portanto, não existem regras quanto ao assunto, cabendo a cada família, determinar o que pode ser melhor para suas crianças, sendo recomendável a divulgação de informações que contribuam para a melhor decisão.

THE FAMILY AND THE VICOUS ORAL HABITS IN CHILDHOOD

SUMMARY

This work wished to discuss the existing beliefs about the oral habits in childhood , in a group of middle class families, who are users of the public health service. We will try, with this research, to show the needs of the group in relation to bio-psyco-social development of this children and to encourage the discussion and, consequent discoveries of useful strategies to the adaption of their oral behavior. So, besides a theoretical discussion on a theme, focusing on several different opinions from specialist, we checked out families, through practical research with questionaries and a meeting with mothers, stimulating a exchange of experiences on the subject. We can conclude that some oral problems can or can not occure related to the bad oral habits during childhood and, as such, there are fixes rules on the subject it is up to each family to determine wath would be better for its children. The disclosure of the recommended findings would contribute to the better decision.

INTRODUÇÃO

A saúde é um direito universal e dever do Estado e o S.U.S. (Sistema Único de Saúde) deve integrar todos os serviços públicos em rede hierarquizada, descentralizada, com atendimento integral e participação comunitária.

Após 14 anos de trabalho em serviço público, atuando na área fonoaudiológica, sendo os seis últimos num centro de saúde em São Vicente, litoral paulista, que é um serviço de atenção secundária e os quatro primeiros anos, junto a escolas e pré-escolas deste município, com trabalho em equipe multidisciplinar, em caráter preventivo e curativo, com a população de baixo poder aquisitivo e, consequentemente, carente sócio-culturalmente, constatamos o elevado grau de desinformação em relação à assuntos de saúde e desenvolvimento bio-psico-social da comunidade.

Pudemos também, constatar o grande interesse desta população formada principalmente por donas-de-casa e domésticas, pelas informações que lhes eram fornecidas em relação a melhor forma de lidar com o desenvolvimento de seus filhos, sejam eles recém-nascidos, pré-escolares ou adolescentes, quanto a aspectos pertinentes à comunicação, alimentação e saúde.

Em todas as formas de abordagem utilizadas com esta população, fosse em trabalhos com grupos de mães em escolas e pré-escolas, grupos de gestantes ou em consultas ambulatoriais, esclarecimentos sobre os benefícios e prejuízos quanto ao uso de chupetas e mamadeiras além de outros hábitos orais, faziam-se necessários e, em alguns casos, imprescindíveis.

Têm sido importantes, também, as trocas de informações entre os próprios integrantes do grupo que, através de suas experiências pessoais, são capazes de auxiliar o trabalho fonoaudiológico já que falam a mesma linguagem, têm as mesmas crenças e tabus em ralação aos hábitos orais, facilitando a comunicação ao mesmo tempo que norteiam o tipo de abordagem a ser utilizado por nós.

Não é raro encontrarmos mães que, apenas por falta de orientação adequada, adotam posturas em relação aos seus filhos, que criam ou agravam seus problemas de alimentação, comportamento, saúde, etc. e que, após serem esclarecidas e entenderem porque e para que mudar de atitude, passam a obter resultados extremamente compensadores.

 

HÁBITOS ORAIS

 

Existem diversas etiologias para explicar o respirador bucal, mas é muito importante ter o conhecimento de uma etiologia multifatorial.

 

São citadas como causas mais comumente encontradas a inflamação das mucosas que recobrem as cavidades nasais, devido às rinites alérgicas, à presença de adenóides, à má formação do septo nasal e às variações dos cornetos ( teoria de Angle, E H., 1907).

 

Segundo Emslie, Massler et al. (1952), a respiração bucal decorre uma associação de dois fatores anatômicos: passagem do ar estreita e obstrução nasal. Para Mayoral e cols. (1983), que atribui aos fatores genéticos, as feições humanas bem como suas estruturas e funções, estariam submetidas aos padrões herdados.

 

O tamanho das adenóides, segundo Ricketts, não seria tão importante quanto o espaço ocupado por elas. No homem, a manutenção do espaço faringiano para a respiração é a função mais primitiva. A variação deste espaço deve-se por distúrbios de postura de língua, de tonicidade muscular e de posição de mandíbula, segundo Bosma, (1963).

 

 Na infância as maiores causas de obstrução nasal nos respiradores bucais são: hipertrofia de adenóides, hipertrofia de amígdalas, rinites alérgicas, desvio de septo nasal, hematoma de septo nasal, infeções repetitivas das vias aéreas superiores, palato ogival, hipertrofias das estruturas dos cornetos nasais, traumas faciais, pólipos nasais, presença de corpos estranhos, abscessos e tumores nasais, obstrução nasal por iatrogenia (pós cirurgia e medicamentosa) e rinite vasomotora e ou atrófica.

 

RESPIRAÇÃO BUCAL

 

Marchesan (1993) assim como Tessitore (1995) enumeram como sequelas de respiração bucal: alterações musculares e ósseas, causando assimetrias faciais, otite catarral, alterações da forma nasal e obstrução nasal constante, olheiras, mordida aberta anterior e cruzada posterior, palato ogival, diminuição do rendimento escolar, hipotonia labial, lingual e de bochechas, alteração do crescimento facial, alterações de fala, crescimento físico diminuído, alterações do posicionamento lingual tanto em repouso quanto em ação, para proteger orofaringe e facilitar a entrada de ar pela boca, irritação da mucosa oral, etc.

 

Felicio (1994) inclui nessa lista, distúrbios de articulação têmporo-mandibular em função da atresia maxilar em ralação à mandíbula.

 

Geralmente a respiração bucal está associada a hipofunção dos músculos elevadores da mandíbula, lábio superior curto e incompetente, hipotonia lingual, resfriados e alergias.

 

Soligo (1996) complementa ainda dizendo que pode ser causada por hipertrofia de amídalas e/ou adenóides, desvio de septo nasal, rinite alérgica e pólipos nasais.

 

Marchesan (1994) explica que a língua mal posicionada dentro da boca pode causar modelagem incorreta dos arcos dentários, com dorso elevado e ponta baixa, inibe o crescimento da parte anterior da mandíbula, levando à Classe II (Angle) causando ceceio lateral, interposta entre as arcadas, leva à mordida aberta anterior. Desta forma, o respirador bucal pode roncar ou babar durante o sono, ser irritado, hiperativo ou sonolento , causando dificuldades escolares, pode cansar-se facilmente em atividades físicas, ter as gengivas hipertrofiadas e/ou com alterações de coloração, língua flácida e anteriorizada, deglutição atípica, bruxismo, ombros para frente, cabeça em posição inadequada, falta de apetite, obesidade ou magreza, palidez, ter respiração ruidosa, mastigação também ruidosa, unilateral e com lábios separados, etc.

 

Soligo (1996) chama atenção para o fato de que quanto mais cedo se instalar a respiração bucal, maiores serão as alterações se oclusão porque osso jovens são facilmente moldáveis e a respiração bucal pode levar ao desenvolvimento crânio-facial inadequado quando houver predisposição genética para tal.

 

O autor defende que é necessária a reeducação muscular, além da eliminação da causa orgânica para a respiração bucal, o mais precocemente possível, com o objetivo de liberar o crescimento adequado. Segundo ele, a face cresce mais rapidamente nos primeiros dez anos de vida, por isso, é importante darmos condições para que este crescimento seja harmônico.

 

INADEQUAÇÃO DA DEGLUTIÇÃO

 

Altmann (1990) define deglutição atípica como qualquer desvio do padrão normal adulto de deglutição. É caracterizada como o posicionamento da língua contra a superfície lingual dos dentes incisivos e caninos ou a protrusão lingual entre as arcadas dentárias durante o repouso e a deglutição (a ponta da língua não toca a papila palatina). Este padrão atípico é considerado normal até os 4 anos de idade.

 

A autora classifica deglutição atípica como uma síndrome neuromuscular onde aparecem alterações respiratórias , da articulação fonêmica, sinergismo da musculatura oro-facial e problemas ortodônticos.

 

Tomé e col. (1996) destacam que o padrão infantil de deglutição sofre mudanças a partir da erupção dos dentes e que pode ser alterado quando os maus hábitos orais permanecem após esta fase.

 

Soligo (1996) aponta como causas principais de deglutição atípica, a hipertrofia de amígdalas causadas por inflamações, resultando em alterações no posicionamento lingual com objetivo de diminuir a dor. Em casos crônicos, o mal posicionamento lingual pode tornar-se um mal hábito já que há diminuição do espaço bucal posterior e projeção lingual causando, também, respiração bucal.

 

Para Marchesan (1993), as causas de deglutição atípica são: palato estreitado (a língua não se acopla ao palato), hipotonia lingual (sem força para juntar o alimento e se acopla ao palato), persistência do hábito infantil, anatomia que não permite a deglutição adequada, sucção inadequada (não forma bolo), hipotonia de bochechas (não auxilia na mastigação, sucção e formação do bolo), respiração bucal, mordida aberta anterior, interposição do lábio inferior atrás dos dentes superiores (classe II), contração da musculatura perioral (para manter a língua na boca), arcada pequena em relação à língua, trocas dentárias, etc.

 

A maioria dos autores pesquisados enfatiza que se a criança for deglutir enquanto suga a mamadeira , dedo ou chupeta, não será capaz de posicionar adequadamente as estruturas orais envolvidas.

 

Pacientes que mantém hábitos orais inadequados, geralmente têm palato muito alto, pelo mal posicionamento lingual durante a fase de desenvolvimento desta estrutura. Assim, dificilmente haverá pressão negativa na cavidade oral durante a deglutição, necessária para a passagem do bolo alimentar para a faringe, podendo ocasionar dificuldades na deglutição e agravar a mordida aberta anterior.

 

Altmann (1990) acredita que a manutenção da dieta pastosa (levando à imaturidade do sistema motor-oral) , características genéticas (estruturas faciais e de cavidade oral) e problemas psicológicos (tensão nervosa ou infantilização que levam a manter padrões imaturos de comportamento de órgãos fono-articulatórios), também são causadores de deglutição atípica.

 

MAMADEIRA

 

Barbosa e Scnonberger (1996) asseguram que quando o bebê é alilmentado com chucas e/ou mamadeiras, não recebe estimulação adequada na área sensório-motora, podendo desenvolver uma inabilidade de deglutição devido a hipotonia de musculatura perioral e lingual, acarretando, mais tarde, deformação de arcada dentária e de palato, com mordida aberta anterior ou lateral que dificultará o corte do alimento, a mastigação lateral e a formação do bolo alimentar, podendo, ainda, protruir a língua no momento da deglutição, aumentando mais a deformidade óssea.

 

Aragão (1991) acredita que na mamadeira, a criança não se cansa como quando mama no peito (pelo trabalho muscular) porque o leite sai com a força da gravidade e o bico muito aberto provoca saturação rápida do estômago, sem esforço.

 

Sobre bicos de mamadeiras, Soligo (1996) ressalta que o osso é um tecido que reage às pressões que agem sobre ele. Em repouso, há equilíbrio das forças musculares intra e extra-orais, evitando o deslocamento anterior dos dentes. Este equilíbrio de forças musculares pode ser quebrado pelo uso de bico de mamadeira não fisiológico que provoca abertura maior da boca, solicitando trabalho maior do bucinador que pode acarretar problemas ortodônticos.

 

Já Hernandez (1996) e Proença (1990), em diferentes trabalhos, enfatizam a vantagem do bico ortodôntico de mamadeira, em relação aos bicos comuns. Pela sua forma, o bico ortodôntico auxilia o vedamento labial devido ao seu achatamento e bulbo curto, dá maior apoio aos lábios, favorecendo a pressão negativa intra-oral. Tem furo na região superior do bico, impedindo que o leite caia diretamente na região posterior da cavidade oral, auxiliando o bebê na coordenação sucção-respiração-deglutição, diminuindo engasgos e riscos de asfixia. Ainda pela sua conformação, o bico ortodôntico mais curto, diminui a movimentação e extensão da língua, permitindo a elevação da ponta na cavidade oral, propiciando a preparação das zonas de contato de língua para a deglutição que não prejudique as arcadas dentárias nem a produção fonêmica.

 

Para Moresca e Feres (1994), quando a alimentação na mamadeira não é feita adequadamente, a criança pode ter suprida sua necessidade nutricional mas não suprir sua necessidade de sucção (quantidade de sucções) e começa a sugar as mãos com voracidade e depois, o polegar. Geralmente isso ocorre quando o bico da mamadeira tem um furo muito grande e a criança não precisa sugar para conseguir a mesma quantidade de leite.

 

Hernandez (1996) diz parecer consenso entre os autores, que o melhor bico é o que permite ao bebê sugar a quantidade de leite necessária à sua nutrição, em tempo adequado, com boa função motora oral e sem perda excessiva de energia que interfira no ganho de peso. Mas, encontramos alguns guias para "mães de primeira viagem" que orientam a escolha do bico da mamadeira que melhor se adaptar ao bebê, independentemente do formato e sua adequação ao bom desenvolvimento dos órgãos fono-articulatórios. Além disso, orientam sobre o tamanho do furo do bico, em relação a engasgos (furos grandes) mas não citam a necessidade de movimentos adequados de sucção que proporcionem o bom desenvolvimento dos órgãos fono-articulatórios.

 

Portanto, ao se escolher o bico, devemos considerar: flexibilidade (deve ser suficiente para permitir adaptação à boca), comprimento (que não interfira na direção do crescimento da face que é para frente e para baixo), tamanho do furo, posição na cavidade oral, posição do furo, consistência do alimento, etc.

 

Proença (1990) chama a atenção para que, apesar das vantagens do uso do bico ortodôntico em relação aos bicos comuns, recomenda seu uso somente até os 2 anos e meio de idade, devendo ser substituído gradativamente pelas papas de frutas, legumes, cereais, pudins, biscoitos, uso de canecas com canudos até o uso de copos comuns.

 

Em relação ao aspecto emocional, Zen (1985) aconselha às mães que não amamentam no seio, colocar o bebê no colo, na hora da mamadeira pois acredita que o contato terno e aconchegante do momento é imprescindível para o desenvolvimento emocional e físico. Ele diz ainda, que a criança que toma mamadeira deitada no berço necessita mais esforço para mamar, além de precisar esticar a língua forçando-a, provocando uma projeção lingual que pode levar a problemas dentários e de fala.

 

Xavier (1997) destaca que nos recém-nascidos a tuba auditiva encontra-se em posição horizontal facilitando o escoamento do leite para o canal auditivo, causando graves danos à audição. Portanto, ressalta a importância de se posicionar o recém-nascido praticamente ereto durante as mamadas.

 

Sobre o aspecto dentário, André e col (1996) escrevem que a cárie dentária da mamadeira afeta crianças de 1 a 3 anos de idade que usam mamadeira frequentemente e com líquido açucarado e que geralmente adormecem ou são alimentados durante o sono, sem que seja feita a higiene oral adequada.

 

CHUPETA

 

De acordo com Siracusa (1989),as funções da sucção são: alimentar e satisfazer a musculatura oral que está relacionada com a estabilidade emocional do bebê. Por isso, algumas crianças mesmo bem alimentadas pela quantidade de leite sugado, ainda precisam sugar chupeta.

 

Quanto à amamentação no seio, Lopes (1988) afirma que bebês que precisam de chupeta para satisfazer a necessidade de sucção, diminuem o tempo no seio materno. Mesmo sendo necessária em algumas circunstâncias, a chupeta torna-se um substituto das mamadas, além de interferir na relação de oferta e demanda do leite.

 

Aragão (1991) explica que o cérebro necessita dos movimentos de sucção e do cansaço físico para agir depois com o sono reparador. A sucção na mamadeira, não havendo desgaste físico e cansaço, provoca um descontrole e a criança fica agitada, chorando instintivamente levando a mãe a oferecer-lhe a chupeta que é um artifício de sucção para dar continuidade a um processo que deveria ser natural.

 

Acredita-se que a criança chupa dedo e/ou chupeta devido a três fatores: FISIOLÓGICO - necessidade exacerbada de sucção, AMBIENTAL - início precoce da alimentação artificial, EMOCIONAL - dificuldade em lidar com o ambiente.

 

A escolha da chupeta deve levar em conta a forma, o tamanho e a sua posição na cavidade oral.

 

Para André e col. (1996), o objetivo do uso da chupeta é o fortalecimento muscular oral portanto, deve ser feito por períodos curtos e somente enquanto a sucção for vigorosa.

 

Proença (1990) aconselha o uso da chupeta como forma preventiva contra o hábito de sucção digital mas, para evitar danos causados pelo seu uso prolongado (para ela, além de 2 anos de idade), recomenda a disciplina, ou seja, quando a criança já fica acordada durante a maior parte do dia, entretida com atividades como observar as mãos e balbucio, restringe-se o uso da chupeta à hora de dormir (situação de cansaço ou sono).

 

Alguns guias para mães recomendam o uso de chupeta com o objetivo de acalmar ou aliviar a necessidade instintiva de sucção que começa ainda no útero. Dizem que é preferível que a criança sugue a chupeta do que o dedo, já que o hábito da chupeta é mais fácil de ser abandonado. Orientam ainda, seu uso com critérios e horários. Dizem que alguns especialistas não recomendam o uso da chupeta durante todo o dia pois pode causar prejuízos emocionais e que o uso de cordões ou fraldas para prendê-las ao pescoço são perigosos. Mas, tais guias não comentam sobre os prejuízos a musculatura labial, postura dos órgãos fono-articulatórios, desenvolvimento da arcada dentária e palato, posicionamento dos dentes, respiração e deglutição.

 

SUCÇÃO DIGITAL

 

Ribeiro e Arraes (1988) destacam que nos primeiros meses de vida, o bebê chupa os dedos, pulsos, mãos, tudo o que a boca alcança. Com esta sucção que se dá de forma instintiva, o bebê sente prazer e precisa dela para se desenvolver emocionalmente. Este é um período de transição em que o bebê deixa para trás o útero da mãe , o nascimento, o desmame, o engatinhar, andar e se esforça para superar estas etapas e aceitar a nova realidade que em resumo, é a separação da mãe que gera frustrações até que a criança possa entender que perde algumas coisas mas ganha outras.

 

Segundo as autoras, como auto-ajuda, nesta fase, a criança usa "objetos de apoio" ou "transicionais" que servem de ponte entre a fantasia e a realidade. Geralmente estes objetos são o dedo na boca, chupeta, fralda no nariz , travesseiro, ursinho.

 

Quando o bebê suga o dedo, tem a ilusão de que chupa o seio da mãe. Tirando e colocando o dedo na boca, por livre e espontânea vontade, se julga capaz de controlar a ausência dela e vai elaborando o presente a medida que amadurece emocionalmente.

 

As autoras dizem que crianças cujas mães não preenchem as necessidades de carinho, atenção e presença, terão mais dificuldade de ultrapassar as fases da infância , assim como, filhos de pais superprotetores que incentivam a criança a manter-se bebê. Desta forma, o desenvolvimento emocional fica em desacordo ao cronológico, tornando-se mais difícil para a criança abandonar hábitos orais de bebê, usando objetos de apoio para preencher lacunas.

 

Chupar dedo, quase sempre, significa algum problema emocional. No entanto, muitas vezes é puro hábito que restou, apesar dos conflitos já terem sido superados. A medida que a idade avançadas chances de parar de chupar dedo espontaneamente vão diminuindo, tornando-se um transtorno para a criança e a família.

 

Proença (1990) acredita que crianças que são amamentadas com mamadeira têm maior tendência a sucção digital como forma pacificadora de necessidade sensório-motora não conquistada que leva à distúrbios fonarticulatórios, com padrão anteriorizado da língua entre gengivas e dentes, deformando a arcada dentária e a produção fonêmica.

 

Altmann (1990) explica que para sugar o dedo, a criança deve manter os lábios abertos e a mandíbula rebaixada, causando hipotonia dos músculos labiais e dos elevadores da mandíbula. Mantendo a língua projetada, a deglutição será incorreta já que o dedo está ocupando toda a cavidade oral.

 

Nos casos de sucção digital prolongada, mesmo com a eliminação do hábito, pode não haver normalização espontânea do quadro muscular porque o indivíduo continua a manter posturas orais e deglutição inadequadas.

 

Fonseca (1997) afirma que a sucção digital por período prolongado (além da fase de dentição decídua) pode causar prejuízos aos maxilares como mordida aberta cruzada e profunda, dependendo da posição como o dedo é levado à boca, a força durante a sucção, o posicionamento mandibular na sucção , a sua duração, etc.

 

O tipo de mordida aberta mais frequente é a anterior, geralmente ocasionada pela sucção do polegar projetado contra o palato, com separação de maxilares para acomodação do dedo, que provoca desoclusão de dentes posteriores, levando a erupção maior do que o normal, dos dentes posteriores. Pode ainda, ocorrer estreitamento da maxila pela ação da pressão negativa no interior da boca, na sucção ou pela alteração no equilíbrio entre as pressões da língua e da musculatura das bochechas. O polegar na boca, abaixa a língua, diminuindo sua pressão contra as superfícies dentais superiores e posteriores. Os dentes sofrem ação do bucinador que se contrai na sucção, provocando pressão maior nas laterais da boca, formando arcada dentária em V.

 

ONICOFAGIA

 

Moresca e Feres (1994) definem onicofagia como o hábito de roer unhas, geralmente iniciado entre os 4 ou 5 anos de idade (período de mudanças emocionais), início da fase escolar, fase de frustrações e ansiedade quando a criança pode procurar um hábito mais agressivo do que a sucção digital e passa a roer as unhas para liberar tensões.

 

Este hábito pode perdurar durante toda a vida e causar má oclusão dentária mas, o componente emocional parece ser o mais importante neste quadro, cabendo à família, o papel principal, quando devidamente orientada por profissionais, na detecção e resolução das causas que levam a criança a roer unhas.

 

Tomé e col. (1996) acreditam que a onicofagia geralmente relaciona-se à necessidade não satisfeita de morder, acrescida de ansiedade. Tem poucas consequências para dentes e músculos, pela pouca pressão exercida e é sempre aconselhável estimular o paciente a abandonar este hábito.

 

BRUXISMO

 

Tomé e col. (1996) consideram bruxismo a falta de coordenação neuromotora dos músculos da mastigação que também pode se manifestar na forma de tiques nervosos, estalos de ATM., etc. e o fator que mais contribui para o seu aparecimento , é a tensão emocional.

 

Soligo (1996) diz que os fatores que causam bruxismo são psicogênicos, neuromusculares ou ambientais. Sua repetição leva a desgaste ou fraturas dentárias e má oclusão.

 

MANOBRAS PARA ELIMINAÇÃO DE MAUS HÁBITOS ORAIS

 

Moresca e Feres (1994) acreditam que para termos resultado eficiente na retirada de um hábito vicioso, precisamos atacar sua causa.

 

Os autores sugerem como evolução para a retirada do hábito oral vicioso: 1. Compreender o paciente e não ridicularizá-lo.

 

2. Esclarecer à família os motivos do paciente e mostrar a importância do seu apoio.

 

3. Conseguir a colaboração do paciente.

 

4. Conscientizar a família sobre os prejuízos causados pelo hábito vicioso, integrando-a ao tratamento.

 

5. Insistir, ao máximo, na retirada natural do hábito, antes da adoção de aparelhos, evitando a recidiva.

 

6. Motivar positivamente o paciente.

 

Com o tempo, o esperado é que a criança elabore suas frustrações, amadureça emocionalmente, adquira outros interesses e abandone os hábitos viciosos. A família pode participar e acelerar este processo mobilizando a criança com outros interesses, sem gerar ansiedade. É importante também, que a família mostre-se mais paciente com a criança que vivência um momento que é passageiro.

 

Crescendo, a criança se percebe diferente diante dos amigos. Os pais podem aproveitar essa consciência e abrir seus horizontes propondo-lhe outras fontes de prazer, estimulando seu lado positivo.

 

PREVENÇÃO E ORIENTAÇÃO FONOAUDIOLÓGICA

 

Garcia (1994) afirma que qualquer problema de saúde ou no desenvolvimento da criança pode desequilibrar o sistema familiar. Portanto, a criança fica exposta a um ambiente carregado de sentimentos de ansiedade, negação, culpa, superproteção ou isolamento que poderão acentuar ainda mais a situação. Por isso, é importante focalizar a família como fator imprescindível para o bom desenvolvimento da criança.

 

Proença (1996) sugere que as barreiras de motivação e percepção, assim como a rede de influências sociais quanto aso hábitos viciosos, devem ser destruídas por meio de estratégias e modelos culturais adequados a cada grupo. Para ela, após a fase de lactação, o trabalho fonoaudiológico preventivo deve voltar-se para a aquisição e desenvolvimento da comunicação, em especial, à contribuição do ambiente familiar para sua adequação.

 

Sobre prevenção e orientação, Lauermann e Wertzner (1994) acreditam em trabalhar com os pais e não com as crianças, com o objetivo de atender a comunidade suprindo-a com informações para que possam usá-las com qualquer indivíduo de seu grupo. Portanto, desenvolve-se um trabalho educativo de orientação a pais, já que educação sanitária nada mais é do que qualquer procedimento que possa dar condições para que o indivíduo tenha harmonia física, mental, social e cultural, para ter uma boa ralação com seu grupo.

 

A orientação aos pais parte de dúvidas ou problemas trazidos pelas famílias, além da observação do fonoaudiólogo que vai determinar as necessidades de cada grupo e nortear as discussões sobre as formas de se eliminar fatores que interferem na aquisição e desenvolvimento do indivíduo, constituindo-se, assim, a prevenção fonoaudiológica.

 

Acredita-se que as orientações capacitam os pais a tornarem-se agentes estimuladores da comunicação, assim como, dá-lhes parâmetros para que detectem alterações da comunicação e possam providenciar os recursos necessários para a sua adequação.

 

A PESQUISA

 

Os dados sobre os hábitos orais na infância foram coletados a partir de questionário sobre amamentação, uso de chupeta/mamadeira: os motivos para usá-los ou não, como e quando eliminá-los, tipos de bicos, etc., hábito de roer unhas, chupar dedo e ranger dentes: quando e porque aparecem e como e porque eliminá-los, respondido individualmente, por mães de crianças de 0 a 12 anos de idade, usuárias do Centro de Saúde do Serviço de Saúde de São Vicente - SP.

 

As reuniões , quinzenais, de mães, eram coordenadas pela fonoaudióloga e visavam esclarecer dúvidas das famílias sobre o desenvolvimento oral da criança e divulgar a atuação da fonoaudióloga.

 

Durante o período da pesquisa (janeiro a abril de 1998), foram questionadas 35 mães com faixa etária de 15 a 42 anos, donas de casa ou empregadas domésticas. Totalizamos 85 filhos, sendo que a maioria das mães tinha 2 filhos com idades entre 2 meses e 18 anos.

 

A partir dos dados coletados, pudemos concluir que os hábitos orais na infância são considerados normais pela maioria das mães que só começam a se preocupar com eles quando alguém estranho ao ambiente familiar chama a atenção para problemas estéticos e/ou de fala.

 

Atitudes como amamentar e oferecer chupeta e mamadeira à criança, fazem parte da cultura deste grupo pesquisado e nenhuma das pessoas ouvidas já havia pensado nos motivos para fazê-lo ou não, assim como, nenhuma delas havia tido a oportunidade de discutir o assunto ou receber orientação de profissional habilitado.

 

Este grupo refere que o pré-natal restringiu-se a consultas obstétricas para exame físico e, após o parto, fizeram visitas de rotina aos pediatras apenas para acompanhamento do desenvolvimento físico da criança, sem que nunca tivesses recebido orientações em relação aos hábitos orais e, nem sequer, soubessem da existência de profissionais de Fonoaudiologia.

 

Em relação à amamentação, várias mães referiram não ter recebido qualquer orientação durante o pré-natal mas todas estavam conscientes da sua importância para o bebê e para elas e não encontramos nenhuma que tenha optado por não fazê-lo ou, pelo menos, tentar. Tal postura é resultado de inúmeras campanhas veiculadas principalmente pela mídia que constantemente exalta os benefícios do aleitamento materno.

 

Constatamos a grande preocupação entre as mães pesquisadas, em relação à aparência dos filhos: "precisam ser gordinhos". Desta forma, a mamadeira passa a ter extrema importância como meio de "nutrir" precocemente a criança, inclusive como forma de oferecer o leite enriquecido (com farinhas) já que o leite materno, para elas, continua sendo "fraco".

 

Destacamos ainda, que para a maioria das pessoas pesquisadas, a chupeta faz parte do enxoval do bebê. Não existe a opção de não usá-la. Geralmente isto acontece quando a própria criança a rejeita mas, sempre após insistência da família para que a use.

 

É importante lembrarmos que a criança só pode pedir ou sentir falta daquilo que ela já conhece. Portanto, quem estimula o hábito de usar chupeta e/ou mamadeira, é o adulto que cuida dela e oferece tais objetos quase sempre para comodidade da mãe que se vê aflita frente a uma nova situação aliada a seus afazeres cotidianos.

 

Em nossa prática, nos deparamos com mães ansiosas e cheias de dúvidas quanto à idade e maneira de retirar chupetas, mamadeiras, sucção de dedo, etc. mas, raramente quanto a quando ou como oferecê-los.

 

Na população pesquisada, a opinião das avós (principalmente), do pai, da vizinha e da televisão, em relação aos hábitos orais, tem o mesmo peso da opinião do médico, do dentista ou da fonoaudióloga. Portanto, podemos concluir que o trabalho integrado destes profissionais é cada vez mais importante e deve incentivar a formação de divulgadores ou orientadores que usem a mesma linguagem da comunidade a que pertencem.

 

Os benefícios e prejuízos dos hábitos orais na infância têm sido exaustivamente discutidos, inclusive por este trabalho e o que nos parece mais importante ressaltar é que não devem existir regras rígidas de conduta em relação ao assunto.

 

É sempre bom considerarmos que cada criança é única e cada família tem suas crenças que devem ser respeitadas.

 

O mesmo hábito tanto pode ser extremamente prejudicial para uma criança (dentes, fala, respiração, estética, desenvolvimento emocional, etc.) como de grande valia para outra criança (aspecto afetivo, desenvolvimento e adequação do sistema estomatognático e funções orais, etc.), em determinada fase de seu desenvolvimento.

 

Cabe ao profissional de saúde esclarecer sobre os prós e os contras de cada atitude em relação ao desenvolvimento de cada criança e cabe à sua família escolher qual atitude adotar visando sempre o bem-estar do indivíduo que está em desenvolvimento.

 

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